sexta-feira, 17 de julho de 2026

Lê-se e não se acredita

Depois de escrito o post, dei com o arranque de um artigo que ilustra bem o que poderia e deveria ser a discussão do Estado da Nação, se o jornalismo não fosse esmagadoramente mesquinho e negligente: "Há um Portugal que cresce acima da média da zona euro, com o turismo em máximos, as exportações resilientes, o investimento estrangeiro em recordes e o desemprego em mínimos. E há outro, menos fotogénico, que não o acompanha: o da produtividade estagnada, do valor acrescentado que não cresce e dos salários reais que custam a subir. A boa conjuntura é real e merece ser celebrada. Mas, sejamos claros, não chega".

"Com a publicação das notas dos exames secundários em risco, com o ministro da Administração Interna sob fogo devido a conflitos de interesses, o primeiro-ministro nem se esforçou por levar um pacote de medidas simpáticas para distribuir", Helena Pereira, no Público.

Seria o menos, uma jornalista escrever isto, mas isto é uma concepção de política generalizada entre os jornalistas e comentadores (frequentemente um pleonasmo), incapazes de ver mais que a pequena politiquinha.

Vejamos este parágrafo ponto por ponto.

Não, não é a publicação das notas dos exames secundários que está em risco, o que está em risco é o cumprimento do adiamento de três dias definido, se não forem publicadas hoje, sê-lo-ão com quatro, cinco ou seis dias de atraso, é isso que está em causa.

A jornalista poderia ter pegado no facto da gestão da correcção dos exames ter corrido mal, ter dito que o ministro deu um passo maior que a perna, que não acautelou todas as questões que poderiam surgir (só alguém que nunca geriu coisa nenhuma tem esta ideia de que é possível gerir, em especial processos de mudança, sem risco de tomar decisões sem toda a informação possível para reduzir o risco a zero), etc., mas não, não esteve interessada na discussão sobre a gestão da correcção dos examens e preferiu considerar que o incumprimento de um prazo, mesmo sendo um prazo importante com implicações em muitos aspectos, é que é o essencial, sem mesmo discutir em que é que mudar o prazo para mais dois dias é um grande problema, nas actuais circunstâncias.

Não vou discutir a questão do ministro da administração interna porque o complexo mediático tem muita responsabilidade no facto do actual ministro ser ministro, substituindo uma boa ministra completamente trucidada pelos jornais, por não encaixar naquilo que os jornalistas acham que deve ser um ministro.

O mais extraordinário é esta ideia de que o debate do Estado da Nação não serve para debater o Estado da Nação (o que manifestamente Luís Montenegro tentou fazer, comparando dados de antes e depois, discutíveis, com certeza, mas bastante mais sério que o Partido Socialista que fingiu que era irrelevante discutir as alterações dos dados da população, e a sua implicação no Estado da Nação, nomeadamente na pressão que o aumento da população coloca nos serviços públicos, mas também no que representa de potencial de produção de riqueza) mas para o primeiro ministro tourear os jornalistas apresentando umas capas vermelhas com que possam marrar, em vez de marrar no primeiro-ministro.

Que gente mais sem préstimo para a função social que diz desempenhar.

12 comentários:

  1. Os comentadores de direita tornam-se muito críticos com os media quando a direita governa. Faz parte do vosso código genético, não é?

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    1. Não sei, não faço ideia entre outras razões, porque não sou um comentador de direita.
      Mas tenho ideia de que quando escrevi isto, era a esquerda que governava, só para dar um exemplo de como repetir comentários genéricos sem correspondência com a realidade é uma actividade não só inútil, como bastante estúpida:
      https://observador.pt/opiniao/__trashed-12/

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  2. Resposta genérica.
    Já agora, o seu esforço em lavar a imagem do ministro Fernando Alexandre tem sido degradante.

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    1. Isso é apenas um problema meu, que assino o que escrevo, ao contrário de vossa excelência

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  3. > sem préstimo para a função social que diz desempenhar.

    Não se pode cometer o erro de acreditar. A "missão de informar" é a primeira mentira - é mais "Não estou aqui para enganar nem um, nem dois, nem três, estou aqui para enganar todos de uma vez."

    A comunicação social organizada existe para deprimir, distrair, e desactivar a populaça, não vá ela tornar-se perigosa. Substitui com vantagem a metralha que tinha ser usada em tempos mais simples. Uma Cristina Ferreira vale dois regimentos de lanceiros, etc.

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  4. "substituindo uma boa ministra", a própria já reconheceu que não estava preparada para o cargo, mas pelos vistos ainda tem fans.

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    1. Vejo que tem dificuldade em perceber a diferença entre "ser boa ministra" e "ter preparação para o cargo".

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    2. De igual forma vejo que tem dificuldade em reconhecer que como ministra a senhora foi um desastre o que espelhou a falta de preparação que ela própria reconheceu.
      É raro as pessoas cumprirem bem as funções sem a devida preparação, pelo menos em circunstancias exigentes onde o improviso não chega; e quanto ao improviso da senhora, ... nem sequer existiu.
      Devia ter ficado por provedora, fez melhor trabalho.

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    3. Sim, tenho dificuldade em reconhecer porque não vejo nada que indicie que foi má ministra.
      Vossa excelência também deve ter dificuldade em fundamentar a sua opinião porque em vez de dizer que foi má ministro por isto ou aquilo, usa um argumento circular: se não estava preparada, foi má ministra e a demonstração disso é que a própria disse que não estava preparada.

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  5. Fosse o sector privado, de acordo com as regras de mercado, a gerir este processo, com qualidade de serviço e SLA, nada disto se passava.
    Onde o Estado mexe, a obra não acontece

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    1. Foi o sector privado que fez porcaria neste caso. Os departamentos do Ministério da Educação foram substituídos por empresas escolhidas pelo Governo, por critérios que só ele sabe. Essas empresas fizeram asneira e foram as direções das escolas e os professores, que são funcionários públicos, que andaram a trabalhar à noite e ao fim de semana para limpar a porcaria que outros fizeram.

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    2. Não diga mentiras. O software que deu problemas inicialmente, dando depois origem a uma série de problemas em cascata, foi desenvolvido dentro do ministério, por técnicos do ministério. O que aconteceu, como acontece frequentemente, quando se passa dos testes para a realidade, em grande escala, pequenos problemas que poderiam existir, acabam em grandes complicações.
      Resolvidas pelos mesmo técnicos, com apoio da Deloitte.

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