Nunca usar «icónico» e «emblemático». Deixem as coisas em paz, chamem-lhes só o que são. Um repórter dizia, de Lourdes, aquando da visita do Papa, que a gruta das aparições é o local mais «icónico». A gruta das aparições não é «icónica», é a gruta das aparições.
Nunca usar «constrangimento». «Constrangimento» é o tigelão
abstracto em que foram metidos incompetência, pobreza, falta de meios,
engarrafamentos, falta de pessoal, má gestão, desordem, greves, acidentes de
viação, descarrilamentos, intempéries, motins, bloqueios, ignorância, má-fé e o
mais que preguiça e iliteracia ditem. Identificar o obstáculo ou dificuldade em
concreto não é mais trabalhoso; é só mais inteligente, mais esclarecedor e melhor
português.
Nunca usar «acabar por…». De um vendaval, em todos os
noticiários falados passou a acontecer que nada acontece; em vez disso, tudo
acaba por acontecer. O senhor Anacleto comeu demais e acabou por sentir-se mal;
acabou por chamar o 112 e acabou por ser levado ao hospital; acabou por ser
internado; mas o seu estado acabou por agravar-se e acabou por morrer. Vemos
esta fórmula aplicada a tudo, casos e acontecimentos políticos, situações da
economia, das empresas e do trabalho, efemérides vulgares. No entanto, e ao
contrário da ilusão geral, a intencional complicação da língua portuguesa não é
sinal de mais cultura, é de menos.
Nunca usar «corporativo» ou «corporações» para falar do
mundo empresarial ou dos grupos empresariais. As traduções literais têm essa
arte de gritar «Ignorância!» Sobretudo quando, como no caso, não conhecem a história
política e social do país [Estado Novo, Corporativismo, Integralismo Lusitano,
Sistema Corporativo, Direito Corporativo, Grémios, Sindicatos…]. O «mundo corporativo»
de que falam uns empresários e economistas só existe na sua ignorância; o
brilho com que creem falar de «corporações» só pode resultar de não saberem nem
história, nem inglês, nem português.
Nunca usar «meios». Não existem «meios aéreos»; um meio só
existe com um fim. Existem aeronaves, expressão que inclui aviões e
helicópteros, os quais podem combater fogos ou não; existem bombeiros – é
possível, chamar-lhes «meios humanos» de combate ao fogo, se a intenção for
ofender ou complicar. Os bombeiros podem ir montados em jipes ou camionetas ou
autotanques, sem necessidade de se lhes chamar «meios mecânicos», o que logo
suscitaria a pergunta «para quê?».
Nunca usar «resiliente». É a ignorância, mais uma vez que,
descobrindo uma nova palavra ou expressão (existentes, mas que a ignorância
ignorava – como por exemplo
«icónico», «emblemático», «constrangimento», «corporativo», etc.) suscita uma
vontade irreprimível de a utilizar. Resiliência é, na física, a propriedade de
um material que sofre deformação sob impacto ou tensão e consegue voltar à sua
forma inicial sem quebrar; há também a legítima metáfora psicológica. Mas,
visto que campeia o exagero, convém abstermo-nos, não vá alguém dizer que o
homem que perdeu um braço e as duas pernas num acidente é muito resiliente. Temos pena, mas não consegue ser.
Excelente.
ResponderEliminarNeste maravilhoso mundo pós-Woke, o policiamento da língua tornou-se moda. Diria mesmo emblemático dos tempos que correm. Mas, infelizmente, polui o meio ambiente e acaba por exprimir, tão só, o espírito de desenrascanço, vulgo resiliência, de quem obedece ao ideário de projectos corporativos, com fitas ou sem elas. Constrangedor.
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ResponderEliminarBem dito e bem "dizido", aliás, bem escrito e bem "escrevido".
texto assertivo, demonstrativo da resiliência do autor no contexto da desconstrução cultural.
ResponderEliminarCaro Sr
ResponderEliminarQue delícia de aula. Acrescentaria talvez o que não existe, como "Massivo", ou o que é, na maioria das vezes mal empregue , "resiliência", que não substitui nem é sinónimo de resistência.
cumprimentos
Não, não estava a procurar ser malcriado, fazendo graça nas suas costas: I am SORRY, como disse o português no concurso tiro de arco e flexa ao alvo.
ResponderEliminarDesculpe