quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Não, Senhora Ministra

Ouvi ontem Margarida Balseiro Lopes dizer que era uma feminista e que faziam falta feministas activas.

Deu três razões: enquanto uma mulher tiver de pensar o que veste antes de sair de casa, enquanto uma mulher tiver de pensar no trajecto que vai fazer por causa da iluminação e enquanto uma mulher receber menos pelo mesmo trabalho, fazem faltas feministas activas.

Eu compreenderia se tivesse dito que enquanto houver mulheres que não podem escolher com quem casam, enquanto houver mulheres mutiladas por o serem, enquanto houver mulheres que não podem sair à rua de cara descoberta, enquanto houver mulheres que não podem dizer não ao que lhes impõem famílias e comunidades, fazem falta feministas activas.

Agora esta conversa chilra parece-me um bocadinho oca.

Vejamos, um por um, os argumentos.

Qualquer pessoa, antes de se vestir, pensa no que vai fazer vestido com aquela roupa, não veste a mesma coisa quer vá para o conselho de ministros ou para a praia.

Eu sei que não era a isso que se referia a Senhora Ministra, mas sim ao facto de uma pessoa vestir de forma mais sexualizada ou menos sexualizada (aos olhos de terceiros, a pessoa pode pensar o que quiser sobre a maneira como está vestida, que isso não apaga o facto de, em comunidade, haver quem pense de maneira diferente sobre o assunto).

A Senhora Ministra acha que deveríamos viver num mundo em que não haveria tensão sexual e desigualdade entre homens e mulheres na forma como lidam com essa tensão, e que não haveria gente suficientemente incivilizada para quebrar o fino verniz de civilização que nos impede de fazer o que nos passa na cabeça às pessoas com quem nos cruzamos.

Do mesmo modo, diria eu, tenho o direito a ir coberto de ouro para o sítio mais perigoso do mundo, porque roubar terceiros é inaceitável, partindo do princípio de que toda a gente cumpre normas de civilidade e urbanidade.

O mundo não é assim, a vida não é assim e, Senhora Ministra, por mais que se esforce haverá sempre um grunho qualquer que fará comentários, ou adoptará atitudes, em função da forma como os outros vão vestidos, portanto se está à espera do paraíso na terra, sugiro que se sente, por causa das varizes.

O segundo argumento nem sequer é especificamente feminino, é uma questão de segurança, seja ela potenciada pelo risco de agressões sexuais, ou de outro tipo qualquer, é aliás uma matéria em que as maiores preocupações nem são com a condição de mulher, mas com a fragilidade física (velhos, deficientes, etc.) ou a fragilidade social (toda a enorme gama de diferenças minoritárias, sejam em função da cor da pele, do estatuto social, do comportamento individual, etc.).

Querer transformar os problemas de segurança no espaço público como uma questão de cariz essencialmente sexual, a mim parece-me uma grande desconsideração pelos que, todos os dias, sendo homens, mulheres, crianças, velhos, deficientes, têm de atravessar zonas que consideram perigosas, transidos de medo, não por serem mulheres, mas por se sentirem frágeis.

Mais grave é a invocação do menor pagamento das mulheres.

Os outros dois argumentos são um bocadinho pueris, mas a invocação da diferença de pagamento entre homens e mulheres é um estribilho sistematicamente usado na lógica de vitimização e que merece um comentário mais sério.

Se quer invocar a sua condição de feminista, e as condições de trabalho das mulheres, a Senhora Ministra não deveria ignorar as conclusões de Claudia Goldin, prémio Nobel da economia em 2023 (eu sei, eu sei, que não existe nenhum prémio Nobel da economia, é um sucedâneo que é informalmente reconhecido como tal).

Entre as principais conclusões de Claudia Gondin está exactamente o facto de as desigualdades salariais entre homens e mulheres se acentuarem muito com o nascimento do primeiro filho, isto é, muito maiores que as desigualdades salariais entre homens e mulheres, são as desigualdades salariais entre mães e o resto do mundo (mulheres sem filhos, homens sem filhos e homens com filhos).

É claro que todas as mães são mulheres, o que permite fazer a amálgama que a Senhora Ministra fez, ao pretender reclamar para si uma condição de vítima, por ser mulher, quando, no essencial, deveria aplicar-se às mães, e não às mulheres.

Também é claro que a desigualdade salarial existe entre mães e pais, é verdade, mais uma vez isso decorre da condição de mãe, mais que da condição de mulher.

Naturalmente, não havendo mães que não sejam mulheres, pode dizer-se que isso decorre da condição de mulher, o que está certo, a possibilidade da maternidade é intrinsecamente uma condição da mulher, mas só se reflecte de forma mais visível no salário quando se concretiza, e não apenas por existir em teoria.

A mera possibilidade de uma mulher poder ser mãe tem algum reflexo, menor, na sua empregabilidade, e isso é tanto mais assim quanto mais custos de maternidade a sociedade imputar ao empregador, convém não esquecer.

Por isso, Senhora Ministra, se quer invocar a sua condição de feminista, por favor, use argumentos mais sólidos, relacionados com a condição da mulher, sobretudo fora das sociedades ocidentais.

Se se quer queixar do menor rendimento das mulheres em relação aos homens, talvez seja melhor ser um bocadinho mais séria e passar a chamar a atenção para o peso de ser mãe, peso esse que é um calvário para algumas mulheres e é uma fonte de realização para muitas outras.

No caso de algumas destas últimas, do que gostariam é que a organização do trabalho não exigisse o sacrifício das famílias, como acontece em alguns sectores (mulheres com sete filhos que chegam a Presidente da Comissão Europeia são muito raras, como Ursula von der Leyen e, de maneira geral, beneficiam de uma rede social e económica muito sólida para conciliar as duas coisas) e que o mercado de trabalho fosse mais aberto a carreiras profissionais flexíveis, que lhes permitissem conciliar as diferentes fases das famílias com entradas e saídas no mercado de trabalho, sem penalizações injustificadas, como agora acontece.

Reclamar para si, por ser mulher, um estatuto de desfavorecida usando a difícil condição de mãe no actual mercado de trabalho no Ocidente, isso é que não, Senhora Ministra.

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