sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Uma viagem ao purgatório

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"Alentejo Prometido” de Henrique Raposo, autor conhecido pelas suas crónicas do Expresso, é o mais recente livro da colecção “Retratos” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que adquiri há dias junto à caixa dum supermercado Pingo Doce. Vender livros no supermercado é como levar o conhecimento para o átrio dos gentios da ilustração. Pela minha parte, creio que haverá mais alegria no Céu com uma criatura convertida à leitura, do que com noventa e nove intelectuais que leiam mais um livro. E a propósito, há um forte traço de estilo pop na escrita séria deste escritor.


"Os alentejanos não escolhiam a vida: sofriam-na", refere a determinada altura Henrique Raposo, a meio da “viagem” que neste livro empreende pela sua genealogia geográfica, social e pessoal, num relato impiedoso e às vezes brutal, mas sem a mácula do ressentimento (que é sentimento repisado e acicatado) como é seu timbre. A narrativa começa num buliçoso casamento católico na igreja de S. Domingos, um reencontro com os seus parentes e família alargada, e no festim que se segue no concelho de Santiago do Cacém, precisamente em Foros de Pouca Sorte, a aldeia da família. O nome do lugar é em si uma metáfora cruelmente óbvia, sobre um Alentejo inóspito, sem lei, que um dia foi abandonado pelo Criador a uns quantos desvalidos pioneiros, salteadores, bastardos e libertinos, que em desespero o “colonizaram” ainda durante o século XX. Trata-se de uma realidade sociológica pouco visitada, para lá da costumeira narrativa panfletária da luta de classes, narrada tantas vezes à imagem do cliché da própria paisagem alentejana; bárbara e inquietante, psicótica - como naquele ponto em que Henrique Raposo relembra a estrada que separa a também familiar aldeia de Bicos de Alvalade, uma gigantesca recta de 18 km, que em criança o autor empreendeu atravessar por várias vezes de bicicleta e da qual sempre desistiu ao chegar ao cruzamento para a povoação de Fornalhas acometido pelo pavor: “Pedalava, pedalava, a paisagem não mudava, sentia-me como um ratinho dentro de uma roda, era sempre o mesmo fio de alcatrão rodeado do mesmo conjunto uniforme de sobreiros sem um único rasto humano”.


Um Alentejo de cujo legado Henrique Raposo se demarca, afirmando-se “rafeiro, mestiço, bastardo de solo. (…) Não tenho nem terei terra. Não pertenço.” Mas há algo de paradoxal nessa rejeição, e o impulso que leva o autor a empreender este “confronto com as suas raízes”, fazer-se literalmente à estrada na companhia do Pai e com a Mãe, ao encontro da sua genealogia que não renega - antes abraça - como que numa atitude de libertação. Talvez reflexo da procura dum certo sentido “religioso” – no sentido de ligação - que possuem algumas almas aristocráticas, ligação que Henrique tanto se esforça por rejeitar, como que revoltado, em vários pontos da narrativa.
E depois há o suicídio do “tio Jacintinho, o grande detonador deste livro”; e o aterrador fenómeno do suicídio alentejano, (de 45 a 50 por 100 mil habitantes), que ultrapassa a marca da Lituânia, líder mundial na modalidade, com 42 por 100 mil habitantes. Esta é uma terra estranha que foi-se humanizando, cedendo à civilização; e uma imagem disso é, uma vez mais, o casamento do seu primo que, caótico ou não, reúne dentro de uma igreja várias gerações de primos e tios, que se perfilam diante duma máquina fotográfica para perpetuar o encontro (um ritual que simboliza o cuidado de uns pelos outros). Parafraseando o autor, "Isto significa que os alentejanos só podem ter esperança no futuro".
E não, Henrique; nem sempre os palavrões são sinal de cumplicidade. A partilha de silêncios, essa sim, é a última fronteira da amizade – silêncios que, como bem dizes, os alentejanos praticam como poucos, nos alpendres dos cafés. Um desprendimento monástico diverso da desconfiança. E depois, bem-feitas as contas, se não assentirmos a transcendência, não estaremos todos; alentejanos, minhotos ou lisboetas, tragicamente sós neste estranho e equívoco fenómeno que é existir?

10 comentários:

  1. nasci numa aldeia norte-alentejana já falecida.  verdadeiro covil de ladrões preguiçosos.  muito diferentes dos 'malteses de pau e manta'.
    felizmente sai com 7 anos. mas deixei algumas courelas.
    pertenço à 'legião estrangeira' que estudou. trabalhou e passou o começo da reforma em países civilizados, muito diferemtes deste 'local mal frequentado'.  serei sempre um 'destribalizado', com os bens numa 'maleta de andarilho'
    rebentaram com tudo o que mexia.  até o Povo Rom, vulgo Ciganos, teve que partir
    contou-me uma criada da Familia Rebelo do Gavião um título dum jornal francês de 1915
    'ontem, por ser Domingo, não houve revolução em Portugal'

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  2. Ter fé é investigar o despedimento coletivo do Casino Estoril, que segundo consta juiz pago por offshores para indeferir as 3 providências cautelares. O ultimo diz que a justiça não julga empresas privadas, que justiça é esta ao serviço da sociedade, será que a china manda em Portugal nomeadamente na justiça.

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  3. muitos disparates neste livro.

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  4. Não tive nem tenho vontade de sequer abrir alguma pagina do referido livro de HR sobre o Alentejo e os alentejanos...mas por aquilo que tenho ouvido e lido com origem nas declarações desse "senhor" na Televisão e nos escritos de muitos conterrâneos meus, direi que o baixo nível ético, cultural e cientifico de uma pessoa que se diz licenciada em "História e/ou estórias", desconhecedor da realidade social e antropológica dos povos, neste em particular, levam o tal individuo HR a fazer afirmações enfermadas de preconceitos e de princípios ideológicos identificados com a "direita neoliberal" que comanda os órgãos de comunicação social onde este a HR vai ditando os seus dislates, neste caso contra o POVO Alentejano...
    O preço dos livros é algo pouco significativo mas a FSMM que apoio a sua edição ao ter como preço 3,5euros.. diz tudo...desta folha...

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  5. Hoje não se pode dizer nada sobre ciganos ou gays, mas pode-se achincalhar o povo alentejano.

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  6. Gostei da sacholada -apesar de nortenha desconhecia esse. Amigo, "ele há sacholadas" em todo o lado até em Lisboa.

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  7. este HR precisa de um psicólogo não é de escrever um livro, foi claramente um trauma que sofreu.

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  8. Achei que era escrito por alguém mal intencionado e um insulto aos alentejanos. A questão do suicídio, grave como todos sabemos,. choquou-me profundamente a forma como foi abordada e de uma leviandade,desconhecimento e falta de sentimentos. Detestei.

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  9. Não o questiono como escritor, nem tenho qualquer interesse em ler esse livro. Alguém que humilha gratuitamente uma região inteira, sem qualquer conhecimento de causa... não vale nem um tostão. Tenho pena pela editora, mas duvido que este senhor tenha muita adesão, só se da parte de alguém como ele.

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