
Pelo meio de Janeiro comecei a escrever sobre o que estava a suceder na mortalidade e na evolução covid, com o pressuposto de que não se poderia olhar para os números sem ter em atenção a anomalia meteorológica que ocorreu entre 24 de Dezembro e 20 de Janeiro.
Eu não sei qual dos factores meteorológicos criou as condições ideais para reprodução do vírus e a sua transmissibilidade, não sei se é o frio, se a humidade, se a combinação dos dois, sei é que às condições sinóticas que ocorriam, correspondeu uma determinada evolução da mortalidade e da epidemia (por isso não sei responder aos apelos para olhar para a onde de frio na Grécia - nevou ontem em Atenas - eu não sei o suficiente do assunto para retirar ilações tão precisas do que se passou em Portugal, só sei que a hipótese de haver uma ligação estreita entre as condições meteorológicas que ocorreram em Portugal e a evolução da epidemia não me parece que possa ser descartada).
A hipótese que levantei, e que depois fui corrigindo para integrar os desvios que ia verificando e que procurava entender, foi a de que estavam a ocorrer dois processos paralelos, um relacionado com o impacto directo do frio (digo do frio porque foi o que li na bibliografia, eu preferia dizer, das condições meteorológicas prevalecentes) na mortalidade, outro resultante do efeito indirecto dessas condições na transmissibilidade da covid (tenho dúvidas de que se fale de transmissibilidade da doença, e não do seu agente infeccioso, mas paciência, não me vou pôr a procurar a formulação mais exacta, não tenho tempo para ser mais rigoroso numa coisa que não é fundamental).
A ser válida esta hipótese, ver-se-ia uma subida da mortalidade quatro a sete dias depois do início da anomalia meteorológica - que afectaria mais a mortalidade por doenças cardiovasculares que respiratórias, segundo li, mas brevemente, não tenho segurança nisso - a que se seguiria um aumento da mortalidade covid, duas a três semanas depois do início das condições meteorológicas favoráveis ao contágio.
Haveria um factor em que esta hipótese teria de se reflectir, se a hipótese fosse válida: o peso da mortalidade covid na mortalidade total.
O gráfico acima procura exactamente acompanhar esse factor, tem a mortalidade global, a mortalidade covid, a relação entre as duas e a média a sete dias centrada (usando três dias para trás e três dias para a frente, em vez dos seis dias anteriores).
Desde há um ou dois dias a mortalidade global anda por valores que se pode dizer que são normais, em torno dos 380 a 400 (é uma mortalidade relativamente alta, mas já dentro da normalidade), o que me leva a crer que a mortalidade global não irá descer muito mais, e a mortalidade ainda está numa descida que se vai manter por alguns dias.
Como previa a hipótese, o indicador do peso da mortalidade covid sobre a mortalidade global, que num primeiro momento se manteve pelos 20%, subiu expressivamente para os 40% e picos e, depois da alteração das condições meterológicas a 20 de Janeiro, a que se seguem duas a três semanas entre contágio e morte, está agora a retornar aos tais 20%, mais coisa, menos coisa, ou seja, a previsão resultante da interpretação do que estava a ocorrer tem uma boa adesão à realidade verificada, que é o principal critério para aferir se um modelo de análise presta ou não.
Principais conclusões
Qualquer coisa como um terço a um quarto (não me peçam para demonstrar, é uma ordem de grandeza que intuo que não deve andar longe da realidade) da mortalidade covid corresponde a pessoas que morrem e, por acaso, testam positivo, a doença tem muito pouca relação com essa morte.
A situação excepcional de mortalidade em Portugal, neste Janeiro, explica-se mais solidamente entrando em linha de conta com as condições meteorológicas ocorrentes que pelo aumento do número de contactos de risco no Natal (esta conclusão tem o apoio de vários outras indicações que não estão neste gráfico, como a evolução de casos e do R(t) durante Janeiro).
As medidas coercivas - quando os números sobem as pessoas reagem e protegem-se mais, independenteente das regras existentes - de controlo de contactos podem ter algum efeito, mas é apenas um efeito de potenciação da evolução natural da epidemia, portanto os seus efeitos reais sobre internamentos e mortes é bastante limitado.
Sendo difícil saber quanto vale o efeito das medidas mais radicais de controlo de contactos em menos mortes e internamentos, parece claríssimo que fechos de escolas e proibição de vendas de bebidas ao postigo são medidas cujo custo é imensamente maior que o benefício que trazem à sociedade, com a agravante de que esse custo é desproporcionalmente grande para os mais pobres.
