Porque é que Portugal arde?, pergunta a imprensa. Esta é a época do ano em que os fogos florestais enchem o país de bombeiros de bancada, silvicultores de rede social, e paisagistas de café. Todos têm uma resposta. Mas há uma regra para o jogo: seja qual for a resposta, não pode ser a mesma para a pergunta porque é que a Califórnia, a Austrália ou o sul de França também ardem. A resposta precisa de ser muito específica, muito portuguesa.
Também por isso, as chamadas “condições naturais” são quase sempre menosprezadas. Os iluminados nacionais nunca reconhecem limites. Para eles, tudo depende da vontade – e, muito particularmente, da vontade do Estado. Durante anos, ai de quem se atrevesse a falar do clima, do relevo ou dos solos para explicar a diferença entre a agricultura portuguesa e, por exemplo, a agricultura holandesa. É claro que tudo se devia à “ignorância” dos lavradores portugueses. E agora, ai de quem comece por mencionar temperaturas altas, ventos fortes ou acessos difíceis a propósito dos incêndios. Tudo tem de se ficar a dever ao tipo de coisas que é fácil mudar com papel e caneta — planos, ordenamentos, leis, portarias. Continuar a ler»»»
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