quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Na minha aldeia

Campo d Ourique.jpg


 Não sei se é por ter crescido lá, mas sempre que revisito Campo d' Ourique, mesmo não sendo um bairro antigo, sinto que como mais em nenhum outro sítio de Lisboa ali as pessoas são mesmo antigas. Pelo menos tanto quanto as minhas recordações. Quando passo em Campo d’ Ourique ando mais devagar e com os sentidos mais atentos. Atrevo-me a pensar que distingo os residentes dos forasteiros: a mãe que regressa a casa com os filhos da escola, o professor reformado na esplanada do café, as amigas quarentonas a tomar um chá, a senhora velhota que agora usa bengala. Aquele bairro de vida densa, cheiro próprio e sonoridades urbanas é a minha aldeia: as suas gentes são-me familiares. 

1 comentário:

  1. Alguém me disse um dia que Lisboa era uma cidade de aldeias.
    Eu sou mesmo rural mesmo tendo cá casa. Ninguém me tira o fim-de-semana lá em baixo, portas e janelas arejadas, quintal varrido, plantas regadas. Saio à rua sabem quem sou. Conhecem-me de sempre. Aqui sinto-me mais um, sem nome; deve haver por aí mutia solidão. Lá também; mas nunca é tão crua como aqui. Nem sei o nome dos vizinhos, mesmo conhecendo-lhes o rosto e cumprimentando-os. Lá sinto-me gente, aqui bem podia morrer que ninguém dava por isso.
    O reverso da medalha é que na aldeia não há nada: médico, um e mau, hospital é melhor fugir, escolas de má qualidade, transporte público é o carro ou horas de espera, empregos não há, empreendedorismo também não. É o preço do interior.

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