terça-feira, 27 de outubro de 2026

E o apoio à acampada tem vindo a crescer

 Frases deste tipo, incluindo com o uso de acampada, por razões que desconheço, são frequentes no comentariado e jornalismo que por aí campeia.

A que se soma a teoria de que os manifestantes do acampamento intermitente são os jovens ou, vá lá, os mais moderados acham que representam os jovens ou uma boa parte deles.

Estas duas ideias não precisam de demonstração, como são repetidas por tanta gente que debita coisas nos jornais, televisões, rádio, tvdisco e cassette pirata, confirmam-se entre si, sem necessidade de confirmação na realidade.

Como, por outro lado, confirmam as convicções de quem as repete, mesmo os mais sérios repetem-nas por causa do viés de confirmação.

Como o meu viés de confirmação é no sentido inverso, o de que as pessoas gostam mais da polícia que de uns quantos manés às cores que se arrogam o direito de incomodar os outros, seja qual for o pretexto, confesso que não vejo nenhuns sinais de grande apoio social à rapaziada dos acampamentos intermitentes.

Vejamos, embora os jornalistas da SIC continuem a insistir que na manifestação de Sábado estavam 25 mil pessoas, número que só a organização refere, a verdade é que pessoas que estiveram na manifestação, como Manuel Castelo-Branco, falam em cinco mil, que a mim me parece mais de acordo com as poucas imagens aéreas da manifestação (é um sintoma de falta de gente, quando as manifestações são mesmo grandes, os planos aéreos repetem-se à exaustão).

Mas vamos admitir que eram mesmo 25 mil pessoas na manifestação, a verdade é que apesar de todos os apelos a que essas manifestações ocorressem por todo o país, só no Porto tiveram alguma expressão (aí, nem a organização se atreve a fantasiar números da mesma ordem de grandeza), havendo uns pequenos afloramentos de dezenas de pessoas noutras cidades, mesmo em Coimbra e Aveiro cuja universidades, em princípio, poderiam fornecer figurantes.

Ou seja, mesmo no dia de maior mobilização, não vejo grande gente.

A tese, frequentemente, pretende apoiar a ideia de que a polícia repor a normalidade democrática no espaço público é um erro estratégico (disse-o, por exemplo, Jorge Moreira da Silva) que apenas reforça o apoio aos acampistas intermitentes, mas o facto é que depois das intervenções, não houve qualquer demonstração de força por parte dos promotores da confusão, pelo contrário, desmobilizaram para reflectir e as manifestações que eram "não arredamos pé até ao fim do ano", passaram a ser tão intermitentes como os acampamentos, vão escolhendo um pretexto qualquer para juntar um magote de gente, cercada por um magote de jornalistas que ficam embevecidos com o facto da literatura salvar o dia porque os vigilantes passaram o tempo de espera a ler (esta última parte não inventei mesmo, a autoria é de uma jornalista da SIC, que considera manuais de resistência à polícia como sendo literatura).

Ao contrário de tanta gente que tem a certeza de que Montenegro está cercado, de que Seguro não aguenta a pressão, de que existe um mal estar social que pode desembocar no assalto ao palácio de Inverno (não digo na tomada da Bastilha porque já passou o Verão), eu não tenho certezas nenhumas sobre qual é o apoio social de que gozam os acampistas intermitentes, quando comparado com o apoio de que goza a polícia e a existência de uma plácida manutenção da normalidade no espaço público, mas se tivesse que apostar todo o meu dinheiro numa hipótese ou noutra, garanto que apostaria em que nas próximas eleições os partidos que mais ostensivamente apoiam a confusão não vão aumentar a sua mirrada votação anterior.

E que o jornalismo continuará tranquilamente o seu caminho para a irrelevância, se continuar a preferir não olhar para a realidade.

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