terça-feira, 16 de junho de 2026

Cara Isabél Zuaa

Depois da cena de Guimarães, em que a Isabél resolveu não actuar porque achou que não havia condições, andei à procura de alguma informação que não encontrei nas coisas que li sobre a sua opção: quantos espectadores estavam na sala, e quanto dos meus impostos foram gastos com a sua actividade artística.

Não fiquei a saber nada do que pretendia, mas tropecei nesta entrevista sua (e mais algumas coisas) que achei interessante.

Ao contrário do que li nas peças sobre a cena de Guimarães, a Isabel Martins é uma artista portuguesa e é falso que tenha origens guineenses e angolanas, a Isabel é filha de imigrantes de primeira geração (uma angolana e um guineense), nascida na Estefânia, num contexto que não seria de riqueza mas, ainda assim, longe da posição de excluída do mundo.

Pelo que diz na entrevista, cresceu numa família perfeitamente estruturada, com pais que se preocuparam com a sua educação e integração na sociedade.

Achei muito interessante a sua afirmação sobre o cuidado que o seu pai (suspeito que seria extensível à sua mãe) poria na necessidade de um português correcto para atenuar a discriminação decorrente da cor da pele, que provavelmente os seus pais conheceriam bem.

O que diz sobre a sua irmã e primas vai no mesmo sentido e é um sentido diferente do que escolheu para si, de que resulta a sua escolha de um nome que acentua a diferença, fugindo do portuguesíssimo Isabel Martins, para o exótico (mas não africano, o preconceito é uma coisa tramada) Isabél Zuaa.

Não tenho nada dessas mudanças de nome para vincar uma filiação cultural que se escolhe, como fez o senhor Robert Zimmerman e muitos outros artistas ao longo da história, mas isso não altera o essencial: se do ponto de vista cultural da sua família a Isabél poderá dizer que tem mais cultura africana que eu, o facto é que eu ter nascido em África e lá ter estado até bem dentro da minha adolescência me torna mais africano que a Isabél, apesar da minha pele deslavada.

É aqui que queria chegar, a Isabél resolveu fazer da cor da sua pele uma afirmação identitária, está no seu direito, mas essa é uma opção pessoal racista, não é uma forma de combate ao racismo, tanto quanto me parece.

E a cena de Guimarães parece demonstrar a minha ideia, se aquilo que li estiver correcto: a Isabél teve um desaguisado com os técnicos de sala, que deu origem a uma altercação à volta de um problema que aparentemente vinha de trás, sem ligação aparente com qualquer questão racista.

Mas como a Isabél escolheu o racismo como uma questão central a que liga a sua identidade pessoal, uma diferença profissional não pode ser só uma diferença e um confronto profissional, para si, tem de ser uma questão de racismo.

Penso que foi do Miguel Alçada Baptista que li com mais clareza que este abuso do uso do racismo para manter uma superioridade moral que poderia estar em causa - uma artista que se recusa a servir o seu público por causa de questões marginais sobre a preparação técnica de um espectáculo, esquecendo que quem paga o espectáculo são os contribuintes e o destinatário final é o seu público - na verdade enfraquece a defesa das verdadeiras vítimas de racismo que, essas sim, são muitas e variadas e bem precisam de gente que, no espaço público, lhes dê voz e apoio.

Não, minha cara Isabél, a senhora pode dizer que sendo mulher, preta e artista, está no fim da cadeia alimentar, é lá consigo e é o tipo de vitimização que só comove quem quer ser comovido, mas de africano branco para europeia preta lhe digo com toda a clareza que o seu abuso da cor da sua pele para se promover não é um bom serviço prestado à necessária e permanente luta contra o racismo.

3 comentários:

  1. O Racismo é uma estupidez, o caso desta Senhora é de uma pinderiquice deprimente, provavelmente para desviar atenções de eventual défice em matéria de arte





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  2. a sua escolha de um nome que acentua a diferença, fugindo do portuguesíssimo Isabel Martins

    Segundo leio na wikipedia, Zuaa também é apelido dela. O nome completo dela é Isabél Maria Zuaa Martins.
    Qualquer pessoa é livre de utilizar o apelido que herdou (presumivelmente) da sua mãe, em vez daquele que herdou (presumivemente) do seu pai.
    Portanto: ela não escolheu o seu nome, apenas escolheu qual dos seus dois apelidos utiliza para seu nome artístico.
    Da mesma forma que eu utilizo "Luís Lavoura" como meu nome de marca, embora tenha outros nomes.

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    1. Foi o que eu escrevi, cada um é livre de usar o nome que quiser, mas já que tens tanto a mania de andares à procura de coisinhas para mostrar que sabes mais e és mais rigoroso que os outros, toma lá o que a própria diz " No Conservatório usava Isabel Martins, que achava muito português, não trazia a minha africanidade. Conhecia uma senhora que se chamava Isabel Martins que tinha cara de Isabel Martins. [risos] E disse à minha mãe que iria fazer uma homenagem às minhas avós no nome, a paterna é Isabel e a minha avó materna é Susana (Zua Mutange)."

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Cara Isabél Zuaa

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