domingo, 18 de julho de 2021

Ainda o Estado Novo

"não passávamos fome como passam hoje, porque nem nas escolas tínhamos uma refeição, foi muito pior. As minhas escolas não as pagou [o Estado Novo] a pronto, nem a prazo. Foram dois particulares que disponibilizaram as casas para que as professoras nos ensinassem a ler. Deixou um país de analfabetos, sem Universidades, sem centros de investigação, sem nada. Estradas para carroças, fazendo com que para fazer 100 KM fosse preciso um dia. Era tanta a miséria, que tivemos de fugir a salto, para o resto da Europa."


Um dos comentadores do meu post anterior pretende contestar o que escrevi com parágrafos deste tipo.


E, no entanto, mesmo que tudo o que acima descrito fosse inteiramente verdade - é impossível verificar tudo, o autor é anónimo e não dá nenhuma informação concreta - a verdade é que este tipo de argumentos, muito frequentes, falham um alvo essencial: a situação de Portugal ser o país mais pobre da Europa Ocidental é uma consequência do Estado Novo, ou não?


A verdade é que Portugal já era o país mais pobre da Europa Ocidental desde a primeira metade do século XIX - contrastando com o que se passava cem anos antes, em que Portugal tinha um dos maiores PIB per capita do mundo - e ainda hoje continua a ser um dos (se não "o") países mais pobres da Europa.


A situação piorou durante o Estado Novo?


Não, a situação não piorou, melhorou minimamente na primeira fase do Estado Novo e melhorou mesmo muito, em comparação com o mundo desenvolvido, na segunda fase do Estado Novo, mas o que melhorou não foi o suficiente para que deixássemos de ser o país mais pobre da Europa ocidental.


Os dados económicos e sociais do país eram muito maus quando comparados com o mundo mais desenvolvido, em Abril de 1974, pode discutir-se se estariam muito melhor se em vez do Estado Novo o país tivesse um regime democrático e liberal (eu acho que sim, mas não há maneira de o demonstrar), mas essa situação era anterior ao Estado Novo, manteve-se no Estado Novo, e não resulta, pelo menos em grande parte, do Estado Novo.


A questão central em que vale a pena concentrarmo-nos não é pois a do regime - a legitimidade dos regimes de governo não se relaciona com os resultados, mas com a legitimidade da sua fonte de poder - mas sim a das razões pelas quais há mais de duzentos anos somos sistematicamente o país ou, na melhor das hipóteses, um dos países mais pobres da Europa ocidental.


O que implica compreender o melhor possível as diferenças entre os períodos em que o nosso desempenho foi particularmente mau e os períodos em que o desempenho foi melhor.


Há vinte anos que estamos estagnados e dificilmente teremos resultados diferentes se continuarmos a funcionar como funcionámos nos últimos vinte anos.

15 comentários:

  1. O Estado Novo acabou há 47 anos, estamos estagnados há 20, então a democracia não parece ser o problema - já existia 20 anos antes da estagnação -, nem a forte intervenção do Estado nos primeiros 20 anos, será o excesso de liberalização do mercado desde a adesão ao Euro?

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  2. Um bom exemplo para o atrao Portugues é o texto de
    A qualidade do próprioportuguee tem de er uma da primeira quetõe

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  3. O anonimato é um facto, é impossível saber quem é a partir do que aqui comenta.
    Mas o que me interessa não é o anonimato, é mesmo a possibilidade de verificar os factos.
    Por exemplo, onde é que eram as escolas (localizações concretas) e em que anos as frequentou.
    Não são dados pessoais, é informação concreta que permite a qualquer pessoa avaliar os factos e, a partir deles, verificar se as interpretações que fazemos são coerentes com os factos.

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  4. Há quem tenha estudado isso e os dois períodos de maior convergência nos últimos 200 anos (o tal entre 1960 e 1973 e mais ou menos o de Cavaco, depois da adesão ao Euro) são os períodos de maior abertura ao exterior.
    Nos últimos vinte anos, pelo contrário, tem-se acentuado a dependência do Estado e a intervenção do Estado na economia, através do capitalismo de compadres que tem caracterizado a governação em quase todo o período dos últimos vinte anos.

