Esta reportagem do saudoso Jorge Lima Barreto de Maio de 1975 publicada na Revista Música & Som aquando da actuação dos Genesis noseu auge com a apresentação integral do álbum The Lamb Lies Down on Broadway em cascais em pleno PREC é uma delícia: “A luta à droga faz-se na prática revolucionária e não na perseguição paranóica da polícia.”
Ora leiam esta peça de museu:
GENESIS EM CASCAIS
A recente vinda do grupo «Genesis» a Portugal foi,
indubitavelmente, o melhor e maior acontecimento de música pop no nosso país.
Anteriormente apenas tinham vindo escórias de música ligeira
aparentada com a pop e apresentadas como sendo produtos válidos
internacionalmente. Desta vez, porém, a Organização trouxe da autêntica pop.
Como tal o espectáculo foi inédito. Porque revelou um novo
sistema de actuação, porque instruiu sobre o mercado da pop e porque se
desenrolou musicalmente impecável.
No primeiro aspecto: novo sistema de actuação: o
grupo Genesis procurou, dentro de conceitos gerais de pop-art, sistematizar o
espectáculo musical com novas estruturas: o ritual de Peter Gabriel (os seus
gestos paradigmáticos, os seus fatos fantásticos, a sua mise-en-scène
dionisíaca: movimentos dum solista de bailado exótico, referenciado a mundos
fabulosos da droga: mitologias ingénuas, inovações Kitsch, mas sempre
autenticamente pop.
O cenário era feérico: luzes estroboscópicas em permanente
alteração cromática, projecção de slides (isto sim: a selecção era do melhor
gosto, as fotos de nível inatacável, a oportunidade da sua projecção sobre três
panos digna dum verdadeiro artista).
Os movimentos lumino-dinâmicos sempre num complemento
rigoroso do desenvolvimento musical.
Explosões de granadas de luz, mudança fenomenal de cenários,
contaminação psicadélica, mas:
Segundo aspecto: o mercado pop:
O grupo actuou para vender o seu novo LP, os Genesis
mostraram aderir alienadamente à especulação bárbara dos produtores
discográficos, à loucura capitalista da reprodução mercantil — e isto sem
contestação: nada no seu show indicava a mínima revolta contra este estado de
coisas. Os Genesis cumpriram tudo o que uma sociedade burguesa esperava deles:
divertir, alienar, dar-nos prazer idealista, para isso:
Terceiro aspecto: a sua actuação musical foi, como
disse, esmerada: técnicos hábeis, de melodias cativantes, histórias genuínas no
panorama da pop-art, sem qualquer erro a imputar-lhes: o que a repetição
exaustiva comprovou tratar-se de produto duma estrutura tecnocrática: mercado
para consumir. Se bem que perguntemos: a música não serve afinal, e apenas, o
prazer? Não nos deram os Genesis um imenso prazer? Um aspecto suplementar deste
concerto. Mostrou como 20 mil jovens da classe média e/ou trabalhadora preferem
música a mixórdias sonoras que as opressões políticas pretendem inculcar. Vimos
como era insustentável a qualquer vedeta da «pop» baladeira nacional
apresentar-se àquele público.
É que na Arte a qualidade é primordial. Outro erro
calamitoso de certo controle opressivo que os partidos pretendem fazer é o da
imprensa:
Os diários lisboetas diziam: «Onda de violência em Cascais,
Um soldado morto, Destruição no recinto» — tudo mentira, falsidade, blasfémia.
Que os politiqueiros não gostem de música é uma coisa, mas deturpar as notícias
é típico do fascismo.
O soldado morreu de acidente de viação próximo de Cascais.
Não houve uma única cena de violência no pavilhão: as cadeiras partiram-se
porque 10 mil pessoas por noite não cabiam no recinto: eram elas ou as cadeiras
(a propósito: porque não se acaba de vez com as cadeiras, os lugares marcados,
a discriminação de bilhetes?) — o público senta-se no chão à medida que entra.
Outra novidade era: a droga. Talvez existisse, mas se
existia qual é o moralista da judiciária que pode combater tal facto? A droga
existe porque as condições sociais assim o permitem e facultam — não é a
repressão judiciária (à maneira fascista) que inverte esta situação — bem pelo
contrário.
A luta à droga faz-se na prática revolucionária e não na
perseguição paranóica da polícia.
De resto havia os tanques e os carros de assalto à volta do
recinto que «garantiam» a melhor «ordem».
O aparato militar conciliou-se perfeitamente com o pacifismo
dos espectadores. Uma lição: a boa música pop é inofensiva e não provoca
distúrbios. Os militares presentes em Cascais podem testemunhá-lo.
É absolutamente útil e desopilante a continuação deste tipo
de espectáculos. A Arte e a Liberdade são os melhores amigos...
J. L. Barreto

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