O papão de uma quarta vaga ainda antes da vacinação ter efeito não passa disso mesmo, de um papão, quer porque a probabilidade da ocorrência de condições tão favoráveis à transmissibilidade é baixa, quer porque imunização da população é hoje muito mais alta que era antes deste surto.
Por fim, é bem possível que se assista a uma redução temporária, embora não de grande dimensão, quer na mortalidade global, quer na mortalidade covid, já que o que aconteceu em Janeiro acabou por antecipar a morte dos mais frágeis e vulneráveis em algumas semanas ou meses, concentrando em Janeiro uma mortalidade que, na ausência do que se passou, ir-se-ia distribuir pelas semanas e meses seguintes.
Duvido que o efeito inverso na mortalidade resultante da falta de acompanhamento de outras patologias, que irá ter um efeito prolongado no tempo, provavelmente bem mais prolongado que o que referi no parágrafo anterior, seja maior que o que decorrerá do descrito no parágrafo anterior.
Não entendo como se continua a referir o alívio das medidas de confinamento no Natal como a causa da terceira vaga da epidemia.
ResponderEliminarO Dr Abel Mateus publica hoje no Observador um artigo onde inclui um gráfico altamente esclarecedor: o número de casos e de mortes na UE. Relativamente às mortes, verifica-se sensivelmente o mesmo ritmo de crescimento do número de mortes durante a primeira vaga e no último Outono-Inverno, contrastando com o quase inexistente aumento de mortes durante o Verão.
As medidas de confinamento em Junho, Julho e Agosto foram muito inferiores às dos dois dias de Natal. Como é que se pretende que a terceira vaga foi determinada pelos dois dias de Natal e os três meses de Verão não tenham tido efeitos?
Aquilo que me parece óbvio é que as condições ambientais (calor, baixa humidade, alto nível de UV), que poderão influenciar o comportamento do virus, se associaram ao tipo de contactos sociais (ar livre, arejamento de espaços interiores) de tal modo que a evolução natural da epidemia (descrita pelo modelo SIR) foi esmagada pelas consequências dessa condições ambientais.
Como previsível, o Outono-Inverno restabeleceu as condições ambientais que permitem a evolução natural da epidemia. A vaga de frio desde o Natal a meados de Janeiro apenas agravou essas condições.
Há que que confinar os infectados e os mais susceptíveis devem proteger-se. Proibir o acesso a praias ou a outros espaços ao ar livre, no Inverno, só pode ser entendido como uma prepotência inútil quando isso não ocorreu no Verão e as pessoas sabem que não lhes aconteceu nada. Porquê agora?
ResponderEliminarEntretanto: Nos últimos 14 dias Portugal teve um total de 60700 novos casos de infeção por SARS-COV-2.
O número de novos casos em 14 dias está a descer rapidamente. Estimo que daqui a dez dias esse número atinja os 25000. Portugal terá nessa altura 240 novos casos por 100 000 habitantes, ou seja, passará a estar em "risco moderado".
António Costa disse que o confinamento só poderia acabar quando isso acontecesse.
Questão: se daqui a dez dias Portugal já estiver em risco moderado, como prevejo, que farão Costa & Marcelo? Prosseguirão a tortura do país, com novas desculpas? Ou aceitarão que a realidade furou as previsões e eliminarão o confinamento?
E em todos os países europeus foi igual.
ResponderEliminarAguardemos agora para a semana o que acontece nos países do Norte e Centro que estão há dias debaixo de temperaturas negativas. Penso que não será tão evidente como em Portugal, até porque têm melhores condições para o suportar, mas que irão subir, irão.
A percentagem de "Covides" vs Totais, também estará sobredimensionada.
Não querendo dizer nada, mas só das minhas relações, morreram 3 pessoas, a quem foi detectado o vírus depois de mortas!!!!
ResponderEliminarNão é descabida a "hipótese do frio" no que se refere à mortalidade não-covid, antes pelo contrário. Existe uma relação causal ditada pela fisiologia - e não apenas correlação - entre condições de stress térmico (uma área de investigação científica) e mortalidade. Sempre que as temperaturas se desviam apreciavelmente de condições de conforto térmico, a mortalidade aumenta, quer se trate de temperaturas baixas, quer de temperaturas altas. Este facto, muito embora apareça mascarado no Inverno pela mortalidade causada por infecções respiratórias, é de todo evidente no Verão aquando da ocorrência de ondas de calor.
Já no que diz respeito à mortalidade e à incidência da COVID-19, não me parece que a temperatura seja um factor determinante. Apesar de ter conhecimento de vários artigos científicos que mostram a existência dessa correlação, em nenhum deles encontro análise comparativa entre temperatura e irradiação solar. O único artigo científico de que tenho conhecimento onde se estuda a influência da irradiação solar, da temperatura e de outras variáveis meteorológicas é este:
"Higher solar irradiance is associated with a lower incidence of COVID-19"
(https://pdfs.semanticscholar.org/22d5/2f6dd0a34849278420b06ef136db7e9a8a38.pdf).
