Extraordinário me parece que, após duas semanas de protestos encenados para as TVs, assembleias populares à luz da lua, ataques ao património e a ocupação selvagem de um espaço público nobre de Lisboa como a Praça do Rossio — convertida num parque de campismo ideológico —, a SIC nos venha presentear em horário nobre com uma "investigação profunda" a um grupelho de chanfrados chamado Reconquista.
Durante quinze dias, fomos brindados com as declarações mais
inopinadas por parte dos manifestantes do Rossio, cujo propósito declarado e
sem gaguejos é fazer uma revolução, implodir o sistema político, trucidar o
capitalismo e estilhaçar a adenocarcinoma liberal. Mas o perigo real,
garante-nos o jornalismo míope da SIC, reside numa dúzia de rapazes,
adolescentes provocadores que cultivam o machismo de vão de escada, sonham com
a circunscrição do voto aos homens como no século XIX e fantasiam com a expulsão
em massa de imigrantes à força da espada (nada menos).
Acontece que nenhuma destas esdrúxulas reivindicações da
extrema-direita de trazer por casa é mais bizarra ou perigosa do que as teses
defendidas pela seita acampada no Rossio. Com uma diferença crucial: estes
últimos são patrocinados e mimados por estruturas partidárias com assento
parlamentar, e não escondem o apetite revolucionário de condicionar as
instituições democráticas através da força minoritária da rua.
Entendido que está o zelo e extremoso cuidado da SIC com os
perigos que a democracia enfrenta, ficamos a aguardar uma investigação séria,
daquelas que tragam à luz do dia as verdadeiras intenções e as ligações
promíscuas dos campistas do Rossio aos partidos da extrema-esquerda nacional
que têm o PS no bolso. Tudo isto, claro, se a habitual complacência dos
jornalistas revolucionários (perdoem-me o pleonasmo) assim o permitir.

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