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  5. Inverdades são coisas que não existem, o que existe são mentiras.
    E quanto ao fundo da questão?
    Em que escolas andou e em que anos?

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  6.  Não é diz-se, o fracasso de qualquer governação PS está à vista. Os estudos mostram-no, os gráficos apontam-no e a história do seu percurso demonstra-o.  Os resultados estão à vista: em termos económicos, sociais, políticos... Em tudo! Além do mais (todos nos lembramos) acabam sempre por se revelar uns pequenos tiranetes em calções, uns amadores, porque nem para isso têm competência. O que também não admira, pois o Costa é um incompetente activo e fez-se rodear de sornas incompetentes que pouco trabalham e nada sabem planear( basta ouvir o que revelou o resultado do Inquérito aos festejos do Sporting). E sem perfil para os cargos que exercem, como se comprova diariamente, e quanto a experiência, só se a tarimba no partido,  subindo os "degrauzinhos" onde se forjam "fidelidades", porque é isso que "dá" curriculum (!) 
    É um governo praticamente de um grupo de amigos. Costa escolheu-os porque sim, porque lhe apeteceu, porque quis ter os amigos "muito lá de casa" perto de si, assim como os colegas de Faculdade. Não se pode apontar um único que seja, que tenha sido escolhido pelo seu mérito, pelo valor ou pela excelência. E muito menos pelo seu perfil para o cargo (com um ou duas excepções).

    (Desculpe por não assinar, mas não tenho confiança e não sei até que ponto vai o policiamento e o sistema de "vigilância" sobre nós.)

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  7. Ó HPS,  o que cita, e está num comentário, é de uma indigência de bosta — segundo o castanho-escuro de nome mamadou baila ba.
    Pelo meu sentir, cientificamente improvável, 80% dos portugueses são estúpidos; dos restantes, uns 10% são ignorantes. Os 10% restantes sabem trabalhar e ganhar a vida [aqui ou na extranja].
    Estupidez+Ignorância são fáceis de topar: quem não sabe contar além de 10 sem se descalçar.
    Já lhe disse muitas vezes: deixe os animais zurrarem. Vozes de burro não chegam aos céus.
    Abraço

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  8. Obrigado pela informação que me permite situar as coisas.
    Farei um post (não sei quando), com base na informação que coligi rapidamente sobre o assunto.

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  9. O capitalismo de compadres não deixa de ser capitalismo privado. Culpar a intervenção do Estado porque este é roubado pelo capitalismo, parece ser colocar a culpa na vítima..
     A diminuição do Estado na Economia passa pelo capitalismo rentista. Já ninguém quer viver com um sistema de saúde ou de educação ou de infraestruturas públicas como tínhamos no Estado Novo. Para garantir que a qualidade dessas infraestruturas não se degrade e se mantenha universal terão de ser pagas pelo Estado. Ou são feitas pelo Estado diretamente, mas aí temos um Estado grande ou são privatizadas com pagamentos assegurados pelos impostos e temos o capitalismo de compadrio.
    Se em vez se preocuparem tanto com o papel do Estado na economia os nosso estudiosos se preocupassem com o processo de captura do mesmo por capitalistas que foram endeusados até se descobrir que tinham pés de barro, talvez se chegasse a alguma conclusão útil.

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  10. Apenas uma correcção, se me permite: Cavaco sai do governo em 1995, 4 anos antes da entrada do Euro.


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  11. Tem razão, é durante a preparação para a entrada no Euro, que nos obrigou a um esforço de reformas e abertura económica

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  12. Se bem percebo a sua ideia, o Estado que se deixa capturar por capitalistas é o mesmo que garante o bem comum, com base em recursos que caem do Céu, é isso?

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  13. Os recursos não caem do céu, Mais interessante do que ver de onde vêm os recursos seria ver para onde eles vão. Ou são aplicados ou vão servir para os nosso capitalistas terem lucros fáceis.
    Em qualquer dos casos os impostos não descem, não se iluda.

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