sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Acampamentos citadinos

Estas andanças da juventude que ultimamente tomou conta dos noticiários têm-me entretido. Gozei os acampamentos - os «acampas» - na Praça D. João I (Porto) e no Rossio (Lisboa). Foi um reviver de memórias em que, por isto ou por aquilo, jogávamos ao gato e ao rato com a PSP, fosse - eu e os demais fieis à Monarquia - pelo nosso Ideal, fosse pelo fado, fosse por miúdas inalcançáveis,  gastávamos as noites em celebrações, em vez de estudarmos.

Eram outros tempos. O canudo estava nas nossas mentes e o trabalho profissional no nosso futuro. Havia que brincar até lá. Depois... conforme um ditado chinês, o pai deu a cana de pesca, fossem os filhos pescar.

Veio o frio e a situação parece ter acalmado. Por experiência própria digo: acampar sobre o duro é doloroso. As ditas «assembleias populares» assim o terão verificado... Nada projecto sobre amanhã, sábado, e as manifestações já anunciadas. 

O problema da habitação é real e assusta, decerto, quem está na idade de sair de casa dos pais e se autonomizar. Na ordem (já não sei se) natural das coisas, casar ou viver com a parceira  (ou com outrem do mesmo sexo em "igualdade de género"), constitui um legítimo anseio de difícil alcance.

Propositadamente não escrevi - "de impossível alcance". E, em reforço deste raciocínio, invoco o depoimento do senhor dirigente do IHGU tão televisivamente ontem reproduzido. Dizia ele, em suma, a geração actual não está para suportar as vicissitudes que a anterior viveu. Oh! hora maldita em que tal disse! - os repórteres cairam-lhe em cima, o homem titubeou, pediu desculpa, já se tentava justificar. Caíu num grosseiro erro político, do qual a partidocracia se aproveitou e fez eco. Somente, o dito cavalheiro, numa frase, disse a verdade toda. (Ter-se-á espalhado quando daí evoluiu para a emigração...) A geração de hoje, que vive o drama da habitação - esta é a verdade! - não se esforça laboralmente como a dos seus pais. E assim acrescento, a geração desses pais muito mais teve de esgalhar do que a dos avós do ditos meninos.

O mundo é como é. Há alturas de maior ou menor heroísmo. A geração dos meus pais sofreu as agruras da II Grande Guerra; a intermédia, a da Guerra Colonial... São notórias as muitas desgraças acontecidas mas sobreviveu-se.

E em matéria de sobrevivência, deita-se a mão a tudo, não se insiste no que gostaríamos e queremos fazer. Se eu fosse uma militar da velha guarda, acrescentaria - é cortar o rabo de cavalo na cabeleira e tirar os brincos e piercings, e botar as mãos à enxada. (Ou às Ciência e Cultura...)

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