Depois de um braço de ferro durante grande parte do século XIX, os domesticadores de mercados impuseram-se aos livre cambistas e uma lei de 1899, proposta por Elvino de Brito, domesticou o mercado de cereais em Portugal.
Um êxito que José da Silva Picão, um produtor agrícola, descreveu assim “coincidiu a protecção à cultura cerealífera, que deu em resultado o alargamento enormíssimo dessa mesma cultura e por consequência a precisão de braços e a subida importante nos salários e soldadas”.
Num país em que grande parte do rendimento era gasto em pão, esse êxito deveria ser celebrado por toda a gente, mas estranhamente a lei passou à história com o nome de “Lei da Fome”.
A domesticação do mercado de cereais em Portugal manteve-se quase cem anos, sendo conhecida a Campanha do Trigo, decalcada da Batalha do Grão, levadas a cabo respectivamente por Salazar e Mussolini, dois impenitentes anti-liberais e reconhecidos domesticadores de mercados.
Em Portugal esta domesticação dos mercados de cereais tornou o Estado o grande cliente de grande parte da agricultura, com excepção de alguns sectores que operavam em mercados menos domesticados, como as frutas e legumes.
A opção do Estado não foi no sentido de garantir rendimento aos consumidores que tivessem dificuldade no abastecimento de bens essenciais, a opção foi, como era normal na época, a domesticação do mercado.
Com a torneira de emigração fechada desde a grande crise económica dos anos 20 e 30, e depois com a guerra, o mundo rural foi-se enchendo de gente cada vez mais pobre, ou melhor, os donos das terras iam andando menos mal, os trabalhadores iam andando menos bem e os que eram simultaneamente donos de terras e trabalhadores não iam andando nem bem nem mal.
O resultado desta política (ironicamente próxima do que hoje defendem o PC e o BE para a agricultura, fortemente proteccionista e visando a autarcia alimentar), foi bem sintetizada por Rui de Andrade em 1956: ““A carne é um artigo que se pode considerar de luxo, e o que nos vale é termos peixe barato e o grosso da população ser quase vegetariana, visto que se alimenta de legumes, hortaliças, trigo, milho e batatas”.
A análise que me parece mais lúcida e elegante aos efeitos desta política foi feita em 1916, numa crítica à lei de 1899, e numa crítica ex-ante à política domesticadora de mercados que Salazar aplicou. Nessa altura, um jovem académico prestava as suas provas de entrada como professor em Coimbra discutindo exactamente a questão do trigo:
“De modo que este país da vinha e da oliveira, das frutas magníficas e das flores preciosas, podendo oferecer nos grandes mercados, com antecedência de bastantes dias, os produtos mais caros e mais raros, de maior procura e consumo, vive agarrado à miséria da sua cultura de cereais. Porque não a abandonará?”.
Ao que parece o jovem académico nunca teve o poder suficiente para aplicar estas ideias, apesar do seu nome se ter tornado, posteriormente, largamente conhecido: António de Oliveira Salazar.
Esta coisa de domesticar mercados, apesar das evidências históricas, é uma cena que assiste a muita gente que jamais deixará que os factos influenciem as suas ideias.
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