Estive ontem numa conferência do Jornal ECO em que se discutia se a economia poderia salvar a floresta.
O meu argumento base é simples: "é um grande erro misturar o valor da indústria transformadora com o valor da produção florestal, o que nos leva a políticas erradas porque assentes na ideia, completamente errada, de que a produção florestal é economicamente muito importante para o país. O negócio da produção florestal é tão mau que a SONAE e a Amorim, que nunca tiveram produção florestal, se viraram recentemente para a produção florestal. Porque a produção florestal é um bom negócio? Não, exactamente porque é um negócio tão mau que se não forem eles a investir nisso, ninguém o vai fazer. Por que razão insisto nisto? Porque temos um problema gravíssimo de falta ou sub gestão que resulta da falta de competitividade da gestão de biomassa fina na generalidade do território, e continuamos a insistir em políticas que partem do princípio de que um negócio de tostões é um negócio de milhões, por isso o que é preciso é obrigar os gananciosos dos produtores a pagar uma gestão socialmente imposta, por via regulamentar e administrativa, quando eles não gerem porque não têm recursos para isso. O resultado dificilmente será diferente do que tem sido, se continuarmos com este equívoco de misturar o valor da indústria transformadora com o valor da produção de matéria prima".
Outros participantes na conferência têm visões bastante diferentes, como é normal em problemas complexos, e o que me interessa é a referência feita à necessidade de criar um fundo florestal para apoiar o sector da produção florestal.
O Fundo Florestal já existiu, era financiado a partir do consumo de combustíveis (conceptualmente perfeito, um sector emissor de CO2 para a atmosfera financiaria um sector que capta CO2) e foi integrado no Fundo Ambiental, a origem do financiamento dos passes nas grandes cidades (agora não sei se isso foi alargado a todo o lado, o essencial é que a ideia de financiar a deslocação de pessoas para diminuir as emissões de CO2 parece ser uma ideia que não levanta grandes questões).
Enquanto existiu, o Fundo Florestal financiou essencialmente dois tipos de entidades: o Estado e os que vivem de tentar resolver os problemas do sector, mas nunca financiou a produção florestal, mesmo que só na gestão de serviços de interesse geral, como a gestão de biomassa fina.
O que verdadeiramente me interessa é a diferença de percepção social em relação a duas coisas que são exactamente o mesmo, o financiamento dos passes e o financiamento da gestão de biomassa fina.
Ninguém, no seu perfeito juízo (tirando os menos de 5% que ainda defendem que a apropriação colectiva dos meios de produção dá origem a economias mais eficientes, mas é discutível que se considerem pessoas no seu perfeito juízo), acharia normal que o Estado, apoiado pela sociedade, chegasse aos operadores de transportes e lhes dissesse que todos beneficiamos com uma mobilidade mais sustentável, que para isso era preciso que os preços de transporte não ultrapassassem um determinado valor e que a GNR e a PSP iriam fiscalizar a aplicação desse valor, revertendo os meios de transporte para o Estado se se verificasse que os donos não cumpriam a determinação.
Alguns poderiam sugerir actuar através da fiscalidade, aumentando os impostos até níveis confiscatórios para os que não praticassem os preços definidos pelo Estado, na esperança de que perante o risco de pagar impostos muito altos, os operadores de transporte operassem com prejuízo, sem abandonar a actividade.
Pois bem, estas opções, que nos parecem absurdas, são exactamente as opções que adoptámos em relação à produção florestal.
Perante um cenário de preços internacionais (sim, para o caso de alguém ter dúvidas de que é dos preços internacionais que estamos a falar, é olhar para a evolução da produção de resina) que condicionam a competitividade e sustentabilidade económica da gestão florestal (em especial da biomassa fina), levando ao abandono de gestão, o Estado, apoiado pela sociedade, maioritariamente urbana, quer impedir a existência de efeitos socialmente negativos do abandono da gestão obrigando os proprietários a gerir com prejuízo.
E quando, como é o meu caso, alguém defende que se o serviço de gestão de biomassa fina é de interesse geral e uma questão chave para uma gestão mais serena dos fogos (o que se resolve com a existência dessa gestão não são todos os problemas do mundo, só abre possibilidades para uma gestão mais serena do fogo), então o melhor é a sociedade pagar esse serviço de forma simples e transparente, cai o Carmo e a Trindade, que não se podem criar rendas e coisas que tais, questões que ninguém levanta (ou muito poucos, já agora) com o pagamento de passes de transportes públicos, em que o mesmo princípio é aplicado sem o menor burburinho social.
Sociedades urbanas usam os recursos dos contribuintes para resolver problemas urbanos, se não os usam para resolver os problemas rurais, não se queixem quando os problemas rurais ganham um dimensão que ameaça o mundo urbano.
à noite a floresta consome O2. salvam-nos as algas.
ResponderEliminaros vegetarianos produzem metano como qualquer animal de 4
ResponderEliminarOutros participantes na conferência têm visões bastante diferentes, como é normal em problemas complexos
Não, não é normal.
Esses outros participantes deveriam ser convidados a gerir (como eu giro) alguns eucaliptais de dimensão não muito grande, a ver se conseguiam enriquecer dessa forma. Provavelmente descobririam passados alguns anos que, não só não conseguiam enriquecer, como de facto estavam sempre em risco iminente de perder dinheiro com os seus eucaliptais.
