sexta-feira, 20 de julho de 2012

Portugal arde...


  1. Arde quando há vento de Leste, não exactamente quando está calor. É verdade que no Verão, quando há vento Leste há calor, mas no Inverno, quando há vento Leste há frio e arde também (vejam-se os meses de Fevereiro e Março deste ano)

  2. Não é verdade que o fogo comece principalmente à noite (conferir aqui).

  3. A percentagem de fogos nocturnos anda tipicamente pelos 30 a 40%, e o número de fogos varia exactamente da mesma forma que o número de fogos diário (no mesmo blog tem dezenas de textos sobre isso, com dados concretos)

  4. O país arde porque a zona Noroeste da Península ibérica tem das mais altas produtividades primárias da Europa. O resultado é um crescimento muito grande dos matos, com a consequente acumulação de combustíveis

  5. Tradicionalmente esse crescimento dos matos suportava duas fileiras de produção integradas: a pastorícia e a agricultura, esta última indo buscar a manutenção da fertilidade a esses matos, quer fossem roçados, quer fossem trazidos pelo gado nos estômagos e depositados no curral sob a forma de esterco. Complementarmente era usada para aquecer as casas e cozinhar

  6. esses três processos de controlo de combustíveis desapareceram ou tornaram-se marginais

  7. Nestas circunstâncias sempre que houver vento leste Portugal vai arder (como ardeu a Galiza em 2006 com novve dias seguidos de vento leste, como ardeu agora em Valência, como ardeu nas zonas mediterrânicas da Austrália e dos Estados Unidos.

  8. Enquanto não se revalorizarem economicamente as actividades gestoras de combustiveis, em especial as diferentes formas de pastoreio, não há qualquer hipótese da situação de alterar

  9. a (...) ideia de que consegue resolver o assunto com uns tiros é perigosíssima. Não tanto para o alvo dos tiros, mas para si próprio quando a acumulação de combustível associada ao vento Leste lhe trouxer, para sua surpresa que acharia ter resolvido o assunto, o fogo de novo à porta

  10. Não quero com isto dizer que não existem incendiários, que existem, como existem ladrões de bancos e ministros como relvas, são inevitabilidades, quero apenas dizer que não é por resolver o assunto de um incendiário num determinado momento que resolve o problema dos incêndios.


5 comentários:


  1. Grande  Henrique.
    Isto é que é um comentário.

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  2. Mas tendo a pastorícia e a agricultura decaído abissalmente ao longo das últimas décadas e passado a usar-se outros meios para a cozinha e o aquecimento doméstico, julgar que a solução passa pelo retomar dessas actividades (incluindo o regresso à cozinha e ao aquecimento usando lenha) parece um tanto utópico.

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  3. henrique pereira dos santos20 de julho de 2012 às 21:34

    Muito obrigado aos dois e gostei bastante da discussão com o joão afonso machado no post original.
    henrique pereira dos santos

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  4. Também gostei da discussão consigo. De uma forma ou outra, apreendi conhecimentos.

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  5. henrique pereira dos santos20 de julho de 2012 às 22:12

    Deixe-me contar-lhe uma história pequena acerca do Thomas (sobre o qual falo aqui: http://ambio.blogspot.pt/2009/08/em-louvor-de-thomas.html).
    O Thomas ia todos os dias deixar as cabras ao monte e vinha trabalhar a terra. Ao fim do dia ou as cabras desciam sozinhas para o estábulo (são animais bastante inteligentes) ou o Thomas tinha de as ir buscar, chegando a perder uma ou duas horas à procura delas.
    Até que resolveu resolver o problema: comprou um telemóvel, atou-o ao pescoço de uma das cabras líder do rebanho, registou o número de telefone no google e quando precisava de ir buscar o rebanho ligava à cabra, verificava no portátil onde se localizava o telefone e ia direito ao rebanho para o trazer.
    Inovação não é apenas matéria para a física dos foguetões, é também inovação de procedimentos, de gestão, de mercados, de produtos e por aí fora.
    Olhar para a pastorícia como se ela tivesse de ser imutável e não fosse possível pô-la a responder aos desafios de hoje, quer dos seus produtores, quer dos seus beneficiários, é a atitude dominante do Estado que há 150 anos protege a floresta e persegue a pastorícia.
    E mesmo assim ganha-se mais dinheiro a criar cabras que a explorar matas (há excepções, claro).
    E criar cabras pode ser uma coisa muito diferente do que já foi.
    Claro que se pode simplesmente dizer que o tempo não volta para trás.
    É uma opção.
    Mas essa opção tem como inevitável consequência lateral o aumento da severidade dos fogos (estes dias, no Algarve, terão sido 20 mil hectares, embora a maior parte sejam estevas que ardem depressa e sem grandes consequências, mas foram 20 mil hectares que, provavelmente, teriam pago, só em cortiça, o trabalho de um rebanho durante dez anos, com uma vida razoável para o pastor).
    São as opções de um país que insiste em esquecer que Viriato era pastor, não era lenhador.
    henrique pereira dos santos

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