sábado, 13 de outubro de 2012

Blogues e diários

 


(…) E depois, quase aos trinta anos, surgiram os blogues. Que para  mim era, sempre foram diários, diários digitais, com textos pessoais arrumados por ordem cronológica, do mais recente para o mais antigo, arquivados, consultáveis. Mais tarde vieram as ligações para outras páginas, as imagens, os vídeos, mas sempre subordinados às palavras. Escrevi em blogues individuais e colectivos, interventivos e intimistas, mas sempre os considerei acima de tudo diários, textos daquele presente que passa num instante mas que existe por uns momentos. E que por uns momentos se detém. (…)


Reconheço que os blogues introduziram modificações importantes no género diarístico. Tanto a publicação como o acesso universal tornam o blogue num exercício perigoso. Porque o diário era por natureza privado, mediado, nalguns casos secreto, às vezes de publicação póstuma. Há bastantes diários publicados em vida , incluindo um dos melhores, o de Guide, mas mesmo esses aparecem de tantos em tantos anos, filtrados de um material original que não conhecemos, ao passo que os blogues vão surgindo como work in  progress. Escrever um diário “em directo” exige que se invente, em equilíbrio instável, uns quantos filtros, regras, deontologias, cuidados difíceis, falíveis, como manter o anonimato de terceiros, ou não escrever online aquilo que se deve dizer de viva voz. No meu caso, isso significou também criar um registo que destapa a vida íntima e protege a vida privada num registo a que chamei “confessionalismo hermético”.  (…)


 


Pedro Mexia in Atual – Expresso, 13 de Outubro 2012

Sem comentários:

Enviar um comentário

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...