ResponderEliminarMas deveria levantar.
Quando se financia a deslocação de pessoas o que acontece é que pessoas que antes não se deslocariam, ou que têm uma necessidade muito pequena de se deslocarem, passam a deslocar-se.
Por exemplo, quando as pessoas têm um passe social no bolso, passam a tomar um autocarro só para se deslocar uns 500 metros - uma distância que facilmente percorreriam a pé.
Quando as pessoas passam a ter um passe para deslocações na CP, começarão a ir passar sábados em Évora ou Viana do Castelo, só para espairecer. Comboios que circulavam meio cheios vão passar a não ter lugar para quem precisa efetivamente de os usar.
ResponderEliminarMuitas pessoas em Lisboa, que mandam no país, estão também enformadas pela visão de que os proprietários de terra são todos, tendencialmente, como os latifundiários alentejanos, que extraem rendimento da terra que gerem - em boa parte devido aos subsídios que recebem. Para essas pessoas, ter terra e tratar dela é rentável, nem concebem que possa ser de outra forma - pois se há tanta gente a querer comprar ou gerir latifúndios no Alentejo, só pode ser porque possuir e gerir terra é rentável!
As pessoas de Lisboa não sabem que o Norte e o Centro do país não são como o Alentejo, aliás boa parte delas nunca pôs os pés a norte de Rio Maior.
ResponderEliminarSou um pequeno agricultor e sinto-me descriminado, a caminho de ser promovido a escravo.
Tenho cerca de 1 hectar de terra marginal com mato (o resto vai a caminho) que tenho de limpar com dinheiro vindo de outro lado.
Pago os meus impostos, que vão servir a comunidade dos outros.
Falando de transportes e passes:
Quando preciso ir a Lisboa, querem que use os transportes públicos, mas como o faço ocasionalmente, não tenho passes e por isso pago os transportes, por mim tambêm subsídiados, com "lingua de palmo". É um incentivo a não usar o carro!
Acontecia que no Metro tinha de ter um cartão onde carregava as viagens, cada vez que comprava passagens tinha de comprar um cartão, pois o outro já tinha expirado! Passei a comprar o cartão e carregava logo com 9 passagens e assim diluia o preço do cartão nas 9 viagens
Há os portugueses de Lisboa e os outros. Eu faço parte dos outros e querem-me promover a escravo, pois querem-me obrigar a trabalhar sem nada em troca, pois isso destina-se ao bem da comunidade.
O que mais me choca é pensar que os que condenam a escravidão existente há séculos, são os querem isso de mim.
Não tenho nada contra os residentes de Lisboa onde tenho família
ResponderEliminarUma celulosa ou corticeira ter produção florestal é normal, empresas têm subsidiárias deficitárias, que lhes dão outro valor que não o pecuniário, como qualidade de serviço ou segurança no acesso a matéria-prima, por exemplo.
Em Portugal acima de tudo resolvem-se os problemas de Lisboa e Porto. Uma curiosidade que me pingou no telemóvel, um cronista do Observador a queixar-se da opção Metrobus no Porto, ao fim de 20 anos. Que diria se morasse ali na zona rústica de Coimbra,
ResponderEliminarNão é somente reduzir o CO2, mas também qualidade de vida (menos trânsito), diminuir pressão de estacionamento e facilitar a expansão urbana para as periferias.
Acho que ninguém de bom senso e total capacidade motora vai esperar por um autocarro, fazer uma viagem com paragens, em condições que desconhece (em pé, apinhado), quando pode fazer a mesma deslocação a pé dentro de um espaço de tempo controlado e com condições.
Mas percebo, esta coisa dos passes L e dos transportes públicos integrados é para Lisboa, o resto que ande de tractor ou de carroça.
ResponderEliminarAcha mal.
Observa-se múltiplas vezes pessoas a tomar um autocarro numa paragem e sair na paragem seguinte ou duas paragens depois.
Já me aconteceu diversas vezes perguntar pelo caminho para um local a, digamos, 500 metros a um quilómetro de distância e as pessoas a quem pergunto não acreditarem que eu queira ir a pé e pretenderem dizer-me como ir de autocarro.
A existência de passes faz com que múltiplas pessoas façam de autocarro múltiplos percursos que, se não tivessem passe, facilmente fariam a pé.
Não vou repetir um comentário que já fiz noutro postal mas repito as duas ideias base:
ResponderEliminarAlguns enriqueceram a produzir vinho em adegas, ninguém enriqueceu a cultivar uvas.
A cidade tende sempre a concentrar o poder político e a parasitar o seu "hinterland".
ResponderEliminarA cidade tende sempre a concentrar o poder político e a parasitar o seu "hinterland".
É verdade. Será em parte por causa disso que alguns Estados americanos tiveram o cuidado de instalar a sua capital numa cidade relativamente pequena. (Por exemplo, a capital da Califórnia é Sacramento e a da Pensilvânia é Harrisburg.)
Em Portugal verifica-se ademais que os departamentos territoriais, chamados concelhos, têm quase todos a sua sede na maior povoação do concelho, que dessa forma suga todo o poder e prestígio para si. Cada concelho tem a sua cidade-sede, que oblitera as outras povoações importantes que eventualmente existam no concelho. Há um verdadeiro feudalismo concelhio.