sexta-feira, 7 de agosto de 2026

As férias numa cassete

A chegada do mês de Agosto e o tempo livre em demasia despertam-nos inevitavelmente alguma nostalgia. Talvez por isso me tenha chamado a atenção um post numa rede social sobre a revolução das cassetes no modo como a minha geração consumia música. Se hoje as praias são povoadas por auriculares invisíveis e colunas bluetooth que partilham playlists algorítmicas com toda a gente, em meados dos anos 70 o meu Verão preparava-se com semanas de antecedência, em frente a uma telefonia.

A cassete invadiu as nossas vidas no início da minha adolescência. Para quem, como eu, vivia agarrado a qualquer coisa que tocasse música – um radiogravador, um gira-discos algo tosco e uns quantos discos (que eram caríssimos) –, ela representou a verdadeira libertação. Tornei-me num caçador de músicas, sempre atento ao momento certo de carregar no REC. Era um jogo emocionante e tenso, que falhava muitas vezes quando o locutor da emissora interrompia o tema para mandar uma laracha em cima do refrão.

Aqueles longos dias de Agosto, em que o tempo parecia não se mexer, eram passados a ouvir verdadeiros achados. Havia sempre um colega de escola com uma boa aparelhagem que me gravava álbuns inteiros a pedido. Curioso como, naquela época, dava estatuto ter alta-fidelidade em casa, algo a que hoje poucos ligam – cem anos antes, o mesmo papel teria sido cumprido por um elegante piano na sala. Além disso, a partir do final da tarde, o Programa 4 da Radiodifusão Portuguesa, a transmitir em Frequência Modulada e em Estéreo – numa cadeia de fiáveis emissores localizados em Bornes, Braga, Faro, Gardunha, Guarda, Lamego, Lisboa, Lousã, Mendro, Monchique, Montejunto, Portalegre, Porto e Valença –, salvava-nos o dia com programas que passavam discos long play inteiros. Pontificavam na época animadores radiofónicos (autênticos influencers musicais) como João David Nunes, Jaime Fernandes, António Sérgio ou José Nuno Martins. Lembro-me bem do Dois Pontos e do Em Órbita, com pouca conversa e muita música. Nesse contexto, a caça mudou de escala: já não perseguia canções avulsas para animar os dias de sol, mas obras inteiras. Era uma pirataria socialmente aceite.

Nos anos 80, a revolução tornou-se portátil com os pequenos Walkman da Sony. Com eles, a estereofonia democratizou-se e a praia ganhou outro brilho e uma nova banda sonora. A música “tridimensional” passava a ter entrada directa para os meus ouvidos, potenciada pelas novas cassetes de Crómio e de Metal, que ofereciam uma surpreendente gama de frequências, dos baixos aos agudos, com pouco ruído de fundo. Deitados nas toalhas, isolados do mundo pelo som dos auscultadores de esponja cor-de-laranja, dávamos os primeiros passos na nossa educação audiófila.

Só perto dos anos 90 consegui comprar, à custa de muito trabalho e de prestações “suaves”, um sistema de som a que podia chamar, orgulhosamente, “aparelhagem”. Nela, as cassetes continuavam a ser a minha grande fonte de música barata; persistia o caçador de rádio donde eu concebia as cassetes de misturas para partilhar com os amigos nas férias. Alguém se lembra da estação Correio da Manhã Rádio, que passava horas seguidas de boa música pop?

Com o tempo, a minha colecção de discos e a forma como os ouço melhorou muito. Hoje, de férias e com acesso a toda a música do mundo à distância de um clique, parece-me impensável ouvir qualquer álbum através daquela fita magnética de escassos 3,8 milímetros, mesmo que seja de dióxido de crómio. A minha devoção pelo som de alta qualidade tornou-se mais forte do que o culto da nostalgia. Ainda assim, olhando para o mar neste mês de Agosto, sei que é um facto: devo muitos dos meus momentos de férias mais felizes às velhas cassetes e à música que ia "sacar" às ondas da rádio em FM. Para ouvir na praia, com o som do mar em fundo.

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2 comentários:

  1. Pois, tive a Sorte de ficar apanhado pelo Jazz, ainda um pouco antes do Serviço Militar e a coisa, revelou-se Felizmente incurável.

    Do Jazz á Clássica, foi um pequeno passo e até hoje

    Claro que Sinatra será sempre Sinatra, da mesma forma que Ella será sempre Ella

    Mas Clássica e Jazz são outra coisa








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  2. Em rigoroso exclusivo;

    Luiz Neves planeava assaltar o Banco de Portugal, e esconder o dinheiro no fundo da Piscina



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