(…) Assim, a partir da segunda metade do século XVII, a dimensão cortesã do serviço doméstico desapareceu, espelhando as mutações ocorridas na própria estrutura da sociedade que diminuíra o peso das relações interpessoais baseadas na lógica de serviço patriarcal para relações quase exclusivamente tipo contratual.
(…) De resto, das folhas de pagamento da família constava, quase sempre, médicos e cirurgiões, para além de enfermeiras. Entre 1800/1 quando o célebre 2º duque ainda era vivo, e 1816, data para a qual se possui recibos avulsos de despesa a família da casa de Lafões reduziu-se apreciavelmente, pois as despesas mensais com a dita diminuíram para pouco mais de metade. Na última data a casa tinha confirmadamente 46 membros da família em sentido restrito, dos quais apenas oito eram mulheres. Mas, em compensação, aumentaram as despesas com a “folha da beneficência” através da qual se pensionavam mensalmente 40 pessoas! Neste caso, mais de ¾ eram mulheres, muitas delas apresentadas como “viúva de”. A casa recorria regularmente aos serviços de “lavandeiras”, “engomadeiras” e “enfermeiras”, para além do “mestre de arpa”, “mestre de cantoria”, do “mestre de dança”, do “mestre de desenho”, e da “mestra de alemão”, pagando ainda o ordenado ao desembargador guião, que era o ser chanceler.
Note-se que nas grandes casas os criados ocupados na cavalariça e carruagem representavam entre 1/3 e ¼ do total. Os criados, mais bem pagos, porém, eram geralmente outros, como o “mestre cozinheiro”, o “guarda-roupa”, ou o “cabeleireiro”. Era a presença destes, mais qualificados que explicava que a maioria dos criados e também das criadas da casa de Abrantes, soubesse escrever o nome.
A partilha de vida entre senhores e criados, era, assim, e também, uma partilha de afectos, feitos de memórias e gratidão reciproca, como muito bem se destaca nos testamentos de alguns criados velhos sem herdeiros que deixavam todos os bens aos seus senhores, e nos dos grandes senhores que raramente esqueciam criados e escravos nos seus legados testamentários. Para os escravos, de resto, muitas vezes o prémio vinha sob a forma de alforria.
In História da Vida Privada em Portugal, “Espaços da Vida Privada - As grandes casas”. A Idade Moderna Coordenação de Nuno Gonçalo Monteiro, Direcção de José Mattoso
Caro João, qual é o seu objectivo, demonstrar que a igualdade é algo de moderno e errado?!
ResponderEliminarPois olhe que é o Catolicismo o primeiro a defender a igualdade, como disse S. Paulo:
Só quando todos foram respeitados perante uma ideia de igualdade positiva e negativa a sociedade será verdadeiramente desenvolvida.
É capaz ser problema meu... mas o Respublica nunca entende nada do que eu escrevo. (eu desconfio que V. não lê).
ResponderEliminarReferia-me ao título... e em particular a um texto que remonta muito a um "Downton Abbey" português!
ResponderEliminarE é suposto ter-se inveja da criadagem dos avós Abrantes de João Távora?
ResponderEliminarÉ um ponto assente que os criados das grandes casas tinham situações privilegiadas. O cume seria a situação das criadas de quarto das senhoras, um emprego cobiçado.
A questão é que, se havia afecto - e havia!, e bem-estar - , não havia, nem podia haver igualdade.
A situação é, aliás, complexa, porque ser mordomo ou escudeiro da Casa de Abrantes era um posição com mais status do que a de muita gente de classe média baixa, de origem não aristocrata, que, em compensação, era mais livre...
Mas, o ordenado de um mordomo atinge hoje, por esse mundo fora, facilmente os 120 000 euros/ano, isto é, 10 000 por mês, muito acima dos 1 000 que ganharão durante alguns anos e em média os licenciados portugueses saídos das faculdades e, mesmo assim, atrevo-me a pensar que João Távora não sonha com tal futuro para os seus filhos.
Não pretendo fazer julgamentos à história e aos antigos modelos de organização e controlo social (hoje tão eficazes quanto implacáveis): disso se encarregam os marxistas. Com estes textos pretendo o contrário, desmontar leituras simplistas.
