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O curioso é que o que se esperava há algum tempo, a partida do Pe. João Seabra, soube dela com choque à hora do jantar de sexta-feira, na companhia de dois seus amigos de juventude, colegas de escola. As vidas dos outros quatro convivas nesse serão, também com a dele se tinham cruzado com mais ou menos intensidade - constatámos. A notícia caiu que nem uma bomba estúpida que estilhaçou a noite com silêncios, mas que não desfez aquela cumplicidade que não havemos de esquecer tão cedo. O que quero salientar é que talvez a mais importante característica do apostolado do Pe. João Seabra é ter marcado a vida de tanta, tanta gente. Dentro dum meio não anticlerical, e mais ainda no meio católico, não é grande originalidade ter-se convivido com o Pe. João Seabra, e esse convívio ter deixado marca, mais ou menos importante, quase sempre profunda. Pela minha parte gostava dos modos afirmativos, provocadores, como o Pe. João se exprimia. Gostava do seu radicalismo nos princípios gerais e da profunda generosidade para com cada individuo, e as suas circunstâncias pessoais. Evidentemente que essa relação compassiva inevitavelmente com o desenvolvimento pedia compromisso, indicava um caminho de radicalidade, que por vezes assustava o meu coração dividido e perdido no Mundo. Atraíam-me a sua erudição, a sua verve desenvolta e emotiva, aquela Fé apaixonada, sólida, por vezes arrogante, que fazia parecer ridículas as minhas hesitações e desconfianças no pedregoso caminho de entrega ao nosso Senhor que nos desafiava – e que ainda hoje percorro com custo. É dele a verdadeira soberania, custa a admitir. Se esse caminho do Pe. João foi algum dia custoso, admiro-lhe a maneira como digeria as suas dores, que só se percebiam quando via uma das suas ovelhas fraquejar. Que conhecia todas pelo nome. Era isso que eu dizia lá atrás: o Pe. João tinha uma capacidade inesgotável para gostar de muita gente ao mesmo tempo, cada um de forma única. Uma extraordinária imitação de Cristo. Durante os muitos anos em que o Pe. João liderou a paróquia de Santos e depois a da Encarnação acontecia-me uma coisa maravilhosa: de cada vez que, de propósito ou de passagem, sem avisar me decidia a visitá-lo, encontrei-o sempre – mas sempre. Com um enorme sorriso, a tratar-me pelo nome.
Consola-me também que tenha feito o início desse extraordinário caminho de vida com pessoas que admiro e com quem hoje convivo. Que tenha sido um monárquico militante, um homem preocupado com a sua pátria, com a sua “cidade”, um católico rebelde mas obediente - notável é a sua tese de doutoramento sobre o processo de captura da igreja pelo Estado no Liberalismo Monárquico, até à Lei da Separação de Afonso Costa, "O Estado e a Igreja em Portugal no início do século XX" - Principia, 2009. No fim foi sempre obediente, calando o desespero por esta obra inacabada e vacilante que é a Igreja de Pedro destes tempos dissolutos (terão sido certamente sempre assim, acredito), de que ele foi um alicerce firme, inquebrantável.
Imagino-o por estes dias lá em cima no Céu, ao lado dos maiores santos da História, em grande celebração e fortes gargalhadas, de braço dado com Jesus Cristo, tal qual como o imagino, nos seus tempos da juventude, quando os rapazes amigos, desavergonhados, exibiam as suas amizades no pátio do liceu.
Nós vamos a seguir, Pe. João.
O "radicalismo" do Padre João Sebra era "mero cristianismo", na expressão feliz de C.S.Lewis.
ResponderEliminarComo dá a entender nas suas últimas linhas, pela sua partida nós é que nos temos de lamentar, por nós próprios.
Deixem-me pedir boleia. Faz doze anos e uns dias que partiu "o" padre que eu conhecia, João Resina Rodrigues, físico, professor universitário, pároco do Campo Grande.
ResponderEliminarNa altura escrevi umas palavras, noutro sítio, noutra língua, perdidas na espuma. Em resumo diziam que as acusações malévolas de obscurantismo religioso são infundadas - o registo factual da intervenção da Igreja na ciência e educação é geralmente brilhante.
Mas a Igreja é adamantina no que toca à dignidade humana. O que condena e proíbe passa por aí. Porque um sistema moral capaz de nos dar tudo o que queremos, também é capaz de nos tirar tudo o que prezamos.
Isto foi abundantemente demonstrado nos últimos séculos. Mas as lições custam a penetrar, e a humilde resistência cristã ao barbarismo avassalador é silenciosa na cacofonia.
Obrigado a ambos.
Bendito Padre João que a tantos fez tanto bem! E agora, na presença de Deus, ainda mais fará...
ResponderEliminarDos grandes nomes "descontraídos" da igreja católica, junta-se a este rol de grandes pessoas o padre antónio pedro boto. Grandes pessoas e grandes humanistas, que boa falta fazem num mundo cada vez mais palerma
ResponderEliminarA ideia que tenho deste padre, pelo que o ouvi e vi na televisão, era de um católico conservador, que dizia esta barbaridade: é o novo tempo que se tem de adaptar à Igreja e não a Igreja ao novo tempo." Toda a a história da Igreja e sua evolução foi precisamente o contrário. Quanto ao resto, quis fazer, em tempos passados, uma revisão histórica da Inquisição, mas não conseguiu. Os processos da Torre do Tombo falaram mais alto.
ResponderEliminarEna, decuplicou o meu respeito pelo homem. Obrigado.
ResponderEliminarComo eu o percebo.....
ResponderEliminarObrigada pelo seu texto, de amizade, proximidade e testemunho. Uma figura ímpar. Ainda lhe fiz uma visita a um grupo de c. 90 pessoas que estavam a fazer férias de famílias no Centro, ao Museu de Aveiro, onde com toda a sua sabedoria e conhecimento da História da Igreja tanto sabia. Além do Sacerdote que era e é. Até um dia Pe. João Seabra
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