“É curioso, mas não posso ler um anúncio de qualquer medicamento sem concluir que sofro precisamente da doença em questão e logo na sua forma mais perigosa”.
J.K. Jerome in
Três Homens num Bote
O desconcertante suicídio dum comediante no pico das férias de Verão, época tão propensa a superficialidades, trouxe para as redes sociais o sedutor tema da depressão e do suicídio, que à boleia concedeu um inaudito protagonismo à disciplina da psicologia, uma “ciência” de extraordinária inexactidão e subjectividade que como uma religião, por estes dias exerce um enorme fascínio popular. Talvez porque, como reza o ditado, “de médico e de louco todos temos um pouco”, nessa medida todos sejamos também psicólogos experimentados, autorizados a conjecturar e opinar, e o mais perigoso, a diagnosticar aqui e ali as mais rebuscadas patologias crónicas, de preferência e com um nome difícil de pronunciar.
De facto, ao final de algum tempo de passagem por este mundo, a incomensurável complexidade de cada pessoa integra no seu legado genético e cultural a sua história, também feita de frustrações e mazelas mais ou menos insanáveis. O resultando é um carácter, uma pessoa, cuja explicação definitiva, para além de irrealizável, seria totalmente inútil. Acontece que todos nascemos marcados pelo “pecado original” da consciência da morte, da dúvida existencial, da intuição do absoluto em oposição ao relativo, e da capacidade para tudo colocar em causa na procura de um sentido para a vida.
Se o número de suicídios que são praticados todos os anos nos alerta para a necessidade de reforço de uma consciência sobre a importância da saúde mental (e quem sabe para a urgência de aprendermos melhor a “tomar (em) conta” uns dos outros), tenho ideia que a banalização duma abordagem pseudocientífica de laivos deterministas a respeito da dor da tristeza, se por um lado corresponde aos interesses económicos dos lobbies industriais e profissionais que a indústria da saúde mental envolve, tais conceitos constituem essencialmente uma ameaça ao livre arbítrio do individuo que afinal só se realiza verdadeiramente na plena assunção e superação da sua realidade. De resto, como é sabido, existem remédios muito eficazes para a extinção radical do sofrimento, como é o exemplo da heroína uma droga ainda hoje muito em voga. Fatalmente, como acontece com as outras soluções exteriores à pessoa, vai o bebé pela janela fora com a água do banho.
Irónico que num mundo utópico projectado pelo Homem, assim como não envelheceria ele também não entristeceria jamais. Se as consequências previsíveis da primeira seriam catastróficas, sem a dor da depressão, a maior parte das obras-primas da humanidade jamais teriam visto a luz do dia. A depressão o mais das vezes é apenas o meio-caminho para sermos gente inteira. Sem as dores dilacerantes desse abismo que é a incompletude humana jamais procuraríamos a redenção. Acontece que a causa mais profunda da inquietação humana é o confronto com a solidão ontológica, "disfarçada" com perigosos entretenimentos narcísicos e outros ilusionismos. E suspeito, pelo que me foi dado experimentar, que o único “tratamento” definitivo para esse mal está na Fé, num caminho de pedras que é a construção dum encontro com Deus, com uma ordem superior das coisas que concede sentido ao sacrifício (palavra maldita, eu sei). Justamente a saída que a sociedade urbana, científica e materialista, na sua arrogância pretende deitar para o caixote do lixo da história. Como consequência e no seu lugar, a indústria vem “pesquisando” as mais improváveis Causas biológicas e culturais, rotulando e justificando “cientificamente” as mais imaginativas propensões, moléstias e manias, produzindo dispendiosas mezinhas para tranquilizar tanta inquietação. O pior, é que como observava Chesterton “o homem quando não acredita em Deus tende a acreditar em tudo”.
A propósito de um caso concreto acontecido com alguém que me é muito próximo, confidenciava eu há dias a um amigo que estas incontornáveis ciências novas, deveriam inspirar dos seus profissionais, aprendizes de feitiçaria, uma enorme modéstia e realismo quanto às limitações das técnicas com que operam – Graças a Deus, afinal.
Banda sonora Trouble Will Find Me The National.
De acordo em geral ( defendo o realismo depressivo muitas vezes no Depressão Colectiva, como sabes), mas falhas com estrondo num ponto: existem depressões neuroquimicamente justificadas. É ciência pura e dura.
ResponderEliminarabraço tipo perdoa-me, Bruno
Caro Filipe: não encontras no meu texto a negação que referes. Desde os anos 90 (início) que tenho conhecimento dos "progressos" das terapêuticas nessa área. Considero que os profissionais de saúde mental deveriam ser extremamente cautelosos a mexer nessas matérias - o que infelizmente não acontece com a maioria. Sabes tão bem quanto eu como os equilíbrios neurquimicos são difíceis de manipular (life finds a way, anyway) e de como se tornou demasiado vulgar (um lucrativo comércio) esse diagnóstico e a prescrição (pouco criteriosa) desse tipo de tratamentos. E as pessoas vão na onda - acreditam - conheço demasiados casos.
ResponderEliminarAbraço tipo Nani agora é que vai ser.
Em rigor todas as perturbações depressivas com estatuto nosológico têm uma componente neuroquímica, Filipe.
ResponderEliminarAna,
ResponderEliminarSim, por isso muitas respondem ao 5-HT reuptake inhibitors, mas uma coisa são episódios, outra são estruturas: foi isso que sublinhei.
As "estruturais" evoluem por episódios eheheheh
ResponderEliminarE mais ainda, nem um episódio depressivo nem uma reacção depressiva fazem diagnóstico de uma perturbação depressiva.
ResponderEliminarClaro que eu não percebo nada, Ana.
ResponderEliminarDemonstrou-o, João.
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