ResponderEliminarDe resto, todos os dias me questiono se sou livre e a que senhor(es) presto vassalagem.
Não percebi o que se pretende com o post. É a típica relação que sempre tiveram as velhas criadas com os seus patrões (os senhores e as senhoras). Também os senhores deixavam sempre algum às criadas. Não se importa de esclarecer o propósito do post,João Távora? Que a igualdade era um mito? Mas isso já sabemos.
ResponderEliminarCaro amigo, engana-se. Como se prova no texto, a nobreza era não só de título como de espírito. Havia uma efectiva relação de igualdade muito maior do que agora.
ResponderEliminarBem, se a maioria dos criados e também das criadas da casa de Abrantes sabia escrever o nome, a bem dizer nem havia assim grande diferença entre eles e os patrões.
ResponderEliminarNão pode fundar - sem se cair ridículo e patético - um modelo social no paternalismo, e a contar com qualidades morais individuais.
ResponderEliminarE como isso é indiscutível, não vale a pena transcrever textos que, sem enquadramento se tornam em histórias piedosas.
Muito antes de haver marxismo já havia julgamentos morais e não morais sobre a organização social do chamado ancién régime.
ResponderEliminarAliás, o marxismo interessa-se pouco pelo aspecto moral dos problemas.
Não existe "modelo social" que resulte sem qualidades morais individuais. Esse é a grande ilusão da modernidade a arquitectura de modelos que se revelam apenas isso, modelos abstractos. Ou quando passados ao acto, pura violência e tirania.
ResponderEliminarÉ evidente que não há, por isso tem de se socializar uma série de valores e tornar a sua violação passível de sanção. Por individuais entenda-se dependentes do livre arbítrio da cada um.
ResponderEliminarEstá enganado: se havia gente culta e arejada era na aristocracia e na alta aristocracia, pelo menos em parte dela. A partir daí era a descer.
ResponderEliminarNote que as grandes Casas de Portugal fizeram alianças por meio de casamento com senhoras da alta nobreza francesa, onde seria estulto pôr em causa a qualidade da educação dos seus membros.
Não estou nada enganado: é óbvio que o comentário era irónico.
ResponderEliminarUm post que só encontra vantagens no antigo modo de vida entre PATRÕES e CRIADOS até me torna marxista, carago!
Obviamente estes posts (sim, trata-se dum post, não um estudo cientifico) tem que ser lido sob uma perspectiva provocatória. Obviamente, os textos merecem leitura devidamente enquadrados na obra referenciada.
ResponderEliminarPor cada estudo científico narrando as maravilhas da vida da criadagem junto dos queridos patrões e em perfeita comunhão e harmonia com eles, há ene estudos científicos narrando coisas do género: não terem a menor independência, nem vida própria, nem muitas vezes constituirem família, não terem horário de trabalho, nem férias, nem ordenado certo, elas serem abusadas e engravidadas pelos queridos patrões, serem postos no olho da rua de um dia para o outro porque deu na telha dos amados patrões, viverem em instalações impróprias para seres humanos, andarem obrigatoriamente vestidos com fardas, etc etc etc. Ah, mas isso não são estudos científicos, são decerto manifestos.
ResponderEliminarCordiais cumprimentos.
Ah, não é para levar muito a sério. Bem me parecia.
ResponderEliminarNada disso é verdade. Havia verdadeiro respeito entre as pessoas, cada um sabia o seu lugar e cada um respeitava a sua posição social. Havia verdadeira e sincera gratidão dos criados para com os seus senhores, ao que estes correspondiam com a sua protecção para a vida. Foi assim que nos tornámos uma verdadeira Nação, como houve poucas. Foi a semente do marxismo, espelhada nas suas palavras, que inquinou este Pais. Nada dessa imoralidade que descreve existia,muito menos atentados ao pudor das servas. João Távora, não se deixe amedrontar.
ResponderEliminar
ResponderEliminar...."
ResponderEliminarE bossemecê quem é que vislumbra aqui exaltado?
ResponderEliminar