domingo, 12 de julho de 2026

Jornalismo a granel

Um dia destes, o Público tinha uma chamada de primeira página e uma página inteira (que não li, passei os olhos por um ou outro parágrafo para confirmar que não valia a pena ler, tratava-se de um artigo de mal dizer do jornalista sobre Ronaldo, disfarçado de análise numérica rigorosa) sobre o facto de Ronaldo ser o que menos tinha corrido dos 16 finalistas.

A coisa era toda ela completamente ridícula, consistia, tanto quanto percebi, em pegar no jogador mais avançado de cada uma das 16 equipas que chegaram aos oitavos, e ver quanto tinham corrido, essencialmente para dizer que o Ronaldo não joga nada e está quieto, sem que se perceba o que serve dizer se alguém corre mais um bocadinho ou menos um bocadinho, fora do contexto do jogo de equipa.

Tinha uma tabela com os ditos jogadores, a maior parte dos quais nem sei quem são, portanto não sei se têm estado a jogar bem ou mal, mas reparei que imediatamente antes de Ronaldo, com números muito semelhantes, estava um jogador de que tenho ouvido falar bem neste campeonato, um tal Mbappé.

Assim sendo, normal seria o jornalista concluir que isso de correr muito ou pouco talvez não seja o que define o que cada um joga, só que como o jornalista queria é dizer que Ronaldo está a mais, este pequeno pormenor de ter números semelhantes a Mbappé passou a irrelevante.

O governo (finalmente!), resolveu começar a mexer um bocado mais no mercado de arrendamento e claro que a imprensa, os comentadores e a oposição que criticam o governo por não fazer nada de relevante e se limitar a cumprir o papel de rolha, começaram a criticar o que o governo quer fazer.

Na televisão que estava a ver, aparece o senhor da associação de inquilinos lisbonenses, ou um nome semelhante, a defender coisas completamente idiotas como que reina a informalidade à margem da lei no mercado de arrendamento, de maneira que mudar a lei para a qual as pessoas se estão nas tintas ia aumentar a instabilidade dos inquilinos que fazem acordos com os senhorios à margem da lei.

Como faço frequentemente quando aparece um representante de grupos difusos, como os inquilinos, os utentes, os moradores e outras macacadas, vi o nome, escrevi-o no google e acrescentei "candidato".

Bingo! Lá esta a Mafra TV a entrevistar o candidato da CDU à Câmara de Sintra, o tal senhor que fala em nome dos inquilinos lisbonenses, sem que os jornalistas queiram saber qual é a representatividade dessa associação e como são escolhidos os seus dirigentes: "Entre abril de 2012 e outubro de 2017 foi vereador em Sintra, assumindo as Atividades Económicas, Licenciamentos e Gestão de Mercados e Serviço Municipal de Informação ao Consumidor, além de presidente da Agência Municipal de Energia de Sintra (AMES), administrador da Fundação CulturSintra, e fundador da Associação Saloia (A2S). Militante do PCP, membro da Direção Regional de Lisboa, do executivo e da Comissão Concelhia de Sintra, Pedro Ventura foi também, entre 2016 e 2021, consultor nos Serviços Intermunicipalizados de Águas e Resíduos (Simar) de Loures e de Odivelas".

A esmagadora maioria do jornalismo acha irrelevante dizer que quando Joana Bordalo e Sá fala sobre saúde, não sabemos se fala como médica, como dirigente sindical, ou apoiante sistemática da CDU, tal como Tiago Oliveira é sempre apresentado como representando os trabalhadores por ser secretário geral da CGTP, omitindo-se sistematicamente a sua qualidade de membro do comité central do PCP.

Agora que o processo de exames está a correr mal, desata toda a gente a dizer que não se percebe por que razão o governo foi mexer numa coisa que corria bem (traduza-se, era igual ao que sempre foi, evitando-se os riscos de qualquer mexida que pudesse tornar as coisas mais eficientes e melhores), e que o ministro anda feito barata tonta para a frente e para trás, a tentar resolver os problemas que existem.

Susana Peralta escandaliza-se porque o ministro já teve de recuar não sei quantas vezes (felizmente, digo eu, isto é uma crítica típica de quem nunca teve de gerir coisa nenhuma, e portanto não sabe que nem sempre as decisões correm bem e é útil ter flexibilidade de adaptação à realidade quando as coisas correm mal, recuando as vezes que for preciso para resolver os problemas não previstos) e, pior, na opinião de Susana Peralta, o ministro foi vítima da sua vontade de poder apresentar obra feita (felizmente, digo eu, o que me chateia é haver tantos ministros cuja vontade maior é ser ministros, e não correr riscos de decidir o que é difícil e complexo).

