quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Fazer o bem não é isto

"Celebrar o Natal é aumentar o número de pais e avós que para o ano vão ser um lugar vazio na mesa. É duro? É triste? É. Mas para mentiras e demagogias já temos muitos."


Caro Gustavo Carona, eu até posso admitir as boas intenções na base desta frase mas, como todos sabemos, de boas intenções está o Inferno cheio, há poucas coisas mais mortíferas que ideias generosas aplicadas e difundidas sectariamente.


Esta sua frase não tem qualquer relação com o bem comum, é apenas chantagem emocional e mais uma aplicação da ideia, eticamente deplorável, de que os fins justificam os meios.


Vamos então sair do seu registo emocional para o campo da racionalidade chata e aborrecida, com uma voltinha pela ética.


Em primeiro lugar o Gustavo sabe - tem de saber, não me passa pela cabeça outra hipótese - que metade a dois terços das pessoas que morrem com covid morreriam, mesmo sem covid, no prazo de um ano dada a sua condição de saúde.


Quase desde o princípio da epidemia que existe informação sobre o facto de haver uma enorme proporção da mortalidade associada a morbilidades não relacionadas com a covid e à idade.


Ou seja, o que o Gustavo está a pedir não é que as famílias prescindam dos seus "mayores" este ano como preço a pagar pela sua presença no ano que vem, o que está a pedir é que os privem do seu último natal com quem lhe pode dar algum conforto na parte difícil da vida que antecede a morte.


Quer no caso dos que viessem a ser infectados com covid e morressem por essa razão, quer dos muitos mais que irão morrer entre este e o próximo Natal, com ou sem covid (sem covid serão muitos mais, como sabe).


O que o Gustavo está a fazer é a substituir-se ao juízo concreto das famílias e das pessoas envolvidas sobre as circunstâncias de cada um, pondo sobre quem tem uma decisão difícil a tomar uma responsabilidade e, eventualmente, uma culpa, que não lhe cabem: quem é responsável pelas infecções e pelas mortes é o vírus, não são as vítimas do vírus, como somos todos, pelo menos potencialmente.


Que diga às pessoas para não forçarem os seus "mayores" a estar presentes quando não querem, que diga às pessoas que saibam ler nas entrelinhas da falta de liberdade que muitas destas pessoas têm para dizer de forma clara que preferem estar sozinhas neste natal, que diga às pessoas que talvez seja boa ideia restringirem ainda mais os contactos sociais na semana que precede o natal, se forem estar com pessoas de risco, que diga que talvez não seja má ideia fazer testes dois ou três dias antes do Natal, que diga às pessoas de maior risco que usem máscara N95 porque as outras não servem para proteger o próprio, que diga às pessoas para organizar as mesas de maneira a reduzir riscos, que diga às pessoas para de hora a hora abrirem as janelas, apesar do frio, que diga às pessoas para adoptarem todas estas medidas ou outras que possam reduzir os riscos para as pessoas de risco, eu posso concordar ou não sobre o efeito dessas medidas, mas é absolutamente racional, razoável e sensato.


Que use o terrorismo emocional para impor o seu ponto de vista sobre os riscos que as pessoas e as famílias devem correr, e o faça elegendo apenas um dos riscos que corremos todos os dias, desvalorizando os riscos de depressão, os problemas da solidão, os problemas do abandono - criando justificação moral para acentuar o abandono a que estão votadas muitas das pessoas mais frágeis - os problemas de falta de acompanhamento que permite reparar, a tempo, nos efeitos da falta de exercício, de troca da medicação, etc., e que ignore as cem milhões de pessoas que por causa da epidemia, mas também da forma como gerimos a epidemia, cruzaram a linha da pobreza extrema, com o que isso representa de sofrimento, doença e morte, isso, meu caro Gustavo, isso não é fazer o bem, isso não é estar do lado da humanidade que nos caracteriza, pelo contrário, isso é repetir o erro dos muitos que banalizaram o mal quotidiano em troca de um bem maior futuro.


E isso não é, seguramente, o que diz que o natal representa para si.

3 comentários:

  1. Há coisas que não entendo.
    Dizem que os médicos pela verdade não têm credibilidade porque não são da área, logo não sabem do que falam.
    Então mas se este Gustavo Carona também não é da área porque razão lhe dão credibilidade e tempo de antena?

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  2. Estimado HPS,
    o gajo que refere neste post é uma besta. Ou seja um animal que não é humano.
    São gajos e gajas deste jaez que têm todo o pedigree de merdosos.
    Mas não há-de um povo de merdosos para apreciar um colega?
    Abraço

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  3. Estamos perante uma grave doença epidémica, pandémica e mortal.

    Vá para casa, isole-se, tome bebidas quentes como chá e se fizer febre tome benurom.


    Mas que raio de doença epidémica, pandémica e mortal é esta que se receita chá com tostas. A mais ninguém faz confusão? É que contei esta situação a alguns amigos meus e já todos tiveram casos iguais de prescrição. 

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