terça-feira, 15 de maio de 2012

Dia Internacional da Família

A Contra Revolução*


 


Trespassada por uma profunda crise por causa do refinamento da cultura individualista orientada para uma perspectiva niilista pela sociedade de consumo, a destruição do modelo de família judaico-cristão nas suas diversas adaptações deveria ser interpretado como um sério alerta sobre a decadência civilizacional a ocidente.


Talvez seja tarde para a inversão da vertiginosa atomização social de que somos testemunhas passivas, mas parece-me que vale a pena um sonoro alerta, na perspectiva dum movimento, de uma revolução para o resgate do conceito de família “compromisso”, muito para além da sua “fracção” nuclear.


Refiro-me à recuperação da família como emblema, marca a que aderem livremente os seus membros, a um modelo mais ou menos alargado que promove o sentido de pertença e a auto-estima, que seja, além de uma privilegiada rede de afinidades e solidariedade, um espelho de modelos, exigências e afectos, um centro de difusão de competências e vocações, com as suas lideranças naturais. Todos conhecemos apelidos e linhagens, em que um ou mais membros pelo seu mérito intelectual e profissional, vocação e coerência, vieram a tornar “marcas reconhecidas”, casos de sucesso que prevaleceram para as novas gerações.


Acontece que a família alicerçada como projecto perene, com todos os seus defeitos e potenciais arbitrariedades, constitui o mais salutar bastião do livre arbítrio do indivíduo. Falamos na defesa da liberdade. Para a sociedade, em termos latos, a família constitui o garante duma essencial diversidade estética e cultural: cada uma possuidora do seu legado de informação e património económico-cultural, afirma um insubstituível microcosmos, qual espelho e plataforma de mediação dos seus elementos com a comunidade e com o mundo, em que a liberdade é promovida no equilíbrio com a responsabilidade de uns em relação aos outros… e com a sua história. Este factor é extremamente útil para um privilegiado desenvolvimento das novas gerações. Além de tudo o mais, as estruturas familiares mais sólidas potenciam uma resistência inteligente à massificação e à submissão dos indivíduos aos mecanismos despóticos de controlo social emergentes, como as avassaladoras modas impostas pelo mercado e... pelos estados demasiado intrusivos.


É fácil entender porque é que as mais cruéis ditaduras do século xx sempre combateram os modelos tradicionais de família, que tendem a funcionar como autênticas bolhas de oxigénio numa sociedade sufocada pela pressão do controlo.


Finalmente, considero uma causa algo obscura o extremo individualismo promovido pelas correntes liberais de costumes, hoje em dia patrocinadas pela generalidade dos poderes políticos. Talvez porque sem referências sociológicas e culturais consistentes as pessoas se podem tornar mais vulneráveis, qual papel em branco fácil de ser preenchido e doutrinado por qualquer sinistro poder.


 


* Originalmente publicado no jornal i do passado dia 8 de Maio.

1 comentário:

  1. José Luis Malaquias15 de maio de 2012 às 17:25

    Nunca deixará de me surpreender a hipocrisia de uma certa direita que chora pelo fim da familia como celula da sociedade, nos mesmos foruns em que defende o capitalismo mais selvagem que destruiu essa familia.
    Sera este o mesmo forum em que ha poucos dias se celebrou o facto de os trabalhadores terem de trabalhara um feriado, em lugar de estarem com a familia, para que centenas de milhares  de pessoas se pudessem atirar a uma furia consumista sem precedentes? 
    E esta direita que defende um PM que aconselha os jovens  a emigrar, destruindo assim o tecido  familiar dos lacos afectivos que nos unem aos nossos?
    Se calhar, o conceito de familia da direita e um conceito diferente: e o conceito  de Downton Abbey, em que uma familia permanece unida ao longo de geracoes, na sua casa ancestral, com umexercito de criados a servi-los. Essa utopia da familia a que a direita se refere nunca existiu senao nos romances de Jane Austen. Era uma infima minoria  de uma sociedade elitizada, que assim vivia porque muitas pessoas prescindiam da sua vida para a servirem.
    Nao basta defender as familias Tavoras, e preciso tambem defender as familias Silvas de uma sociedadeque se rege pelo dinheiro e que a ele sacrifica familia, solidariedade e  entreajuda. Nao sao os casamentos homossexuais que estao a destruir a familia. Sao os patroes que exervem uma pressao para que os seus funcionarios trabalhem noitese fins de semana, para terem qualquer esperança de evoluir na carreira (exemplo que, de resto, elesproprios dao, para se manterem "competitivos" no mercado, nem que para isso deixem de conhecer os filhos. E depoisa culpa e da familia que nao se une?

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