Bem sei que Susana Peralta não é jornalista, é uma prolixa comentadora que fala e escreve em vários sítios ao mesmo tempo, sempre com certezas absolutas de que faria muito melhor que os outros, porque tem três estudos que confirmam as suas ideias, faz parte deste ambiente mediático malsão em que qualquer erro, qualquer coisa que corre mal, tem de ter consequências definidas por quem critica e que raramente respondem à questão concreta que é preciso resolver.

Miguel Pinheiro, esse sim, jornalista e, ao mesmo tempo, comentador e gestor de jornalismo, até diz que não é qualquer um que é um bom político, dá até o exemplo de David Cameron, que um dia perdeu força política, demonstrando que não era um bom político.

Miguel, ao contrário dos jornalistas, que podem dizer o que entendem sem que isso tenha qualquer efeito na sua reputação (O comentador da CNN Portugal, Miguel Pinheiro, considera que se Luís Montenegro continuar a estratégia de "assobiar para o lado" as eleições vão ser "uma hecatombe".), nisso se aproximando dos académicos, os políticos, como os futebolistas, vivem num palco em que são duramente escrutinados, de forma permanente, num confronto desigual com os seus críticos mediáticos.

O percurso de Passos Coelho, um bom político, com certeza, demonstra de forma clara como é desigual e injusto o escrutínio imposto pelo mundo mediático, demonstrando como o jornalismo pode dizer o que quiser, mesmo que seja mentira, e fazer pulhices permanentemente a alguém, sem que os jornalistas paguem outro preço que o que advém de, aos poucos, o jornalismo passar de activo fundamental da democracia a passivo sem qualquer raiz social sólida.

Ainda esta semana ouvi Susana Peralta repetir a mentira inventada pelo jornalismo de que Montenegro era primeiro ministro e continuava a receber uma avença da Solverde, sendo os factos irrelevantes face à sua interpretação criativa de que Montenegro está a receber uma avença porque familiares são donos e gestores de uma empresa que presta serviços pelos quais recebem uma avença.

Podemos discutir se um primeiro-ministro deve ter familiares que têm empresas, o que manifestamente é mentira que esse primeiro ministro esteja a receber uma avença.

E é isto o jornalismo hoje em dia.

Paulo Querido fez um trabalho monumental de caracterização dos comentadores que escrevem em jornais, classificando-os politicamente, só que o problema fundamental não são os comentadores (há um problema sério com o comentariado que consiste no facto de se dizer ou escrever uma mentira, factualmente demonstrável, não acarretar o imediato afastamento do comentador), o problema são mesmo as redacções, essas sim, que funcionam da forma que descrevi, seja no jornalismo desportivo, seja no jornalismo político.

16 comentários:

  1. Muito bom para a primeira parte deste post.

    Não lembra na verdade ao diabo, que a qualidade jogador/jogo, seja avaliada pela corrida.

    Daí para diante só posso dizer outra vez;

    Você tem cá uma paciência





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    1. A corrida faz parte, mas há muitos outros factores. Isto é mais uma demonstração que os problemas vão além do bias pró esquerda, pró terrorista, pro ditadura de esquerda.

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    2. "Agora que o processo de exames está a correr mal, desata toda a gente a dizer que não se percebe por que razão o governo foi mexer numa coisa que corria bem (traduza-se, era igual ao que sempre foi, evitando-se os riscos de qualquer mexida que pudesse tornar as coisas mais eficientes e melhores)"

      E têm razão uma vez que o ministro não justificou qual era a eficiência a ganhar.. Ainda menos justificou a decisão de avançar com base em protótipos feitos. Numa administração do Estado com significativas falhas de competência o minimo seria o Ministro fazer o TPC básico, já para não falar dos riscos sabotagem sindical.

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    3. Caro Lucklucky

      O Ministro está a ser miserávelmente sabotado, com a simpática e prestável colaboração de muitas pessoas, e Isto inclui a Comunicação Social, e uma data de gente dentro da máquina.

      Num mundo decente o Primeiro Ministro já devia ter posto meia dúzia de coisas em pratos limpos, mas tá visto que este mundo é indecente e rasca também.

      Estou convencido que se o estado pudesse, perante as evidências e provas dadas, despedir na hora, como acontece nas Empresas Privadas, a coisa entrava nos eixos.

