terça-feira, 5 de novembro de 2019

Uma história sem importância

Há algum tempo, o processo do Freeport passou-me pelas mãos e a divisão que eu chefiava no ICN deu parecer negativo (por razões que são perfeitamente discutíveis, claro, estava longe de ser uma situação evidente).


Independentemente disso, e de ser eu o responsável por esse parecer negativo, sempre tive a opinião pessoal de que aquele projecto não tinha grandes impactes ambientais, a questão é que a minha função não era exprimir opiniões pessoais, mas aplicar a lei que, na opinião que eu e os meus técnicos fizemos na altura , estava a ser violada (nada que não fosse resolvido com uma alteração ao projecto, mas não era uma alteração fácil).


O processo saiu das minhas mãos, passou a ser directamente acompanhado pelo meu director de serviços, e foi aprovado como toda a gente sabe.


Muitos anos depois, já eu não estava no ICN e nem me lembrava dos pormenores do processo, o assunto ressuscitou e vários jornalistas começaram a fazer-me perguntas. Tive então o quarto de hora de fama que me caberá em sorte (o que me obrigou a pedir para ver outra vez o processo e reparar, divertido, nas minhas anotações à margem do processo (de que já me tinha esquecido totalmente), registando as intervenções por telefone do meu então director de serviços).


Tudo isto já terei contado muitas vezes, do que falo menos vezes é de um telefonema de uma pessoa que eu conhecia de outros carnavais, e que era, ou tinha sido, um quadro importante do PS, convidando-me para um almoço.


Foi uma conversa agradável, o Freeport tinha sido anunciado como o tema do almoço e, essencialmente, percebi que o meu amigo queria saber o que sabia eu sobre os bastidores do processo e se sabia de alguma coisa objectiva que apontasse para uma ilegalidade.


Na verdade eu nunca disse que havia ilegalidades no processo (para além da que tinha motivado o meu parecer negativo, mas essa, legitimamente, tinha sido afastada de forma clara e transparente, erradamente, do meu ponto de vista, mas apenas isso). Embora tenha sido um processo com uma tramitação excepcional, isso poderia ser resultado de considerações legais sobre o assunto.


No entanto, disse que me lembrava de ouvir rumores na altura, nada mais que rumores (muito frequentes neste tipo de processos mediáticos e que envolvem muito dinheiro, mas raramente verdadeiros), de que teria havido favores ligados ao financiamento partidário.


Foi esse o contexto em que ouvi a mais circunstaciada história sobre a herança de Sócrates, envolvendo uma história rocambolesca das circunstâncias da morte do avô, que justificariam um caminho ínvio para a herança, que na altura achei uma mera chalaça.


Vejo hoje, talvez uns sete ou oito anos passados, que estava enganado, não era uma piada ou uma história divertida para um almoço, afinal sempre era mesmo verdade que a herança existia e que tinha ido parar a Sócrates.

6 comentários:

  1. ICN...Agência Portuguesa do Ambiente sobre o Montijo Airport, tudo vai batendo certo. 
    Talvez até um/a PGR capaz e com sentido hierárquico do poder.
    No sentido da filosofia das burocracias, terei lido de Max Weber.





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  2. Com uma famiglia alapada ........o que se espera ????


    A,Vieira

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  3. e qual era a história ?  e se  o zé pegou nesse boato e agora da-o como história verídica  ? ó pá .

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  4. José Monteiro I mean
    De costela aeronáutica.

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  5. É estranho Sócrates ter-se sujeitado até à prisão, estando os milhões perfeitamente justificados.

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