terça-feira, 7 de julho de 2015

O espírito ateniense

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Começo com uma inconfidência: sou originário duma família em que se cruzam as mais antigas casas aristocráticas portuguesas, com o seu auge na primeira metade século XVIII, que em Lisboa distribuía audácia, cultura e erudição. Quando era pequeno não passava à frente daquele magnífico palácio em Santos onde o meu avô ainda nasceu, sem que o meu pai me recomendasse a responsabilidade e o legado das minhas origens. Acontece que a decadência económica da minha família, mais por aselhices práticas do que políticas, muito acentuada no século XIX, atingiu o zénite na sua geração. Por isso deploro o caricato da discrepância duma história grandiosa com uma mesa sem pão em que muito se ralha com pouca razão. 


Magoa aprender, mas a soberania como a auto-estima obrigam ao engenho e muito trabalho, a ter dinheiro para pagar as contas. Temo que o resultado do referendo na Grécia signifique um irreparável prejuízo para as negociações dos credores com os gregos. Inevitável será a assunção duma atitude espartana para a recuperação do antigo espírito ateniense.


 


Publicado originalmente no Diário Económico


 


 

5 comentários:

  1. Nota-se que desconhece profundamente a organização social nos séculos XVII e XVIII. Também ninguém nos tempos actuais gostaria de voltar a viver a democracia ateniense, posso garantir-lhe. 

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  2. Não falei na organização social, João Távora, mas sim dos feitos da elite do tempo.

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  3. Falta-lhe conhecer esses feitos, bem vincados na nossa História. Claro que o preconceito cega, Renato. 

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  4. Sim, foi uma época assaz fecunda em Portugal, fervilhante de descobertas científicas, debate e glórias literárias (a Arcádia, Deus meu...). Como, aliás, bem assinalaram o nosso Verney e os viajantes que nos visitavam, para nossa eterna glória, e continua a ser registado pelos historiadores, aquém e além mar. 

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  5. João Távora, eu sou da pequena aristocracia da província, sem grande coisa de notável a assinalar, mas não me consta que a aristocracia lisboeta do Séc. XVIII tenha ficado conhecida por uma particular audácia e cultura. Todo o século, aliás, teve, por junto, alguma arquitetura ilustrada, de aparato, com o barroco tardio do senhor Dom João, algumas luzes tardias importadas, uns laboratórios que se montaram (e muito bem, muito bem) e, de resto, de pensamento especulativo, foi literariamente pobre e pouco estimulante. 

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