quarta-feira, 12 de agosto de 2026

"Nós sabemos muito sobre o branco, mas o branco não sabe sobre nós"

 A frase é de Isabèl Zuaa, sobre quem já escrevi uma vez.

Mas, neste caso, não é da entrevista de Isabèl Zuaa que quero falar, mas da opção editorial do Público, que chama esta frase para a primeira página, dando-lhe grande destaque.

A frase não está distorcida, formalmente, mas é distorcida, substancialmente, pela sua retirada de contexto e pela opção de fazer dela um grande chamariz de primeira página.

Isabèl está a responder a perguntas - já agora, as respostas são bem mais equilibradas e política e socialmente orientadas que as perguntas da jornalista, que a quer forçar a dizer as coisas nos termos defendidos pela jornalista - e, no caso, a falar da sua afirmação como actriz.

A frase em si mesmo, mesmo no seu contexto, é uma frase racista (não entendo a que propósito Isabèl acha que pode representar os não brancos que são chineses ou do industão, por exemplo, incluindo-os no seu "nós" que se opõe aos brancos), mas tem algum sentido.

Compreendo que os actores com características visivelmente diferentes do padrão dominante numa determinada região tenham dificuldade em se impor por causa dessa diferença.

Suponho que acontece o mesmo aos actores brancos em Angola ou na Índia, que tem uma poderosa indústria cinematográfica onde é raro ver brancos, tal como nos filmes iranianos é raro ver europeus com características eslavas ou nórdicas.

Posso até admitir que os actores pretos e mulatos tenham mais dificuldade em países maioritariamente brancos, que brancos em países maioritariamente com outras tipos de pele, cabelos e olhos, só não compreendo tão bem a distinção americana entre brancos e hispânicos, mesmo considerando que grande parte dos hispânicos americanos possam ter características visíveis dos índios da América latina.

Tudo isso pode fazer parte do discurso público, acho que Isabèl tem todo o direito a puxar do facto de ser mulher, preta e artista para se apresentar como oprimida que precisa de lutar mais que os outros para obter o estatuto privilegiado que tem, este tipo de opções fazem parte da natureza humana.

O que não faz o menor sentido é a opção editorial do Público porque engana os leitores sobre o que realmente disse Isabèl Zuaa (independentemente de citar, truncando, palavras suas), sobre o conteúdo da entrevista para que se pretende chamar a atenção (Isabèl Zuaa é inegavelmente racista, mas a entrevista é muito menos racista do que se poderia julgar a partir do destaque do Público) e demonstra uma enorme falta de respeito pela entrevistada, atingida, evidentemente, pela caricatura que o Público faz da entrevista que deu.

Meus caros jornalistas, um jornal não serve para me tentarem doutrinar, serve para eu ter informação, as vossas agendas podem parecer-vos muito, muito importantes e, se calhar, são, mas não gosto nada que me sirvam gato por lebre.

Quando isso acontece, dá-me uma vontade enorme de ir almoçar a outro lado.

Bem sei que para quem vive da caridade da família Azevedo, eu querer comprar, ou não, o jornal, possa parecer irrelevante, mas confiar na eterna caridade dos outros parece-me um bocadinho arriscado.

13 comentários:

  1. Concordo.

    Logo de manhã, ao passar a vista pelas primeiras Páginas, saltou esta Senhora na Capa do Público, e o choradinho, de tão pelintra, fez-me passar a toda a velocidade para a capa seguinte.

    É que ao passar o Primeiro Quarto de 2026, só pode ser piada.

    Que indigência.







    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Realmente, até Kirchoff se enganou em relação aos (corpos) "negros" :)

      Eliminar
  2. Subscrevo
    A cultura de caridade em jornais e institutos públicos cria um clima de inimputabilidade que gera este tipo de outputs.

    ResponderEliminar
  3. A propósito de Indigências, e sobre o Eclipse, é verdadeiramente deprimente o estendal de vacuidades e pólvora-seca, que no essencial tem sido a emissão da rádio Observador, desde manhã.

    Poderiam ter optado pela pedagogia mas o chamamento do vácuo foi mais forte e tem sido uma barragem sem fim, de insignificâncias, vulgaridades e óculos.

    Mas por elementar justiça tenho de destacar, que no meio de tanto ruído e tanto nada, há pouco, alguém sugeria que em vez de se porem parvamente a olhar o sol com óculos tontos, olhassem á volta para observar, por exemplo o comportamento dos pássaros.

    É pouco mas já é alguma coisa e é precisamente por aí que deveriam ter ido.

    Paciência talvez no próximo Eclipse, já consigam ser mais profissionais













    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O Observador é mais um caso de caridade... nem para embrulhar castanhas

      Eliminar
    2. Pode explicar a sua ideia? Tanto quanto sei, o Observador tem vindo a diminuir os prejuízos iniciais (que são investimento) tendo, inclusivamente, tido resultados positivos no último exercício.
      Por que razão diz que é um caso de caridade semelhante ao Público, que dá prejuízos astronómicos desde sempre, sem qualquer trajectória de progressiva autonomia financeira?

      Eliminar
    3. “não compreendo tão bem a distinção americana entre brancos e hispânicos”. Procure compreender, está sempre a tempo de mudar a sua visão racista do mundo.

      Eliminar
    4. Ajude-me, se não se importa, a perceber qual é o fundamento da distinção entre uma coisa e outra

      Eliminar
    5. 02:07 14AGO26


      Pois Brancos e Hispânicos, tem que se lhe diga


      Eliminar
    6. Indague como era tratado um emigrante português em França nos anos 60 do século passado e terá a resposta.

      Eliminar
    7. Não me lembro de haver qualquer distinção formal que permita a uma pessoa escolher entre branco e português, em França, em inquéritos sobre etnia de pertença, portanto não percebi a resposta.

      Eliminar
  4. Distinção formal? Liberdade de escolha? Mas está a falar de quê? Foi português “de segunda”?

    ResponderEliminar
  5. A Sonae nem sabe o gestor que está a perder em defesa dos seus interesses.
    No meio de tanta barbaridade publicada, também à direita, só o publico é que um problema.

    ResponderEliminar

Tiranos contentores

Este ano escolar nasceu caoticamente. O Ministro parece ter perdido o seu estado de graça. Já o intitularam o pior ministro da Educação de s...