      Mas como o funcionalismo é tudo gente fina e mesmo que se seja apanhado nas couves, ninguém é despedido, dá no que dá


      Tudo como dantes, etc




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    4. Se está a ser sabotado que o diga e em que modo.
      Não me surpreenderia, mas é preciso que o faça.

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  2. Quando apresentarmos o Henrique devemos referir que é arquitecto paisagista+ ex dirigente do Icn+ ex-avençado do Bruno Vitorino, vereador no Barreiro" + ex dirigente da Montis, ex-futuruo ministro da iniciativa liberal + ex-comentador do jornal público.
    O Henrique tem o dom de criticar quem lhe deu de comer. Tiro-lhe o chapéu.

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    1. Quando me perguntam como quero ser apresentado, digo sempre arquitecto paisagista.
      Represento-me a mim mesmo, nunca me apresento como representando mais que eu próprio.
      Se acha que isso é o mesmo que ser dirigente do PC e apresentar-se como representante dos inquilinos de Lisboa, é consigo.
      O resto não tem interesse nenhum, mas fiquei com curiosidade sobre a sua conclusão de criticar quem me deu de comer.
      Pode dar exemplos, por favor, para perceber o que quer dizer com isso (é mera curiosidade, eu critico quem quero, é um direito que tenho, eu e toda a gente, e nunca achei que quem paga o meu trabalho, também compra a minha opinião, como parece sugerir)

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    2. "Criticar quem lhe deu de comer"


      Está afirmação é um absurdo.

      Desde quando convidar alguém para jantar garante imunidade ??





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    3. O que tem a ver?
      As pessoas lêem as opiniões porque são de quem percebe das diferentes áreas, e escreve objectivamente sem qualquer amarra ideológica, ao contrário dos comentadores e jornalistas avençados.

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  3. Já ouviu a entrevista do Miguel Pinheiro ao Rui Tavares no Sob Escuta? Parecia mais uma conversa entre 2 comentadores, ao ponto do Miguel Pinheiro ter de desviar o assunto para não cair no ridículo.

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  4. E é isto o jornalismo hoje em dia e outras coisas piores, em parte porque muitos assistem. O povo que temos gosta de ser fantoche. E é isto o povo hoje em dia! A lei que regula a atividade existe para beneficiar os cidadãos e não os jornalistas, e não permite que eles façam o que querem como se nós fossemos coisas. Parece que não sabe que existe uma lei. Quem devia atuar faz que não vê. Fizerem o 25 de Abril e dizem que a censura acabou. Estamos pior!

    Parece que alguns andam a brincar aos comentários. Sempre que não há um objetivo prático, andam a brincar. Também alguns não veem mais nada além da política. E é isto o povo hoje em dia!

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    1. Caro Anónimo 18:40

      Tem toda a razão no que toca ao "jornalismo" ser "isto" e obviamente, justificar o tom depreciativo dos comentários de que é alvo

      Já não tem, parece-me, na afirmação de que o povo gosta de ser "fantoche".

      O que vemos é um alheamento e um grande desinteresse das pessoas em relação á Comunicação Social, sobretudo a impressa (excluo o Correio da Manhã que vive do que vende,
      graças ao excelente do excelente trabalho dos seus profissionais) e o Público, suportado pela caridade da Família Azevedo.

      Ora daqui não se vê que o "povo" goste de ser fantoche.

      Se quiser detalhar, desde já se agradece






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    2. O povo gosta de ser fantoche porque são fantoches uma vez que são controlados pela CS que determina o que devem saber, e porque não faz nada. Não ver claramente não é solução e faz lembrar a avestruz.

      Há outro problema com o povo. Quase em todo o lado onde estivermos, olhamos à nossa volta e vemos pessoas que mais parecem robots. Todas iguais a olhar estupidamente para um ecrã e com uns auriculares. Mas se não quiser perceber que há um problema com o povo, não vai perceber.

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    3. Não me parece que haja qualquer problema consigo.

      E de igual modo não vejo que haja qualquer problema com o povo.




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  5. Eu acho que o Henrique devia abrir um jornal. Aposto que ia ser muito bom, lucrativo e duradouro.
    E também devia escrever artigos de opinião. E também devia fundar uma associação para mostrar aos lamboes do estado como é que se faz conservação. Ah, e também devia fazer estudos e projetos para autarquias pagos por todos nós e que redundam em nada. Ah e também devia fundar um partido liberal cuja único propósito é fazer lobby para baixar os impostos aos milionários.

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    1. O que acha sobre o que eu deveria fazer da minha vida nem a mim me interessa, imagine os outros.

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