sexta-feira, 17 de abril de 2015

Mariquices de outros tempos

namorar1.jpg


I’m slowing down the tune
I never liked it fast
You want to get there soon
I want to get there last


(...)


Leonard Cohen 


 


Hoje em Cascais no jardim em frente ao meu escritório o meu olhar estranhou um casal que caminhava entrelaçado em passadas lentas e alinhadas. Essa visão lembrou-me manifestações antes tão comuns que depois catalogámos de possidónias, como bailaricos ou passeios nas tardes domingueiras com roupa de “ver a Deus”, nos jardins ou avenidas, a ecoarem ao fundo os gritos das crianças a brincar e o relato da bola num transístor. Se os nossos avós que tiveram de namorar “de janela”, se conformaram a encontrarem-se só em lugares públicos com um irmão mais velho ou uma criada, a minha geração envergonhada erradicou qualquer exibição de compromisso. E agora morram de vergonha os jovens leitores: o meu saudoso pai contava que antigamente no Liceu Passos Manuel onde estudou, os bons amigos andavam de braço-dado no recreio.
Claro que a minha geração, medrosa e puritana como se fez, baniu esses indecentes hábitos sociais de gente careta, iletrada, rude  – no meu tempo do liceu, tempos revolucionários, do rock pesado e da “poesia com mensagem”, já só sabiamos dançar sozinhos e caminhar de “mão dada” tornou-se uma pieguice. 


Enfim, a mesma geração que institucionalizou o nudismo, o amor livre e toda a sorte de fantasias eróticas, envergonhou-se de namorar, um assunto que circunscreveu à poesia. Curioso como ao mesmo tempo que aprenderam a tolerar demostrações públicas em homossexuais, homem e mulher tenham desaprendido de andar de braço dado com o andar sincopado. Curioso como, com tanto sexo em prime-time, criámos uma comunidade tão estéril e fragmentada. Porque o romance para fazer história tem de ser mais longo que uma canção pop. 

4 comentários:

  1. Não entendi bem o seu post, João Távora. Era antigamente que eram mais mal vistas as manifestações públicas de carinho. Namorados entrelaçados era coisa rara, no meu tempo, mesmo de mão dada não era assim tão frequente. Nada que se compare com o que é agora, em que estou sempre a ver namorados abraçados. Mas falo por mim, que vivia numa vila pequena, apesar de não me lembrar de ver manifestações dessas de que fala mesmo no Porto, onde me deslocava com frequência. Estranho que na cidade em que vive o João Távora a geração anterior à sua tivesse hábitos de manifestações de carinho entre namorados, os tais que depois diz que se perderam com a sua geração. Não estou a reconhecer esse cenário antigo e tenho perto de 70 anos.
    Quanto aos homossexuais, ainda hoje, se na minha terra se vissem dois deles entrelaçados, seria uma revolução ;). Até nisso, pelo que vejo, o João Távora vive num meio mais tolerante e ainda bem para si. 

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  2. É assim mesmo, entendeu bem, Barata de Tovar: era assim que eu percepcionava  as coisas na minha cidade de Lisboa, nos diferentes ambientes, e quanto a mim hoje prevalece u
    Cordiais

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  3. João Távora, se me diz que no tempo dos seus pais eram normais, em Lisboa, as manifestações de afecto público entre namorados, ao contrário do que agora aí acontece na capital, só me resta aceitar como verdadeiro, obviamente. Nunca fui e não vou com frequência a Lisboa. Se assim é, só prova o quão diferente era essa Lisboa liberal e tolerante de todo o resto do país. Tinha ainda dito que as pessoas "aprenderam a tolerar demonstrações públicas entre homossexuais". Ora, isso soava-me estranho. Embora, repito, pouco vá a Lisboa, nunca notei, nas vezes em que aconteceu, que fossem assim tão frequentes e aceites tais manifestações, mesmo em Lisboa. Se me diz agora que essa tolerância é falsa, parece-me confirmar-e que afinal isso não será assim tão frequente. Falando da minha terra, nada diferente de todo o norte e sul que mais conheço, dá-me verdadeiramente gosto ver que agora, ao contrário do meu tempo (já nem falo do tempo dos meus pais, meu caro...), os namorados caminhem abraçados ou de mão dada. Os homossexuais, talvez daqui a três gerações.
    Cordiais cumprimentos
    Barata de Tovar

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  4. Não sei se estamos a falar da mesma coisa, Barata de Tovar: as demonstrações a que me refiro são mão dada, braço dado, simples manifestações de cumplicidade. Esse tipo é que considero em crise, principalmente entre os heterossexuais.

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