Mas a experiência do transcendente contido na realidade não brota só da percepção de momentos solares que para nós se tornam epifanias. O tecido grosseiro dos dias não é feito só do trabalho de recuperação e de reconstituição da ordem, como o do sapateiro que substitui as solas gastas por novas meias solas, e cujo oficio consiste em voltar a substituir a que depois delas voltarão as gastar-se. Esta face penosa da existência humana convida-nos a incluir também no horizonte da sabedoria a percepção da capacidade do homem para inventar e aplicar técnicas, para se reproduzir, alimentar e viver em sociedade. Neste caso a percepção epifânica não brota directamente do contacto sensorial do Universo cósmico, mas da visão simultânea de movimentos de massa da Humanidade inteira, de guerras e da paz, de lutas e migrações, de cerimónias e acordos, de realizações técnicas e artísticas, da capacidade de análise e síntese com que nasceu e com que observa o mundo. A capacidade humana para abarcar com um olhar só, numa desproporção total entre o que vê e o que é visto, torna-se também revelação divina. Através desse panorama sem limites de espaço ou de tempo, percebemos que o nosso olhar se assemelha ao olhar de Deus sobre toda a criação e sobre toda a Humanidade e do Universo.
José Mattoso - "A sabedoria, saber e viver" In Levantar o céu, – Temas e debates, Circulo de Leitores
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