sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Justiça e povo: um divórcio perigoso

O Supremo Tribunal espanhol decretou que pessoas que atravessassem a fronteira numa zona onde não existissem «barreiras físicas» não poderiam ser devolvidas imediatamente ao local de onde provinham, as chamadas «devoluções a quente». Muitos acreditam que esta jurisprudência terá contribuído para criar um enorme efeito de chamada na atual crise migratória de Ceuta.

Há pouco mais de um ano, no Reino Unido, um juiz suspendeu a expulsão de um criminoso albanês porque o seu filho não gostava do «tipo de nuggets vendidos no estrangeiro».

Em Portugal, o Tribunal Constitucional chumbou a lei que permitia que pessoas condenadas por crimes particularmente graves, como homicídio, pudessem perder a nacionalidade portuguesa. A medida aplicar-se-ia apenas a quem mantivesse outra nacionalidade, não podendo, portanto, criar situações de apatridia. E leis deste tipo vigoram em vários países europeus, com longa tradição democrática e de respeito pelos direitos humanos, como França, Países Baixos, Bélgica ou Dinamarca.

Acredito que a maioria da opinião pública destes três países teria muita dificuldade em compreender estas decisões, e ainda maior dificuldade em concordar com elas.

Não discuto estas decisões do ponto de vista jurídico, até porque não é essa a minha área. Discuto-as do ponto de vista social e político.

E, sob esses pontos de vista, acredito que um grande divórcio entre o poder judicial e a opinião pública não é desejável. Quer esse divórcio resulte de formulações jurídicas excessivamente afastadas do senso comum, quer de interpretações dos juízes que possam ser percecionadas como politicamente enviesadas.

Admito que os quadros legais devam funcionar como mecanismos de moderação e como barreiras aos populismos e aos imediatismos justicialistas. A Justiça não pode ser feita ao sabor da indignação do momento nem das maiorias circunstanciais.

Mas também penso que se está a esticar demasiado a corda neste divórcio entre a Justiça e o povo.

Filosoficamente, é em nome do povo que a Justiça é feita.

Se esta prosseguir um caminho cada vez mais divorciado da perceção da maioria dos cidadãos, e até de uma certa ideia de senso comum, corre o risco de contribuir para uma trajetória de descrédito e de revolta. E isso não trará nada de bom.

Paradoxalmente, no seu afã de, no imediato, defender uma determinada ideia de civilização, a Justiça poderá estar a contribuir, a longo prazo, para a condenação dessa mesma ideia de civilização.

Porque uma Justiça que o povo deixa de compreender e de reconhecer como justa corre o risco de deixar de ser respeitada.

E esse é um risco que uma sociedade democrática não pode ignorar.

7 comentários:

  1. Excelente texto este de M.A.Batista.

    Não parece boa ideia os Srs. Drs. Juízes fazerem Leis que arranjem mais Confusões, em vez de as resolverem.

    Depois queixem-se

    E atirem as culpas para o Chega




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  2. Obviamente são leis e normas criadas com o objectivo de minar o país, minar a justiça, minar a sociedade, minar a economia e sobretudo minar o moral das pessoas.
    Quando os canalhas dos eleitores votam à esquerda as consequências são ao nível da aberração.

    Combater a esquerda passa por implementar, rapidamente e em força, reformas estruturais, a começar, repito, a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos seguindo-se outras reformas estruturais.

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    1. Caro Silva 07AGO26 : 19:35


      Começo por esclarecer que não me vejo nem de Direita nem de Esquerda, nem sequer de Centro , seja Centro-Direita ou Centro-Esquerda.

      Também faço notar que já vi excelentes ideias de Direita vindas da Esquerda e Formidáveis ideias de Esquerda produzidas pela Direita.

      O Fim-de-semana á Inglesa, metade de sábado e o domingo inteiro, foi uma criação da Esquerda, bem como as Férias pagas e o "subsídio de Natal, agora décimo terceiro e quarto mês.

      Winston Churchil, a quem devemos o não estar agora, a saudarmo-nos todos, de braço no ar, considerava-se um homem de Esquerda, tal como Georgina Washington ou Benjamin Franklin, etc.

      O traste do Hitler e o Sócio Mussolini, também eram de Esquerda, mas é daquelas coisas, no melhor pano cai a nódoa.

      Tudo isto para dizer, não leve muito a sério isso de Esquerdas e Direitas pois nos dois lados há do pior e do melhor

      A propósito Jesus Cristo, Buda e São João Batista eram convictos Pacifistas de Esquerda


      Você parece fortemente anti-Esquerda, e deve estar a perguntar aonde quererá o gajo chegar com todo este paleio ??

      Bom, era só para dizer que a Esquerda não morde, aliás há muitos gajos de Direita que lá estão, por os lugares á Direita estarem ocupados

      Sendo que muita malta de Esquerda está á Direita pela mesma razão

      Sabe é aquela história de todos caminhos vão dar ao carcanhol







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    2. Ui! Tanta confusão nessa cabeça. Sol a mais, ou tabaco a menos??
      :) ;)

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  3. Os jovens marroquinos são muito informados da jurisprudência espanhola, como está bom de ver.

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  4. Os jovens marroquinos, ou quem pensa por eles.

    Porque aqui para nós, uma coisa "espontânea" daquela envergadura, manifestamente não foi pensada, pelos envolvidos.

    Para já nem falar da cobertura mediática, verdadeiramente profissional e bem planeada




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  5. Obviamente há interesses políticos e económicos
    Não foi uma flash mob
    Coincidências tanto imigrante nos glovos e ubers, multinacionais

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