A cassete
invadiu as nossas vidas no início da minha adolescência. Para quem, como eu,
vivia agarrado a qualquer coisa que tocasse música – um radiogravador, um
gira-discos algo tosco e uns quantos discos (que eram caríssimos) –, ela
representou a verdadeira libertação. Tornei-me num caçador de músicas, sempre
atento ao momento certo de carregar no REC. Era um jogo emocionante e
tenso, que falhava muitas vezes quando o locutor da emissora interrompia o tema
para mandar uma laracha em cima do refrão.
Aqueles
longos dias de Agosto, em que o tempo parecia não se mexer, eram passados a
ouvir verdadeiros achados. Havia sempre um colega de escola com uma boa
aparelhagem que me gravava álbuns inteiros a pedido. Curioso como, naquela
época, dava estatuto ter alta-fidelidade em casa, algo a que hoje poucos ligam
– cem anos antes, o mesmo papel teria sido cumprido por um elegante piano na
sala. Além disso, a partir do final da tarde, o Programa 4 da Radiodifusão
Portuguesa, a transmitir em Frequência Modulada e em Estéreo – numa cadeia de
fiáveis emissores localizados em Bornes, Braga, Faro, Gardunha, Guarda, Lamego,
Lisboa, Lousã, Mendro, Monchique, Montejunto, Portalegre, Porto e Valença –,
salvava-nos o dia com programas que passavam discos long play inteiros.
Pontificavam na época animadores radiofónicos (autênticos influencers
musicais) como João David Nunes, Jaime Fernandes, António Sérgio ou José Nuno
Martins. Lembro-me bem do Dois Pontos e do Em Órbita, com pouca
conversa e muita música. Nesse contexto, a caça mudou de escala: já não
perseguia canções avulsas para animar os dias de sol, mas obras inteiras. Era
uma pirataria socialmente aceite.
Nos anos 80,
a revolução tornou-se portátil com os pequenos Walkman da Sony. Com
eles, a estereofonia democratizou-se e a praia ganhou outro brilho e uma nova
banda sonora. A música “tridimensional” passava a ter entrada directa para os
meus ouvidos, potenciada pelas novas cassetes de Crómio e de Metal, que
ofereciam uma surpreendente gama de frequências, dos baixos aos agudos, com
pouco ruído de fundo. Deitados nas toalhas, isolados do mundo pelo som dos
auscultadores de esponja cor-de-laranja, dávamos os primeiros passos na nossa
educação audiófila.
Só perto dos
anos 90 consegui comprar, à custa de muito trabalho e de prestações “suaves”,
um sistema de som a que podia chamar, orgulhosamente, “aparelhagem”. Nela, as
cassetes continuavam a ser a minha grande fonte de música barata; persistia o
caçador de rádio donde eu concebia as cassetes de misturas para partilhar com
os amigos nas férias. Alguém se lembra da estação Correio da Manhã Rádio,
que passava horas seguidas de boa música pop?
Com o tempo, a minha colecção de discos e a forma como os ouço melhorou muito. Hoje, de férias e com acesso a toda a música do mundo à distância de um clique, parece-me impensável ouvir qualquer álbum através daquela fita magnética de escassos 3,8 milímetros, mesmo que seja de dióxido de crómio. A minha devoção pelo som de alta qualidade tornou-se mais forte do que o culto da nostalgia. Ainda assim, olhando para o mar neste mês de Agosto, sei que é um facto: devo muitos dos meus momentos de férias mais felizes às velhas cassetes e à música que ia "sacar" às ondas da rádio em FM. Para ouvir na praia, com o som do mar em fundo.
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Pois, tive a Sorte de ficar apanhado pelo Jazz, ainda um pouco antes do Serviço Militar e a coisa, revelou-se Felizmente incurável.
ResponderEliminarDo Jazz á Clássica, foi um pequeno passo e até hoje
Claro que Sinatra será sempre Sinatra, da mesma forma que Ella será sempre Ella
Mas Clássica e Jazz são outra coisa
Em rigoroso exclusivo;
ResponderEliminarLuiz Neves planeava assaltar o Banco de Portugal, e esconder o dinheiro no fundo da Piscina