A CIP dos bombeiros, isto é, a associação dos patrões dos bombeiros, sonsamente chamada Liga dos Bombeiros Portugueses, percebeu rapidamente a fragilidade do novo governo em matéria de pensamento estratégico sobre gestão do fogo (e, em geral, sobre gestão da paisagem) e aproveitou para ver se conseguia fazer o tempo voltar para trás.
Não me interessa muito discutir se a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) deve ser extinta ou não, acho uma asneira extinguir, mas não me interessa muito a discussão sobre decisões administrativas.
No entanto, interessa-me bastante discutir algumas das coisas que, segundo a Lusa, o patrão dos patrões dos bombeiros diz aqui.
Em especial, três coisas, uma das quais na verdade não é dita, mas está na base do que é dito.
O primeiro aspecto, o tal que não é dito, mas está na base do que é dito, é o que diz respeito ao papel do combate na gestão do fogo.
O fogo é um processo ecológico fundamental dos nossos ecossistemas e o que podemos fazer, tal como em relação à água ou ao solo, é compreender a sua natureza e características para tirar partido desse processo ecológico, deixando arder, ou promovendo o fogo, quando nos é útil, e limitando o desenvolvimento dos fogos que nos são mais prejudiciais que benéficos.
Dito de outra maneira, o que temos de fazer é escolher quando, como e onde arde, e não pretender suprimir o fogo das nossas paisagens, coisa que para além de impossível, é sobretudo estúpida e contra-producente.
Assim sendo, o combate aos fogos é apenas um dos instrumentos de gestão de que dispomos e, seguramente, não o mais importante e o centro da gestão do fogo.
Esquecendo esta trivialidade, António Nunes diz duas barbaridades que não podem passar sem contestação.
A primeira, diz respeito à auto-suficiência (dir-se-á, com propriedade, que a ignorância é muito atrevida) que considera "esta agência criada pelo anterior Governo socialista após os incêndios de 2017 tem um modelo baseado no combate aos incêndios dos Estados Unidos, Canadá e Chile, que a Liga rejeita".
António Nunes, cujo curriculum no combate aos fogos desconheço, ao contrário do curriculum do presidente da AGIF que só por acaso não morreu num incêndio que matou várias pessoas da brigada em que estava integrado, acha que Portugal não tem nada a aprender sobre gestão de fogos com países como os EUA, o Chile e o Canadá (e poder-se-ia acrescentar todos os outros que têm uma visão contemporânea do fogo, como a Austrália).
E com que base António Nunes, cujo curriculum científico em matéria de gestão de risco desconheço, ao contrário do presidente da AGIF, que tem um doutoramento na matéria, diz que Portugal é tão bom, mas tão bom, na gestão de fogo, que não precisa de estudar o que fazem outros países para lidar com a complexidade do problema?
É a segunda coisa que merece ser lida, porque contado não se acredita: "“Não pode haver bombeiros da floresta e bombeiros do edificado. Portugal não é isso, sabem perfeitamente que 10 minutos, 20 minutos depois de um incêndio florestal, nós temos uma casa, um povoado à frente, portanto, o nosso bombeiro tem que ser um bombeiro completo, como conseguimos desde 1976 para cá. Foi por isso que nessa altura se fez essa aposta”, frisou".
Para quem não esteja familiarizado com a discussão permanente, e braço de ferro que os patrões de bombeiros têm ganho sempre que os grandes incêndios começam a desvanecer-se na memória colectiva (2017 já foi há quase sete anos, o que quer dizer que estamos mesmo a meio do ciclo, entre os grandes fogos de 2017 e os grandes fogos que virão a ocorrer por volta de 2030, mais ano, menos ano), o que está em causa é o modelo que em Portugal, escusamos de olhar para os outros países se isso incomoda António Nunes, é responsável pela incidência de fogo de cerca de um quarto da média nacional, nos povoamentos das celuloses.
Nesse modelo as funções de combate florestal são executadas por bombeiros profissionais treinados em combate ao fogo florestal, com ferramentas com cabo de pau, os pés assentes na terra, conhecimento da situação e uso do fogo de em acções de combate ao fogo florestal, e as funções de protecção do edificado e das populações são executadas por outros corpos de bombeiros, eventualmente com forte presença de bombeiros voluntários, e usando técnicas de combate ao fogo urbano, incluindo uma muito maior presença de água e ausência de gestão de combustíveis.
A discussão sobre o modelo que desde 1976, como diz o patrãos dos patrões dos bombeiros, tem dado os resultados conhecidos, ou a alternativa de separação das funções de combate ao fogo florestal e de protecção civil, não tem nenhuma relação com a necessidade de bombeiros completos, espera-se que todos eles o sejam, mas sim com a especificidade de cada modelo de combate, em função do problema a resolver: gestão do fogo florestal ou protecção civil.
Infelizmente é bem possível que a CIP dos bombeiros consiga os seus objectivos porque, e espero estar redondamente enganado, o novo governo tem mais necessidade de baixar a rejeição eleitoral que de ter pensamento estratégico sobre gestão do fogo.
Afinal ainda faltam uns anos até chegarmos ao pico do risco de grandes fogos e, no curto prazo, é muito mais provável arder o governo que o país.
ResponderEliminar10 minutos, 20 minutos depois de um incêndio florestal, nós temos uma casa, um povoado à frente
Eu creio que isto é em geral verdade, pelo menos nas regiões de minifúndio do Norte e Centro do país.
Ao contrário do que aconteceu (ao que já ouvi dizer) em Espanha, em que o governo franquista fez um esforço deliberado de pressionar as populações a juntarem-se em aldeias grandes e vilas, impedindo-as de viver em pequenos lugarejos espalhados, Portugal parece encantar-se com ter pessoas espalhadas a viver pelo meio das florestas. Tanto se encanta que pagou para reconstruir, no mesmo local, as casas que foram destruídas nos incêndios de 2017.
Pois. Pelos vistos é um costume que vem de longe. Também se reconstruiu a cidade de Lisboa, sempre no mesmo sítio, depois de, repetidamente, ter sido danificada, e mesmo arrasada, por terremotos...
ResponderEliminarTivesse o caro Balio estado ativo no comentariado dos bloques no séc XVIII, com a sua douta sapiência, e talvez Lisboa tivesse sido reconstruída lá para os lados da Guarda, ou até do Porto, por onde os danos dos terremotos são, por norma, muito mais ligeiros ...
ResponderEliminarHá boas razões para se ter sempre reconstruído Lisboa no mesmo sítio: Lisboa era, antes do advento das modernas obras de engenharia marítima, o melhor porto de Portugal (e talvez até da Península Ibérica). Um porto de qualidade natural imbatível.
(Atualmente, isso já não é uma vantagem determinante.)
Pelo contrário, a maior parte dos lugarejos que atualmente estão espalhados pelo meio da floresta portuguesa não tem qualquer vantagem em estar localizada onde está.
ResponderEliminar
ResponderEliminarM.Sousa muda de estratégia. O objetivo é o mesmo (atacar-me) mas agora, em vez de falar de Lisboa, põe-se a falar de África.
Eu não estou a falar de "confinar" ou "acantonar" as pessoas seja onde fôr. Estou a falar de o país não pagar para manter as pessoas a morar no mesmo local.
Caro Balio, ficou sem argumentos...
ResponderEliminarNão é difícil no seu caso.