domingo, 27 de setembro de 2026

Como historiadora, não, mas como cidadã, sim

 Ontem estive no lançamento do livro "Os escravos na ONU" de José Pimentel Teixeira.

Sobre o livro, não posso dizer nada, que ainda não li, excepto que gosto da maneira informada e livre com que José Pimentel Teixeira tem escrito sobre a inacreditável resolução da ONU considerando o tráfico transatlântico de escravos (e apenas esse) como o maior crime contra a humanidade da história.

A apresentação, para além do autor, foi feita pela historiadora (com formação jurídica) Cristina Nogueira da Silva, que tem, sobre o assunto, uma visão radicalmente diferente da do autor.

O que me interessa é uma afirmação que, pelos vistos, tinha sido feito no programa Contra-corrente, do Observador, na Sexta-feira, e que foi ali repetida.

A escravidão foi um crime? perguntava-se Cristina Nogueira da Silva.

A resposta é de antologia: como historiadora não posso dizer isso, mas como cidadã, digo que sim.

Ou seja, com a melhor informação produzida pela investigação, digo uma coisa, como as minhas emoções, digo outra.

Uma ilustração perfeita da confusão mental que povoa muito do discurso woke, seja sobre isto, seja sobre Gaza, seja sobre a distinção entre mulheres e homens.

Racionalmente, e com a melhor informação disponível, eu tenho umas conclusões, mas na vida prática, no meu voto, no meu activismo social, funciono com outras conclusões, a coberto de noções subjectivas como empatia e outras abstracções impossíveis de verificar.

Por exemplo, o artigo 13º da declaração universal dos direitos humanos (note-se, os valores dessa carta não são os valores do Ocidente, são valores universais, a especificidade ocidental é tentar levá-los a sério) diz taxativamente: "Artigo 13 1) Todos os seres humanos têm direito à liberdade de circulação e residência dentro das fronteiras de cada Estado. 2) Todos os seres humanos têm o direito de deixar qualquer país, inclusive o seu próprio e de regressar ao seu país".

Aplicando à situação de Gaza, deveríamos estar empenhados em que cada habitante de Gaza tivesse liberdade de sair dali, se quisesse.

"Limpeza étnica, limpeza étnica" dizem os activistas que querem impedir um palestiniano de ser feliz noutro lado qualquer porque o melhor para esse palestiniano em concreto é que seja feliz na sua terra, decreta esta gente cheia de empatia, ignorando olimpicamente a vontade concreta daquela pessoa concreta, dentro do seu contexto concreto.

O mesmo tipo de dissonância entre razão e emoção acontece nas discussões sobre escravidão, uma constante histórica que atravessa quase toda a história da humanidade até que no Ocidente o sentimento de profunda injustiça associado à condição de escravo (convém não confundir com trabalhos forçados e outras malfeitorias associadas à exploração do homem pelo homem, o que define a escravidão é muito mais profundo, é a negação da personalidade) cresceu o suficiente, não só para acabar com a escravidão nessa parte do mundo, mas para a combater em qualquer lado.

Racional e objectivamente é claro que a escravidão foi combatida a partir dos países ocidentais e dos valores ocidentais, mas o discurso woke encontra umas conversas com afrodescendentes (um conceito que abrange os meus filhos, visto que africano sou eu, independentemente da quantidade de melanina da minha pele), em que conseguem identificar o sofrimento por uma escravidão que acabou há três ou quatro gerações, pelo menos.

Note-se que o uso do termo afrodescendentes é apenas uma maneira de disfarçar a brutalidade racista e paternalista do que estão a dizer: coitadinhos dos pretinhos, são de uma raça especial que absorveu geneticamente o sofrimento dos seus bisavós, e por isso têm direito a que os outros assumam responsabilidades para com eles porque, coitadinhos, esse sofrimento absorvido geneticamente os torna incapazes para fazer as suas próprias opções e governarem a sua vida de forma autónoma, independente e livre.

Não dou para esse peditório.

19 comentários:

  1. Há duas grandes formas de ganhar dinheiro: uma é através do trabalho, duro ou menos duro, a outra é através do trabalho ou riqueza dos outros. Todo este activismo militante wokista especializou e sentiu que esta última forma é uma verdadeira galinha dos ovos de ouro. A ONU é só o exemplo máximo dessa indústria novo-burguesa-caviar.
    Carneiro

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  2. Excelente texto, de quem a melhor informação produzida pela investigação está em linha com as emoções

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  3. É uma pessoa de fé, esta Sra. Cristina Silva. A Sra até percebe que a realidade (revelada pelos factos históricos, neste caso) não coincide com a sua crença, mas, esta última é mais forte que a realidade dos factos. Assim é o mundo pós-moderno e pós-verdade.

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  4. Acerca da honestidade intelectual: 
     Cristina Nogueira da Silva tem um licenciatura em História, não é uma historiadora.
    A cidadania não corresponde a emoções. Dada a ignorância da identificação entre os dois conceitos porque não recorre à IA: “O cidadão é a pessoa, o indivíduo que vive em sociedade e possui direitos e deveres, enquanto a cidadania é a prática ou a qualidade de exercer esses direitos e deveres”. Ou à Infopédia, que também é acessível ao comum dos cidadãos: “vínculo jurídico que traduz a condição de um indivíduo enquanto membro de um Estado ou de uma comunidade política, constituindo-o como detentor de direitos e de obrigações perante essa mesma entidade; exercício dessa condição, através da participação na vida pública e política de uma comunidade”.
    Sobre a escravatura, a tal negação da personalidade no seu precioso entendimento, porque não consulta a enciclopédia dos pobres, a Wikipédia: “Escravatura,denominada também de escravidão, escravismo, esclavagismo ou escravagismo, é a prática social em que um ser humano assume direitos de propriedade sobre outro designado por escravo ou escravizado, imposta por meio da violência física ou moral. Em algumas sociedades, desde os tempos mais remotos, os escravos eram legalmente definidos como uma mercadoria ou como despojos de guerra.”
    De resto a sua conclusão é admirável, seja do ponto de vista histórico, jurídico, ou da cidadania: como os palestinos estão prisioneiros no seus próprio país, Israel trata de libertá-los, aniquilando-os.

