Perante a revolta nas ruas provocada pela crise da habitação, toda a oposição exigiu um debate de urgência no Parlamento. Mas convém recordar: a lei que regula actualmente o arrendamento, a venda e a construção de imóveis foi aprovada pela maioria absoluta do Partido Socialista em 2023. Foi sob esta legislação, que falhou claramente os seus objectivos, que a crise do sector e a escalada dos custos atingiram a dimensão actual. Ainda assim, o Partido Socialista continua a opor-se firmemente a uma mudança estrutural nas políticas de habitação.
Os dados mais recentes revelam a gravidade da situação.
Entre 2015 e 2025, os preços da habitação em Portugal aumentaram 180%, quase
triplicando e fazendo do país o segundo da União Europeia onde comprar casa
mais encareceu. Apesar de algumas oscilações e de sinais pontuais de
abrandamento no mercado de venda, o Instituto Nacional de Estatística registou
uma nova subida de 16,5% no segundo trimestre de 2026, impulsionada sobretudo
pela valorização das casas usadas. O Banco de Portugal confirmou ainda que os
preços mais do que duplicaram em 157 municípios, com forte impacto nas áreas
metropolitanas de Lisboa e do Porto, e advertiu que medidas centradas apenas na
procura não resolverão a crise. A escassez de oferta contrasta, porém, com o
elevado número de imóveis vazios: estima-se um défice de cerca de 300.000
fogos, embora existam aproximadamente 723.000 habitações desocupadas,
equivalentes a 12% do parque habitacional. Quase 250.000 estarão em condições
de ser habitadas, mas continuam fora do mercado devido a entraves burocráticos,
heranças indivisas ou insegurança jurídica.
As propostas, tão criticadas, do actual Governo para alterar
essa lei ainda não foram aplicadas e, por isso, não produziram qualquer efeito
sobre os problemas acumulados. Excluindo soluções extremas e irrealistas, como
expropriações ou ocupações selvagens, que alternativa se propõe? Manter
políticas que já falharam ou aumentar ainda mais a pressão sobre os senhorios,
esperando que isso faça surgir, por si só, mais casas no mercado de habitação?

Sem comentários:
Enviar um comentário