sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Antigamente é que era bom, dizem eles

 "Parti rapidamente para alugar um quarto num casa até arranjarmos instalação definitiva. Vi vários quartos e fui parar a uma casa de um casal, numa rua do Porto, que tinha vários quartos alugados: um quarto com duas camas de duas meninas que trabalhavam na caixa de previdência, outro livre e um divã na sala alugado a um senhor que trabalhava na companhia de electricidade do Porto.

...

começámos a procurar uma nova instalação. Tentámos, então, uma parte de uma casa que vinha num anúncio. Era muito frequente alugar-se quartos e partes de casas. ... um anexo de atelier de um casal de alfaiates...".

Não, não é um romance, é do livro "Foi assim" de Zita Seabra, uma mera descrição crua dos percalços da procura de instalação de uma casa clandestina do Partido Comunista, aí pelos anos sessenta, quando Zita Seabra estava na clandestinidade.

O que me interessa aqui é confrontar esta descrição, que não pretende ser nenhuma posição sobre o problema da habitação mas uma mera descrição da realidade, com a ideia, dezenas de vezes expressa, de que o problema da habitação em Portugal, hoje, é incomparavelmente mais difícil que no passado.

Ainda um dia destes uma senhora afirmava a pés juntos que a situação estava muito difícil porque não se consegue pagar uma renda de dois mil euros por mês em Lisboa, como se rendas de dois mil euros por mês fosse o mais vulgar em Lisboa.

Basta dar um salto ao Idealista, ver os preços pedidos em Lisboa (que são sempre mais altos que o valores dos contratos efectivamente celebrados) para verificar que há casas cujos donos pedem vinte mil euros por mês de renda (uma meia dúzia), mas das mais de cinco mil casas para arrendar, mais de três mil, ou seja, mais de metade, estão a ser oferecidas por rendas abaixo de 1900 euros.

Uma reportagem da SIC numa das manifestações apresentava uma senhora com dois filhos (inacreditavelmente o jornalista fazia uma pergunta a uma das crianças, da segunda classe, que debitava uma resposta, evidentemente ensaiada, que metia as rendas altas que impediam a mãe de lhe comprar o que ele queria, no supermercado) que ganhava 400 e tal euros, trabalhava em part-time por causa das duas crianças, e pagava uma renda de 800 euros, o que era difícil porque o companheiro só trazia para casa o que fazia nuns biscates na construção civil, toda uma história evidentemente mal contada que o jornalista não só engoliu sem espinhas, como a televisão repetiu em dois dias seguidas no jornal de maior audiência da estação.

Assim não vamos lá, camaradas, pretender encontrar soluções para problemas complexos a partir de diagnósticos completamente desfasados da realidade, em que se inclui essa ideia pateta de que o problema da habitação é hoje muito mais grave do que alguma vez foi, só mesmo por acaso.

2 comentários:

  1. Os portugueses deviam passar à clandestinidade! Assim não pagavam impostos, os senhorios não faziam perguntas chatas, o dinheiro vinha da união soviética e a malta era toda de esquerda.
    Parabéns pela falta de noção!
    Já agora, sendo verdade que mais de metade das rendas em Lisboa se situa abaixo dos mil e 900 euros, a totalidade está acima de que valor? É isso que interessa.

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  2. Neste momento, numa procura rápida que poderia fazer se quisesse, no concelho de Lisboa, 600 euros. Se passar para o distrito de Lisboa, 450 euros. Os quartos começam a 195 euros, no concelho e distrito de Lisboa. Mais informações, fale com um agente imobiliário.

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Antigamente é que era bom, dizem eles

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