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A propósito do hediondo caso de tortura e assassinato de uma menina de 3 anos em Setúbal que a todos nos vem martirizando as consciências, Marcelo Rebelo de Sousa relevou o sinal de miséria moral que o caso evidencia e que nos deve fazer reflectir. Desta vez confesso que estou de acordo com o ângulo da perspectiva do comentador, que acedo a aprofundar. Se por estes dias se ouvem muitas vozes genuinamente indignadas com a falha do Estado e dos seus organismos, julgo que esse é o ponto menos relevante, independentemente de reformas e aperfeiçoamentos que eles mereçam. No meio do choque e incredulidade com os meandros da macabra história, julgo ser necessária a lucidez de aceitar que a maldade sempre existiu e existirá em potência e (ainda bem) que nos consegue surpreender desta maneira mais brutal – porque é contra-natura e antinatural, um acontecimento raro, portanto. E que a única forma que temos de precaver a ocorrência casos de crueldade indizível como estes é o estreitamento da malha social, através das instituições orgânicas que a compõem e estão em profunda crise, as comunidades num processo de atomização voraz e consequente desenraizamento humano. Colocar no lugar da família alargada, da comunidade de proximidade, da paróquia, ou de outros organismos intermédios, uma máquina de vigilância estatal que actue como um colossal polvo policial, é no meu entender um erro grave, não só porque a sua eficácia será sempre risível na gestão do conflito de valores que este tipo de matéria sempre gera, mas porque nada consegue substituir as relações de proximidade duma comunidade estruturada e com valores morais. O “policiamento” dos núcleos familiares problemáticos por entidades estatais é por natureza propensa ao erro e ao abuso, estou em crer. O que eu quero dizer é que temos sorte de não sermos mais vezes confrontados com outros casos chocantes de bestialidade humana como o de Jéssica, tendo em conta a solidão e miséria moral que grassa na sociedade que emerge da modernidade individualista e hedonista que construímos.
Deus receba a menina Jéssica no seu colo acolhedor, tenha piedade dos seus malfeitores e nos perdoe não a termos salvo.
Pode-se pedir um corisco extra para os pulhas que, com óbvio deleite, esparramam a sórdida tragédia nas páginas da frente em letras garrafais?
ResponderEliminarNão quero saber das desculpas que dão para ganhar a vida com isto.
ditado alentejano de outras eras
ResponderEliminar« a miséria não tem lei! »
nesta ''sociedade líquida '' a miséria é física e moral
Não é possível discordar do autor do "post" e há que admirar os sentimentos que revela.
ResponderEliminarApenas noto que, neste caso particular, o policiamento ou fosse o que fosse já tinha sinalizado a situação de risco e a incapacidade parental, sobretudo maternal, para proteger a criança, Depois o caso saíu da alçada da entidade de apoio e foi judicializado, com uma sentença que, na prática, arquivou qualquer medida de protecção à criança.
" não a termos salvo" ou "não a termos salvado"?
ResponderEliminarEu o que gostaria de saber é porque é que a Jéssica estava entregue à mãe, que patentemente não a tratava lá muito bem, e não ao pai. Não terá sido por puro preconceito?
ResponderEliminareste caso vai bastante além disso : não compreendo como é que ao 3ª filho abandonado e institucionalizado não laquearam as trompas a essa coisa que é a "mãe" da criança . porque essa mulher é uma coisa , não é pessoa.
ResponderEliminarEu mencionei dois pontos que não percebi e que, ambos, podiam/deviam ter sido aprofundados pela imprensa. Considero mais um retrato do tempo em que vivemos, uma imprensa que empola, que se repete, que usa superlativos mas que não faz a investigação básica para preencher o direito à informação dos leitores.
ResponderEliminarJá o sr. Balio, interroga-se e especula sobre o que não leu, e podia ter lido. A justificação da sentença do tribunal de Família, foi que, tendo o pai emigrado para o estrangeiro para lá trabalhar, tinha desaparecido o quadro de violência doméstica que, na infeliz e em minha opinião infundamentada, apreciação seria. o único factor de risco para a criança. O resto, seriam fragilidades que poderiam ser supridas pelo acompanhamento pela avó materna.
Mas, afinal, o sr. Balio é funcionário público, não é?.
Obrigado por me ter esclarecido.
ResponderEliminarComo bem observa, eu não li sobre o caso. Porque este tipo de "romances" não me interessa muito. Mas prontos, agora já estou esclarecido.
Esse é exatamente o ponto da questão: pode-se remediar a miséria física e a pobreza material. Há soluções relativamente fáceis de aplicar para as atenuar. Basta despejar dinheiro ou outro tipo de ajudas para cima dos problemas.
ResponderEliminarMas e a miséria moral? Como se resolve?! Como se combate?! Essa é que é questão verdadeiramente preocupante, porque não há dinheiro nenhum no mundo que a possa resolver: é um problema de outra "ordem" e só se combate através da educação e com a transmissão de certos valores civilizacionais que se estão a perder. Mas como eles estão em crise... estes "casos" que surgem são o espelho duma sociedade em crise de valores que deixaram de ser "valorizados" (passe a redundância) e em consequência deixam de ser preservados ou transmitidos no seio das comunidades. Antes os rejeitam!!! É uma questão complexa porque os valores outrora assimilados constituíam um "laço" comum de "saberes" , "costumes" , "memórias" que eram um "património cultural" que envolvia todos, que dava sentido e uma identidade comum, de pertença a um grupo. O "cuidar" dos outros era o traço principal da coesão social e familiar. Perdeu-se todo esse "património" de memórias e o resultado é esta quebra dos laços, esta "aridez" do descompromisso, diria quase "secura" sem compromisso nem responsabilidade que levam à mais acabada desvalorização dos afectos, das relações e dos Outros.
Mais uma vez chegamos sempre à mesma conclusão: o papel fundamental da Educação / Instrução / Informação / Formação no desenvolvimento do indivíduo como formas de combate à ignorância, ao atraso e ao sub-desenvolvimento. Porque é disso que se trata.
Permita-me , num assomo de angústia e raiva impotente s ( mas de raciocínio frio e lúcido ), evocar Vasco Graça Moura ." Reposição da pena de morte para crimes devidamente tipificados".
ResponderEliminarTudo o mais são paninhos quentes, regressão à Lei da Selva; involução civilizacional.
JSP
Compreendo perfeitamente a sua angústia e raiva. Julgo que, sem excepção, foi esse o sentimento geral (tal como já tinha sucedido no caso da menina Valentina e de outros crimes hediondos de igual calibre). O sentimento de revolta transborda, extravasa e a nossa necessidade de justiça é tão imperiosa, tão esmagadora que só se sentirá saciada se existir uma punição suficientemente "justa", i.e., um castigo ao "tamanho" destes crimes brutais. Nunca pensei dizer isto e até me repugna essa ideia que expôs (discutível), mas compreendo-a e tendo a ser flexível com a sua posição e a de V:Graça Moura, em relação a crimes muito excepcionais e, como muito bem diz, se devidamente tipificados. Mas sim, o assunto pedia um debate e uma clarificação, tendo em conta que estes casos se repetem com alguma frequência, apesar de sermos um país de baixa criminalidade e considerado bastante seguro. A pena de morte viria manchar a nossa (boa) reputação.
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