segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Olhar em frente

Quando perguntaram a Graça Freitas por que razão a aviação tinha distanciamentos menores que os outros transportes públicos (e outras actividades), Graça Freitas, em vez de responder que em todos os casos há uma ponderação de custos e benefícios, dizendo que os custos eram estes, os benefícios aqueles, o que justificava as diferenças, resolveu responder que era porque nos aviões as pessoas só olhavam em frente.


Esta resposta deveria ter resultado na perda total de credibilidade social, não de Graça Freitas (todos dizemos disparates), mas da Senhora Directora Geral de Saúde.


No entanto, tirando umas piadas de Ricardo Araújo Pereira, e um ou outro comentário de vez em quando fazemos sobre esta resposta, a Senhora Directora Geral da Saúde continuou a ser ouvida pelo jornalistas como se valesse a pena ligar ao que diz.


Não é pelo disparate em si que deveria ter havido consequências, é porque uma pessoa que responde assim, inventando factos, contando com a manifesta burrice de quem a ouve, sem o menor respeito por si própria e pela sua palavra - quer pessoal, quer institucional - só porque dá jeito para defender uma decisão política, é uma pessoa perigosa, se deixada sem controlo nem escrutínio.


Infelizmente, nada aconteceu.


Não é a demissão de pessoas que resolve alguma coisa (em alguns casos ajuda, mas não é um factor essencial) e por isso quando escrevo que não aconteceu nada, quero dizer que não houve qualquer análise de processos que permitisse ir fazendo alterações que melhorassem o desempenho da DGS (Graça Freitas é, neste contexto, irrelevante, o que está em causa é a cultura organizacional).


Sem surpresa, houve mais um conjunto de decisões e declarações sem a menor consistência e coerência, de que a recusa ilegal de publicitação do parecer sobre o Avante é apenas um exemplo.


Não admira que quando se tratou de decretar um isolamento que tribunais já equipararam a prisão, para crianças e adolescentes em situação de especial fragilidade, nada dentro da cultura de organização tivesse feito soar os alarmes sobre a evidente discrepância entre riscos da situação, perdas para estas pessoas e benefícios na gestão da epidemia: toda essa discussão estava morta e enterrada e Graça Freitas definia o que era ou não socialmente aceitável, com base em argumentos semelhantes aos que usou para justificar os distanciamentos na aviação.


E este é o ponto em que estamos.


O protesto por causa das crianças em casas de acolhimento foi suficientemente forte e audível, dados os factos, mas o máximo que se consegue será poupar estas crianças e adolescentes aos efeitos da prepotência da DGS, não se consegue nada que aponte para o robustecimento institucional que permita evitar coisas destas para o futuro e para corrigir as inúmeras pequenas prepotências que o passado recente nos trouxe (como o que acontece no desporto amador, por exemplo, mas também a quantidade de regras inúteis que criam ineficiência económica e conflitualidade social, que alguém se lembra de inventar na DGS).


Precisamos urgentemente de mecanismos para nos defendermos da DGS, com ou sem Graça Freitas, não porque esta seja a boa altura para enfraquecer a DGS, mas exactamente para que um dia destes a DGS não esteja na posição da Direcção Geral de Alimentação e Vetertinária, que António Costa resolveu dinamitar para se safar de uma mesquinhice política que o estava a incomodar.


P.S. Hoje, pela primeira vez, fui envolvido numa treta qualquer por uma senhora completamente desaustinada por eu estar sem máscara numa padaria em que ia comprar o pão e sair ao fim de trinta segundos. Entro em todo o lado sem máscara, mas logo que alguém me diz para eu pôr, eu não faço cenas, ponho-a sem problema. Mas desta vez a senhora resolveu fazer uma abordagem agressiva, numa loja quase vazia e em que toda a gente estava a bem mais de dois metros de distância. É para o lado que durmo melhor e não falaria disto, se tivesse sido só isto (tenho uma enorme paciência para malucos). O extraordinário é que a senhora  que me abordou se tenha achado no direito de ameaçar a senhora que me atendia que, coitada, tanto tem de aturar parvos, como eu, que entram na loja sem máscara, como senhoras que como o 25 de Abril perderam uma promissora carreira na bufaria. Claro que nessas circunstâncias puz imediatamente a máscara, lá disse que a senhora que me atendia se devia ter esquecido de me lembrar de pôr a máscara. O que me impressiona nisto são as regras que estão definidas: um incentivo intolerável à chantagem sobre os elos mais fracos para obter ganho de causa. Duvido que esta seja a melhor forma de criar sociedades coesas e com um chão comum. Suponho que esta seja uma mera preocupação minha, a DGS deve-se estar totalmente nas tintas para o chão comum, a partir do momento que dá voz de prisão a crianças fragilizadas só para poder defender o governo (qualquer que seja) no caso de, por acaso, haver um surto numa instituição de acolhimento em que o Estado tenha responsabilidade.

5 comentários:

  1. O problema da gestão desta pseudo pandemia por parte da DGS é precisamente esse, incentivar o renascimento da bufaria.
    Eu ainda me lembro da Graça Freitas, no início relativizar o uso de máscaras e desvalorizar a sua eficácia. Agora que o mercado está saturado de máscaras quer tornar obrigatório o seu uso em espaços abertos. 
    Palavras para quê?

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  2. O caso mais estranho que vi foi uma senhora descompor um empregado de supermercado que estava a limpar o chão com uma máquina por ele passar a menos de dois metros dela. E estavam ambos de máscara. É a paranóia em todo o seu esplendor.

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  3. Sem dúvida com toda a razão, mas ao aplicar essa lógica, a esmagadora maioria dos dirigentes do aparelho do Estado teriam de ser afastados.
    Estamos simplismente a pagar a factura de décadas a encharcar o funcionalismo público (e para público) com amigos e familiares independentemente de seu mérito.

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  4. Graça Freitas está entre os seus pares...


    António 'O Boçal' Costa afirmou em 28JUN20:

    "Há uma enorme diferença entre uma vacina e um antibiótico. É que a vacina serve para nós ficarmos imunes aos vírus, os antibióticos é para combater os vírus"

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  5. O mais importante é: O que fizeste tu?

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Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão...