terça-feira, 28 de abril de 2026

Coincidências duvidosas

Ontem o Público fazia a sua manchete com um não assunto: Santos Pereira comprou umas acções que declarou ao Banco Central Europeu (ou lá a quem seja que tem a responsabilidade, ao nível europeu, de tratar da supervisão em relação aos actos do presidente do Banco de Portugal), essas compras foram consideradas inadequadas, e Santos Pereira rapidamente as reverteu, resolvendo o assunto.


Percebe-se que existam regras de transparência em relação aos investimentos de quem possa ter informação privilegiada, mas pretender que é estabelecendo um sistema prévio completamente blindado que se impede um malandro de contornar as regras, é bastante infantil.


As regras de transparência não devem ter como objectivo prevenir as irregularidades ou ilegalidades, devem ter como objectivo facilitar o escrutínio de "coincidências duvidosas".


As coincidências duvidosas existirão sempre (eu, por exemplo, acho uma coincidência duvidosa do interesse do Público na integridade de Álvaro Santos Pereira, interesse esse que nunca existiu em relação à integridade de Mário Centeno), mas não demonstram coisa nenhuma, servem apenas para dar origem a investigações que permitam esclarecer o que for possível esclarecer.


Por exemplo, por mais que existam coincidências duvidosas sobre a casa de Montenegro, se depois de meses e meses de investigações sobre o assunto nada de relevante surgiu que seja condenável (se é eticamente aceitável ou não é uma matéria que diz respeito a cada um, não há nada na lei e na sociedade que obrigue alguém a usar os meus critérios éticos no que faz ou deixa de fazer), não faz sentido insistir em considerar suspeitas as coincidências duvidosas que possam existir, a menos que se suspeite que há, na investigação, coincidências duvidosas que inviabilizem os seus resultados (e assim por diante, para ilustrar onde nos leva este caminho da desconfiança permanente e irredutível).


O princípio geral é o que a transparência deve existir, mesmo sendo necessário discutir os limites dessa transparência, por exemplo, eu acho completamente abusiva a exigência da entidade para a transparência conhecer todos os clientes de um político, com o argumento de que talvez consiga encontrar coincidências duvidosas nas relações entre um cliente e um prestador de serviços que me permitam precaver o tráfico de influências.


É que, ao mesmo tempo que perdemos tempo a tentar desfazer, antecipadamente e sem indícios relevantes de irregularidade, as coincidências duvidosas que imaginamos que possam existir, convivemos tranquilamente com a descrição de verdadeiros tráficos de influência na operação influencer que, sem surpresa, não resultam de formalmente se ter desvalorizado as regras formais, mas do evidente abuso de mecanismos informais que pretendem ocultar comportamentos no uso do poder que são inaceitáveis, em primeiro lugar, e, provavelmente, ilegais, em segundo lugar.


Não deixo de achar uma grande coincidência, muito duvidosa, a existência de um fortíssimo corporativismo do jornalismo actual e a dificuldade em escrutinar as coincidências duvidosas entre os conteúdos jornalísticos e as agendas políticas em cima da mesa.

4 comentários:

  1. O  essencial está no Último Parágrafo deste texto, que só por si justifica todo o artigo 


    E se o Jornalismo ainda vale alguma coisa, era no escrutínio das suas relações com a Política e seus agentes, que se devia concentrar.

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  2. aquilo a que chamam jornalismo parece ser mais uma organização de esquerda a tentar criar um novo prec.
    ouvi ou li que A S P procurou reforçar a carteira de títulos que já tinha.

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  3. A ignorância do governador do Banco de Portugal não é uma notícia? E a compra de ações na Galp não lhe desperta curiosidade? Espantoso!

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  4. O interesse sobre o "Álvaro" advém do senhor governador ter explicado, tintim por tintim, que não há crise na restauração. 


    Quando foi com o Costa, ele calou-se e deu o IVA reduzido. Zero interesse jornalístico sob a vida privada do senhor. O Álvaro teve a infeliz ideia de provocar as corporações.  Até a cor das cuecas lhe vão quere saber.


    Penso que era isto que o presidente da Assembleia da República se referia quando criticava a exposição mediática dos políticos.

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