domingo, 9 de agosto de 2026

Rewilding, renaturalização para os amigos

Há muitos anos, tantos que já nem sei (talvez entre 15 e 20), conheci Wouter Helmer, o teórico fundador da Rewilding Europe.

A ideia base é muito boa: em vez de gastar rios de dinheiro a tentar conservar o mundo rural que conhecemos no passado e que construiu as paisagens que pretendemos conservar, mesmo que já não nos sirvam para grande coisa que dar uns grandes passeios ao Domingo, vamos aproveitar o potencial de recuperação associado à diminuição da intensidade de gestão das terras marginais (a formulação é minha, não de Wouter Helmer).

É fácil de entender as razões pelas quais fiquei imediatamente interessado nessa ideia, para quem vá lendo o que escrevo.

Ao contrário de outros no Rewilding, para quem a comunicação e captação de financiamento era tudo e que, percebendo o potencial de comunicação associado à ideia, optaram por esquecer o essencial e vender sonhos, mesmo que para isso tivessem de enfeitar o discurso com fantasias, Wouter Helmer estava verdadeiramente interessado no conceito base, o de renaturalização e da sua aplicação prática.

Tive algumas longas discussões com o Wouter sobre a transferência da ideia do sítio original em que foi testada, um polder nos Países Baixos cuja gestão foi abandonada, e as paisagens mais mediterrânicas.

A pureza do conceito, deixar evoluir a natureza sem outro tipo de intervenções que não fossem de remoção de obstáculos, por exemplo, a remoção de um açude para permitir o curso natural de um ribeiro, ou a introdução de animais desaparecidos para os quais não havia equivalente ecológico, como os grandes herbívoros e seus predadores, nunca esteve bem em causa, todos tínhamos consciência de que em espaços limitados (Miguel Araújo falava em mínimos de cem mil hectares sem intervenção para reestabelecer um sistema pristino) não era possível abandonar totalmente a gestão, de um momento para outro, sem causar mais problemas que os que se pretendiam resolver.

Mesmo admitindo uma certa flexibilidade na aplicação prática do conceito, há coisas com que não concordava na altura, e que continuo sem perceber como se resolvem, sem gestão com alguma intensidade (isto é, de base económica, de tal forma é grande a escala a que é preciso intervir).

A primeira dessas coisas prende-se com o principal factor limitante para o crescimento das populações de grandes herbívoros, que é diferente nos Países Baixos e em Portugal.

O problema no sítio onde foi feita a primeira experiência prática de renaturalização, com introdução de herbívoros de grande porte (não exactamente com a maluquice da retro-evolução para o auroque em que assenta o projecto Taurus, que sempre me pareceu uma coisa para vender, sem o menor interesse de conservação) era a falta de alimento no Inverno, por causa da neve.

Como o projecto se alimenta do mundo e culturas urbanas, ninguém estava disponível para ir visitar uma área de renaturalização e ver animais escanzelados, a passar fome e, eventualmente, morrer de fome (na verdade até foi por aí que se começou, mudando-se rapidamente para evitar a imagem negativa que se formava para um público educado pelos filmes da Disney, em matéria de gestão dos recursos naturais).

Actualmente, na cultura urbana, a morte violenta de animais selvagens é um drama, mas a sua lenta agonia por falta de alimentos ou doenças, que é a regra, é simplesmente ignorada como processo natural.

A solução, uma boa solução, foi a remoção de animais por caça, com venda em canais específicos que valorizam a origem dessa carne mais natural, de modo a adequar a capacidade de carga do polder ao número de animais presentes, no fundo, evitando o mecanismo natural da fome, que limita o nascimento e sobrevivência de crias, bem como o número de animais presentes.

Num sistema pristino esta questão não existia, quer porque os herbívoros tinham predadores, quer porque os animais podiam migrar, mas nem uma coisa nem a outra seriam socialmente aceitáveis.

A grande diferença, para Portugal, é que o factor limitante não era a alimentação de Inverno, por causa da neve, mas sim a alimentação de Verão, por causa da falta de água.

Não é uma diferença pequena porque a variabilidade da precipitação no Verão nas nossas circunstâncias e, consequentemente, da disponibilidade de alimento, é muito maior que a variabilidade da quantidade de neve que limita a disponibilidade de alimento.

E muito mais imprevisível.

O que, associado ao facto de não ser possível a migração, torna a gestão dos grandes herbívoros muito mais difícil, não permitindo o modelo de caça dos animais excedentários (agora não no fim do Outono, mas na Primavera, quando os animais estão em criação) que tinha resultado no modelo inicial.

Acresce que, socialmente, era muito complicado ter animais assilvestrados, sem ser em cercados que garantam a sua contenção (e mesmo aí, veremos da primeira vez que houver um acidente complicado com um animal que não está habituada a ter gente à volta), para além da questão dos fogos (essa sim, tem estado a surgir agora, em algumas zonas em que a oposição à gestão do fogo pelo fogo tem ganho peso excessivo, culpando-se, pelo menos parcialmente, as políticas de renaturalização pelo maior intensidade e extensão dos fogos que ocorrem).

Infelizmente, uma boa ideia, que consiste em repensar o modelo de conservação em função da evolução sócio-económica, contando com a renaturalização como processo positivo que está a alterar a dinâmica da biodiversidade na Europa, foi abafada por uma lógica ideológica em que a renaturalização ganhou um estatuto de bem intrínseco, ao ponto da União Europeia ter inventado uma política de restauro da natureza, coerciva, e assente em bases técnicas e científicas muito frágeis, no pressuposto de que naturalizar é sempre melhor que reconstruir modelos de gestão que respondam às sociedades actuais (incluindo mais peso de não gestão, também).

O mais provável é que, como acontece em todos os modelos de engenharia social que pretendem moldar sociedades a concepções ideológicas sobre o que deveria ser o mundo perfeito, a coisa acabe por borregar.

Felizmente, neste caso, não parece haver uma lógica repressiva como nos grandes modelos de criação de sociedades perfeitas do século XX, portanto, provavelmente, para além do uso ineficiente de recursos, não virá muito mal ao mundo por causa deste equívoco.

2 comentários:

  1. Talvez com exemplos se percebesse melhor o que quer dizer. Assim, não passa de um texto vago

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  2. A questão do "rewilding" se calhar até é uma boa ideia, desde que a consigam, enquadrar com uma sociedade crescentemente poluente, com o vertiginoso aumento da mobilidade, na terra, na água e nos Céus.

    E outro fenómeno óbvio; a febre imobiliária não pára de crescer, pode ser só negócio e pode ser que acabe bem

    Mas quando se vai às entrelinhas, há um desassossego crescente, há uma angústia que se sente, há vazio e não é preciso ser engenheiro para perceber.






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