Como disse aqui há uns dias, é uma enorme mistificação que a crise na habitação seja apenas um fenómeno actual. Basta revisitar fotografias dos imensos bairros de lata que existiam na cintura de Lisboa e conhecer as condições em que os residentes nos bairros populares "típicos" da capital viviam: na Mouraria, em Alfama, na Graça e noutros, habitavam espaços exíguos e sem condições de salubridade onde conviviam várias gerações, estendendo-se esta realidade a partes de casa e anexos em bairros de classe média. Foi isso que tentei explicar no outro dia aos meus filhos, que se sentem ameaçados pela crise, apesar da sua origem social e do seu grau académico.
Além disso, como é sabido e a História nos ensina, as
revoluções são sempre protagonizadas, não pelos mais desfavorecidos, mas por
aqueles que num determinado regime se sentem a perder privilégios – o chamado
paradoxo de Tocqueville. Os descamisados e pés descalços aparecem depois, a ver
se apanham as sobras da destruição revolucionária, e acabam sempre por se
tornarem idiotas úteis, já que os despojos, os privilégios e o poder, serão
sempre repartidos entre as elites concorrentes.
Lembrei-me disto ao ver a fotografia acima e um comentário nas
redes sociais que assinalava isso mesmo: a verdadeira novidade da actual crise
habitacional que enfrentamos em Portugal — com os gigantescos aumentos de preço
nas rendas, na construção, e no metro quadrado dos grandes centros urbanos — é o facto de ela
se estar a repercutir com mais impacto na classe média e média-alta. Os mais
desfavorecidos raramente se envolvem em manifestações e desacatos; estão a
trabalhar ou nos transportes públicos 16 horas por dia, a ver se levam comida
para casa e transferem as economias para as suas famílias e países de origem. A
grande maioria não fuma ganzas, não quer saber dos lenços da Palestina e não quer nada com
a canga LGBT.
Urgente mesmo é o governo tomar este complexo problema a
sério e acelerar as reformas necessárias para a sua resolução - no lado da
oferta.

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