Tenho ouvido esta frase, incluindo de pessoas com filhos cujos filhos compraram ou alugaram (frequentemente alugaram primeiro, compraram depois) casas.
É um pressuposto aceite sem qualquer base empírica conhecida, aliás, nestas manifestações, o que não faltam são manifestantes a dizer que têm sorte por terem um arrendamento, uma compra ou uma herança, tenho ideia de que são muito poucos os que dizem que vivem na rua por não ter casa (no máximo, queixam-se de viver em casa dos pais).
Até o Instituto + Liberdade, de quem gosto tanto do que fazem que até pago quotas, de maneira geral bastante amarrado aos factos, consegue dizer que a geração actual tem mais dificuldade em comprar casa que as anteriores, com base num gráfico que, evidentemente, não permite essa conclusão.
Ontem tropecei neste boneco que, tanto quanto percebo, está no relatório do Banco de Portugal sobre habitação publicado há pouco tempo (não fui verificar, como devia).
O que temos é uma percentagem de pessoas com menos de 35 anos a fazer créditos à habitação em torno dos 40%, com uma baixa para 37% em 2023 (terá com certeza uma explicação, mas eu desconheço qual seja) e depois um salto para os quase 55% com a garantia pública (confirmo, conheço vários casos em que a compra só foi possível com essa garantia).
O Instituto +Liberdade, aqui com razão, diz que esta garantia aumenta o risco de incumprimento, mas isso não significa que as pessoas com menos de 35 anos passaram a ter mais dificuldade, pelo contrário, quer dizer que embora com maior risco para o credor, passaram a ter mais facilidade de compra.
O Instituto +Liberdade diz que o efeito da decisão do Governo tomar as medidas que tomou para facilitar a compra a pessoas com menos de 35 anos (tenho uma enorme dificuldade em chamar jovem a alguém, não gosto da palavra, mas a pessoas com 34 anos, francamente, acho mesmo um abuso) gerou um benefício que foi absorvido pelo aumento de preço.
Eu percebo a interpretação, mas se o factor limitante era a poupança para a entrada da casa, e não tanto a prestação que se ficaria a pagar, isso não significa que não tenha havido um benefício real para estas pessoas que compram casas, ficam a pagar mais porque as casas são mais caras, mas conseguem comprar sem primeiro ter feito poupança que lhes permitisse ter uma entrada mais substancial.
O benefício não foi absorvido, trocou-se um benefício no preço, por um benefício no acesso ao crédito, que é mais relevante que o anterior (é o que explica o salto na percentagem de compradores com menos de 35 anos).
Pode-se criticar a medida por ter actuado no lado da procura e, consequentemente, ter diminuído as oportunidades de acesso à compra por parte de todos os que têm rendimentos mais baixos, mas isso tem um impacto muito maior nos migrantes pobres que nos jovens burgueses que enchem as manifestações.
Se me perguntassem, eu diria que o governo deveria ter entrado a matar na liberalização do arrendamento, para ter um efeito mais rápido na oferta, mas percebo o constrangimento político: sem maioria na Assembleia, e com dois partidos populistas de cada lado, e uma imprensa igualmente populista, o governo não controla o tempo político e arriscava-se a ter perdas políticas de curto prazo, sem ter tempo para colher os benefícios.
O facto é que é absolutamente falsa a ideia de que os jovens não conseguem ter casa, nem arrendar, e que são as principais vítimas do desequilíbrio do mercado que existe actualmente (os que, entretanto, com estas medidas, até compram casa, beneficiam com o seu aumento de preço posterior).
As verdadeiras vítimas são os migrantes e portugueses pobres.
É uma constante da história, os pobres estão sempre lixados e há demasiada gente que faria bem melhor em deixar de os usar para defender os seus interesses políticos.

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