Tal como o próprio título indica, de todas as variáveis meteorológicas estudadas, aquela que se destaca é a irradiação solar. O que vem ao encontro daquilo que se sabe, sem margem para dúvidas, sobre a existência de relação causal entre irradiação solar (a causa), temperatura, efeito virucida dos ultra-violetas e concentrações de vitamina D (os efeitos).
Toda a evidência científica produzida antes e após a COVID-19 aponta para a influência determinante que a carência e a insuficência de vitamina D desempenham na frequência de infecções respiratórias, na positividade de testes ao SARS-Cov-2, na gravidade dos seus sintomas e nos desfechos fatais - artigos científicos às dezenas, basta fazer-se uma pesquisa (em inglês). Pelo facto de não haver divulgação generalizada sobre a importância da vitamina D, há quem afirme tratar-se de uma verdadeira conspiração de silêncio e mesmo de negligência, o que constitui crime.
Para colocar em evidência a importância da vitamina D, socorro-me de ensaio clínico onde se testa o efeito terapêutico de um seu análogo, o calcifediol:
"Effect of Calcifediol Treatment and best Available Therapy versus best Available Therapy on Intensive Care Unit Admission and Mortality Among Patients Hospitalized for COVID-19: A Pilot Randomized Clinical study"
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960076020302764
Também o artigo científico
"The seasonality of pandemic and non-pandemic influenzas: the roles of solar radiation and vitamin D"
(https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1201971210024975
estabelece uma relação clara entre irradiação solar, concentrações de vitamina D e sazonalidade da ocorrência de gripe.
Sobre o efeito perverso das medidas não-farmacêuticas a evidência empírica já se encarregou da demonstração, não sendo necessário referir artigos científicos. Basta ir-se ao worldometers e comparar os gráficos de mortalidade da Suécia e de Belarus, sem confinamentos, sem máscaras e com escolas parcial ou totalmente abertas, com os de outros países. Qualquer cepo com apenas um olho e mais de dois neurónios funcionais chega facilmente a essa conclusão.
Mortes 4 a 7 dias depois da alteração meteorológica como?
ResponderEliminarQuanto tempo demora da infecção à morte?
Podem estar perto de um mês infectados até morrerem.
Efeito directo do frio, não da infecção
ResponderEliminarEstá, portanto, a negar que essas mortes tenham tido Covid e tenham sido mortes por enrelegamento, ou assim, que nem foi registado?
ResponderEliminarEstou a dizer que o que diz a bibliografia: fenómenos meteorológicos extremos provocam alterações metabólicas que, em algumas circunstâncias, podem dar origem a alterações da condição física fatais, numa proporção que, ao que li (não é a minha área de trabalho) anda pelos 70% de doenças cardiovasculares e 30% doenças respiratórias.
ResponderEliminarCom certeza estes óbitos são registados, como AVCs e afins, que é realmente a causa da morte. Parte das pessoas que morrem nestas circunstâncias, por acaso, testam positivo, mas a covid não foi relevante para a sua evolução clínica.
Se ler o post, verá que digo que isto não diz respeito à mortalidade total, mas a uma parte.
Sim. Mas os nºs de mortes Covid em que se baseia não vêm com essa discrição.
ResponderEliminarPortanto só tem duas alternativas para manter o raciocínio:
1- ou bem que nega a catalogação dessas mortes 4 dias depois como mortes Covid e então pode sustentar o que defende
2- Ou bem que não tem pé por onde negar e aí está a juntar à sua suposição de causas de morte, mortes que não foram inscritas como de gripe e afins mas sim, mortes de pessoas que já estavam há muito mais tempo contaminadas com Covid e daí terem morrido nessa altura. Assim sendo, a sua ideia cai por terra.
Vêm tão pouco discretos como as suas contas
ResponderEliminarehehehe
Queria dizer descritos. :)
ResponderEliminarMais ridículo se torna quando vem o papão (como acho que concordámos todos que em janeiro, com frio ou sem frio veio) e vem com afirmações vagas de que "eu nao sei nada disto, posso estar enganado, mas acho que provavelmente as medidas são alegadamente e eventualmente muito duras e temos de começar, eu não sei nada atenção, posso estar enganado, mas a curva está a descer, por isso temos de começar a desapertar e mola..."
E sobre os fundamentos da afirmação, tem alguma coisa a dizer, por exemplo, onde estão errados?
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