(…) Na nossa sociedade, o Estado é a única via através da qual certas classes profissionais – e repare-se que falo de classes, não de indivíduos – conseguem arrancar à sociedade o prestígio e o rendimento que aspiram. Provavelmente se o serviço doméstico fosse um serviço público, também os profissionais seriam recompensados muito acima das tabelas actuais. Dizem alguns: sem o Estado, não haveria determinados serviços. Não: o que não haveria era determinadas corporações com vantagens que hoje desfrutam.
Estes grupos profissionais são, simultaneamente, os mais fortes e os mais vulneráveis. Os mais fortes porque têm sobre os governos uma capacidade de pressão que o próprio Estado lhes deu, quando pôs à sua mercê uma massa de clientes e utentes que, agora, podem usar como reféns para negociar contractos e carreiras. Os mais vulneráveis, na medida em que as suas remunerações e estatuto (enquanto grupo) depende de um Estado que chegou aos limites da exploração fiscal do resto da sociedade. A falência do Estado meaça os seus sonhos de conforto e influência.
Está aqui o verdadeiro material das revoluções. As revoluções, ao contrário do que diz a lenda, nunca foram feitas pelos descamisados, mas por aqueles privilegiados a quem os regimes deixaram de satisfazer expectativas. (…)
Rui Ramos Expresso
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