Há cada vez mais pessoas que não estão satisfeitas com o mundo em que vivemos. Raras são, porém, aquelas que fazem alguma coisa para o transformar. Destas, uma procuram torna-lo melhor por meio do esforço, individual ou colectivo; outras acham que os defeitos do mundo não estão no próprio mundo, mas no olhar de quem nele vive; por isso procuram transformar-se a si próprias e mudar o olhar com que o vêm. As primeiras são partidárias da acção; as segundas confiam nos efeitos da contemplação. Ambas as atitudes são universais. Encontram-se em todas as sociedades civilizadas. Determinam os princípios fundamentais das grandes religiões. O oriente cultivou mais a contemplação; o Ocidente, sobretudo depois do século XIII, desenvolveu mais a acção. A relação do homem com o mundo deu lugar a opções diferentes. Os programas de intervenção ou de não intervenção diversificaram-se e evoluíram. Há, portanto uma história da acção e da contemplação. No ocidente essa história confunde-se com a história da Igreja, e mais precisamente, com a história das ordens religiosas, ou seja, com a história do seu sucesso ou insucesso de mudar o mundo para melhor, isto é, para resolver os problemas decorrentes da vida do homem em sociedade.
A minha tese, se assim lhe posso chamar, é que não basta acção; é preciso também contemplação. Talvez mais ainda: sem ela de nada vale a acção. Creio que a história da humanidade mostra isso mesmo. Não a história factológica, superficial, externa, mas a história da realização das potencialidades do género humano. Ou a história da Humanidade em busca da sua plenitude (…)
José Mattoso - "Contemplação e acção, ontem e hoje" In Levantar o céu, – Temas e debates, Circulo de Leitores
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