segunda-feira, 19 de maio de 2008

O estádio do Jamor


Ontem, com as gargantas arranhadas, caras bronzeadas e ligeiramente molhados dos aguaceiros, regressámos felizes do Jamor. Com o coração acelerado, ainda parámos para umas farturas quentinhas, oleadas em açúcar e canela. O maralhal dispersava devagar, mais uma bifana e mais uma cerveja pró caminho, entre um cântico rouco e uma provocação aos rivais; o comboio ainda podia esperar por mais uns minutos de festa.


No Estádio Nacional apanha-se chuva, apanha-se sol e toda a sorte de intempéries ou imprevistos. No Estádio Nacional, à moda antiga, os sanitários são atrás de cada árvore, atrás de cada cabeço, entre os fumos das grelhas, a cheirar a febras e a fritos. No Estádio Jamor, à maneira dos grandes jogos de antigamente, entramos em fila indiana, devagarinho e apertados entre empurrões e desagravos, grosseiros ou bem humorados. Se não acontecer nenhuma desgraça, tudo corre bem. No Estádio Nacional só se joga à luz do dia, de preferência na primavera sob um esplendoroso verde natural.

As memórias que guardo do Jamor são diversas e quase sempre felizes. Em pequeno, no final dos anos sessenta, na Escola da Câmara éramos todos convocados para ensaiar o sarau para o Sr. Almirante. Sob a supervisão dum monitor, impecavelmente  equipados de calções e camisa branca, preparávamos ordeiramente o Dia da Raça, orgulhosa festa republicana de então. A viagem era feita em autocarros da Carris e  era o delírio da pequenada: “senhor chofer, por favor, ponha o pé no ‘celerador”; e por aí a fora. Mais tarde, no inicio dos anos 70, com Alvalade interditado uma temporada, o Sporting fez do Estádio do Jamor a sua casa provisória. Nesse tempo os jogos eram à tarde, a lotação era flexível, e assistíamos ao espectáculo sentados nos degraus de pedra. Havia uns espectadores mais sensíveis que alugavam uma almofada: “Olha a almofadinha... a cinco tostões” ...que era costume serem atiradas pró campo no fim do jogo. As coisas de que me lembro!

Hoje, nos modernos estádios, entramos de carro para o parque de estacionamento, passamos o cartão no torniquete e subimos de elevador para o nosso cómodo e seguro lugar. Comem-se hambúrgueres de marca ou pita shoarma, tudo aprovado pela ASAE, e os patrocinadores encarregam-se da animação, com passatempos iguais ao do estádio ali do lado. Mudam só as cores e os dizeres, tudo é de plástico higiénico e previsível, a bem da segurança e das emoções controladas. Recostados em cadeiras ergonómicas assistimos comodamente ao jogo e qualquer dia podemos “pôr pausa” para ir à casa de banho ou fazer um telefonema. Mas na bancada podemos saltar e cantar, “até morrer, Sporting allez” que “quem não salta, é lampião”... e “Só eu sei... porque não fico em casa!”. Em compensação, hoje em dia levamos as crianças sem preocupação, e encontram-se cada vez mais mulheres e cada vez mais bonitas nas bancadas.

Confesso que gostava que a final da Taça se mantivesse no Jamor, assim mesmo como é hoje. Para poder viver com os meus filhos, que são da geração I Pod, uma festa espontânea e popular. Um ambiente castiço de feira e de festa, com genuínos indígenas e forasteiros, mais a Maria e a merenda. Futebol emoção, com picadas de abelhas, apertos e outros imprevistos, além do pão com chouriço e vinho à pressão. E que mal tem isso?

13 comentários:

  1. E intigamente a equipa do SCP não era assim:

    Rui Patrício; Abel (Tiuí, 91m), Tonel, Polga e Grimi; Miguel Veloso, João Moutinho, Izmailov (Pereirinha, 75m) e Romagnoli; Derlei (Gladstone, 118m) e Yannick.


    Mais de metade daqueles nomes não são de tugas, obviamente.

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  2. Pedro Barbosa Pinto19 de maio de 2008 às 16:39

    Criança sofre!

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  3. Épá, "um ambiente castiço de feira e de festa, com genuínos indígenas" parece mais característico de jogo do Benfica e não do pessoal finaço e cheirando a água-de-colónia que é adepto do Sporting!!!

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  4. OOOOOOOOOOOOOHHHHHHHHH.........
    Sr. João...........!!!!!!!!!
    No meu tempo, o arroz era a 2$50, o bacalhau a 15$00...., bolas isso já é História de Portugal !!!!!!!!!!
    Conte lá essa anedotas aos seus netos.........e olhe o Sr. Pintinho, diz que aquilo é o Estádio de Oeiras !!!

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  5. Dantes não havia comboios da CP do Cais-do-sodré para o Estádio Nacional?

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  6. Ah, que saudades de ver o sr. Almirante Américo Thomaz, venerando Chefe de Estado, a entregar a Taça aos vencedores.

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  7. Eu (que não sou o autor do post) diria para se irem encher de moscas. Mas, vai-se a ver, já estão cheios de traças...

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  8. Excelente crónica. Dá prazer ler um texto assim.
    Abraço, João.

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  9. O post ele próprio é que está cheio de traça.

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  10. Que bela prosa, JT! O meu mto obrigado

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  11. Não tem mal nenhum. Ou não teria... Se o estado Português não tivesse co-financiado a construção de dez estádios de futebol "State-of-the-art" para a realização de um europeu de futebol há apenas cinco anos. Se em Portugal não houvesse claques organizadas especializadas em provocar desacatos dipensando quaisquer pretextos. Se o estádio do Jamor não tivesse 70 anos de existência, poucas remodelações e uma capacidade limitada de espectadores. As imagens do Very-Light, dos jogadores do Porto a receberem a taça sob uma chuva de objectos na final com o sporting, o díficil policiamento, controlo etc... tornam o Jamor um palco perigoso. E se há alternativas, melhores, mais higiénicas, mais confortáveis, sem chuva, mais seguras e em que foi feito um investimento, então é imperativo que se opte por estas segundas. Melhor: Equipe-se o Jamor com todas as condições, aumente-se a lotação, e torne-se no placo por excelência das nossas selecções. Mas aí sobra uma questão: Faz sentido um País como Portugal voltar a investir num estádio de Futebol ? depois do Algarve, de Aveiro, de Leiria, do Bessa... eu acho que não. As tradições teem um fim e nem toda a gente gosta de ir ao futebol como se estivesse na feira. Evoluimos.

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  12. Devagarinho a "malta" vai lá..., há anos que clamo: fuck modern football!!!

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  13. um jogo por ano... nao gosta, nao va... mas deixe-nos a nos, os menos evoluidos, disfrutar de uma festa do futebol de tarde com ambiente de feira e a antiga....

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