Dois excelentes artigos, aparentemente antagónicos: Rui Ramos, no Observador, sobre Pedro Passos Coelho, e Luís Aguiar-Conraria, no Expresso, «Somos felizes e não sabemos».
Conraria tem razão: recuperámos a disciplina orçamental, uma conquista enorme que não podemos perder. Mas confunde estabilidade com progresso suficiente. E até a convergência do PIB por habitante é menos animadora do que parecia. A recente revisão da população pelo INE revelou que somos muitos mais do que julgávamos. Uma simulação do ECO, utilizando os novos dados, reduz o nosso PIB por habitante de 81% para apenas 76,2% da média europeia. A revisão oficial das contas nacionais só chegará em 2027. Não ficámos mais pobres de repente: o retrato era melhor do que a realidade.
Mas o problema mais grave está naquilo que as médias escondem: os não instalados. Os jovens que não conseguem comprar ou arrendar casa, os que emigram por não encontrarem oportunidades suficientes, os que trabalham sem conseguir construir uma vida autónoma.
É esta a contradição central: um sistema que protege quem já está instalado, mas não liberta a produtividade nem abre oportunidades a quem está de fora. Os instalados defendem os seus privilégios, tantas vezes medíocres, sem perceberem que, ao bloquear a mudança, alimentam o radicalismo que ameaça destruir aquilo que procuram conservar.
Conraria recorda o PREC. Entre 1973 e 1975, os salários reais aumentaram cerca de 25%, enquanto a economia encolhia. Vieram depois a inflação, o endividamento e o ajustamento. Grande parte da melhoria distributiva inicial foi revertida. Não basta distribuir riqueza: é preciso produzi-la. E é precisamente aí que continuamos a falhar.
Conraria receia, com razão, que o radicalismo destrua a estabilidade conquistada. Mas esquece que a incapacidade de reformar é, ela própria, uma das causas do radicalismo. A França, que tão bem utiliza como exemplo, ilustra-o: as finanças públicas degradaram-se e as reformas foram adiadas sem que a direita radical tivesse chegado ao Governo. Não será o bloqueio que alimenta o radicalismo, antes de o radicalismo agravar o bloqueio?
É por isso que o artigo de Rui Ramos me parece tão importante. Não basta conservar a estabilidade financeira. Sem reformas que enfrentem os privilégios instalados, libertem a produtividade e abram oportunidades aos que ficaram de fora, acabaremos por comprometer a própria estabilidade que hoje celebramos.
Ao argumento de Rui Ramos acrescentaria apenas uma possibilidade, que o torna ainda mais urgente. Se não aparecer uma liderança capaz de reformar o regime por dentro, poderá ser uma grande crise a impor a mudança. E essa crise tanto poderá refundar o regime para melhor como para pior.
O mecanismo é conhecido. A insatisfação alimenta promessas de mais despesa e menos impostos. A disciplina financeira enfraquece, a dívida cresce e os juros podem acabar por impor aquilo que a política recusou: cortes, revisão de direitos adquiridos e reformas profundas do Estado.
Rui Ramos aponta o caminho das reformas enquanto ainda podemos escolher. O risco é só mudarmos quando a crise já não nos deixar alternativa. E então os custos serão incomparavelmente maiores.
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