segunda-feira, 13 de julho de 2026

Inevitáveis nacionalismos

(...) Não vale a pena ter ilusões: o futebol é a simulação de um certo tipo de guerra antiga, a guerra aristocrática travada entre grupos de heróis ou de “campeões” até à subjugação do adversário – uma subjugação do derrotado e o reconhecimento de superioridade do vencedor. A atracção nacional persiste com uma força psicológica indomável e o fascínio pelo combate dos heróis também. Todo o rito do nacionalismo moderno é meticulosamente praticado, desde a devoção à bandeira até ao hino cantado com uma emoção que nenhum outro momento da vida quotidiana consegue reproduzir. Mas não são apenas os ritos do nacionalismo moderno. Cada selecção e cada público recupera e reencena símbolos e práticas pré-modernas que, de modo autêntico ou fabricado pelo próprio nacionalismo moderno ou pela cultura popular contemporânea, sublinham a distinção de cada identidade nacional. Até a eleição do melhor jogador de cada equipa ao estatuto de herói nacional obedece à mesma pulsão. 

 Nos estádios de futebol, nas esplanadas e nas casas das famílias, o fervor que os fundadores das comunidades europeias tanto temiam regressa sem pretextos nem remorsos. Recordemos que o “ideal” europeu foi pós-nacionalista. E, enquanto a Europa dominou o mundo, a contradição com os restantes países “nacionais” parecia (aos Europeus) um sinal de confirmação de superioridade – uma espécie de vanguarda histórica que em breve seria imitada pelos outros povos. No Mundial de 2026, pelo contrário, o apoio fervoroso dos símbolos nacionais no estádio, e o sucesso desportivo das equipas europeias nos relvados, fazem do “ideal” do pós-Segunda Guerra Mundial um sintoma de debilidade.

Miguel Morgado no Observador

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