Ao contrário do que nos impinge a cultura hedonista vigente, o Natal não é tempo de consumo, de "sacar" o mais que se possa. Ao contrário o Natal é tempo de entrega, de dádiva incondicional. Se reduzirmos ao mínimo a expressão mercantilista da quadra que atravessamos termos certamente mais espaço interior para o essencial.
A profunda crise que vivemos tem nome e cara: uma anafada esquerda aburguesada que travestida de diversas cores partidárias há muito se imiscuiu em todos os meandros do Poder. Na ilusão do capitalismo popular e no mito igualitário, entreteve-se nos últimos anos com a bolha do experimentalismo social, tendo-nos conduzido à falência financeira e… moral. Porque não há almoços grátis o preço será pago com altos juros.
Aqui chegados, o Natal é apelo a retornarmos ao essencial e olharmos para o que se torna aberrantemente prioritário acorrer: à pobreza das pessoas. Aquelas que não frequentam bares do Bairro Alto, que não frequentam os blogues ou vernissages. Aqueles que não têm dinheiro para fazer uma sopa, ou dar um presente a um filho. Deslocados, escondidos, sozinhos, vivem envergonhados do mundo, sem pagar ou receber pensão de alimentos. A pobreza é humilhação e solidão; corrói a humanidade da pessoa, é dor profunda, mortífera. Há demasiados portugueses em sofrimento e é tempo de se atender à realidade e acudirmos às pessoas. Essa é a mais genuína fórmula de materializarmos o apelo do Amor a que somos chamados a partilhar nesta quadra. Um dever que se impõe a todos nestes tempos duros de crise, também ela de valores.
Excelente e tocante texto, caro João. E, acima de tudo, desafiador do nosso egoísmo.
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