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    1. Cristina Nogueira da Silva foi referida no lançamento do livro como historiadora, uma pessoa da história e referências do mesmo tipo.
      Ainda assim, tive o cuidado de ir verificar, porque fiquei com dúvidas dada a sua evidente e profunda relação com o direito.
      O seu doutoramento em história do direito parece-me uma evidência de que é uma historiadora, questão, em qualquer caso, irrelevante.
      Não admira que se tenha prendido a coisas irrelevantes, lendo o resto do comentário: onde o texto distingue conhecimento académico (que conduz a uma conclusão) e activisimo social, ou cidadania (que conduz a outra conclusão oposta), vossa senhoria encontra uma definição de cidadania abstrusa, que me atribui, sem qualquer relação com uma interpretação minimamente racional do texto.
      O parágrafo final explica o tortuoso comentário: era preciso dizer qualquer coisa contra, como não encontrou no texto matéria para o fazer, inventa o que não está no texto.
      É uma retórica de baixa qualidade usada desde sempre.

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    2. Como é que se chega a "historiador", então?
      Tem-se uma licenciatura em História e depois faz-se um exame de admissão à Ordem dos Historiadores (que não existe).

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    3. O autor do post, agora, desmente-se a si próprio. Recordo o que escreveu: “A resposta é de antologia: como historiadora não posso dizer isso, mas como cidadã, digo que sim.
      Ou seja, com a melhor informação produzida pela investigação, digo uma coisa, como as minhas emoções, digo outra.”
      A identificação da cidadania com emoções é explicitamente sua. Preto no branco.
      De resto, constato que é favorável à livre circulação de pessoas e à fixação de residência dentro das fronteiras de cada Estado. Há por aí umas vozes discordantes. Do Chega ao Observador, do PSD ao Expresso. Não chega a ministro, por este caminho …

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    4. Com a razão, não posso dizer, com a emoção, posso. As opções de historiadora são feitas com a razão, o método científico procura, explicitamente, expurgar de emoção (ou, se preferir, de subjectividade) os seus resultados.
      Na cidadania não há essa obrigação, há cidadãos que procuram ser racionais nas suas opções de cidadania, e estas pessoas que como investigadores concluem uma coisa e como cidadãos concluem outra.
      Se como investigadores (isto é, racionalmente) não podem concluir uma coisa que como cidadãos podem, o que muda?
      A mim parece-me claro que é o abandono da razão por troca com a emoção, mas acredito que um raciocínio lógico destes seja uma coisa emocionalmente difícil para si.

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    5. Já agora, a liberdade de sair de onde estou não é a mesma coisa nem implica a liberdade de me fixar onde quero.

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    6. Aconselho-o a ler o que escreve.

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  5. "deveríamos estar empenhados em que cada habitante de Gaza tivesse liberdade de sair dali, se quisesse"

    Uma coisa são liberdades negativas, outra são liberdades positivas.

    Deveríamos estar empenhados em que ninguém impedisse cada habitante de Gaza de sair, sim.

    Outra coisa muito diferente é estarmos empenhados em garantir a todos os habitantes de Gaza a possibilidade - a começar pela financeira - de sair.

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    1. Liberdade negativa e positiva ... A idiotice não conhece limites!

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    2. Procure esses conceitos na wikipedia.

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  6. "como historiadora não posso dizer isso, mas como cidadã, digo que sim"

    Esta frase está correta. Uma historiadora é uma cientista que tem a obrigação de descrever a História, não de a julgar. Um historiador deve esclarecer como se processou (por exemplo) o tráfico negreiro ou o holocausto; não deve efetuar julgamentos morais sobre se esses factos históricos foram ou deixaram de ser crimes.

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    1. A pergunta é concreta: é crime, ou não?
      A historiadora diz que não pode dizer que sim, a cidadã pode ignorar a história e diz que sim.

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    2. Exatamente, é isso mesmo. Um historiador não pode dizer, por exemplo, que a prática entre as antigas monarquias europeias de casamentos arranjados constitui um crime. Um cidadão sim, pode dizer (ou não dizer) isso.

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  7. Lá por aparecer na Wikipédia não quer dizer que não seja idiota. Até porque há muito idiota aficionado a contribuir para o que lá está escrito ...

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    1. Sem dúvida. Acontece, porém, que esses conceitos foram inventados por alguns pensadores bastante relevantes e conceituados. Esses conceitos não são uma criação de algum "idiota aficionado" que resolve escrever na wikipédia.
      É claro que, mesmo tendo sido criados por grandes pensadores, esses conceitos podem ser idiotas.

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    2. O que é um grande pensador? O que não faltam são grandes pensadores que deram origem a grandes e eloquentes principios que não servem para nada. Veja-se por exemplo, Marx (o Karl não o Groucho). Fundou uma ideologia tão científica, que se transformou numa fé. Que continua a arrastar milhões de idiotas, apesar de todas as provas em contrário. Está muito bem descrita na Wikipédia e não faltam grandes pensadores a defende-la. Por isso, meu caro, aceitar acriticamente uma parvoíce só porque um "grande"(?) pensador a debitou, não é de humano consciente, é de carneiro ...

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