segunda-feira, 22 de abril de 2024

Em louvor de Ribeiro Telles

“V: A excessiva divisão do território (em meio milhão de proprietários) dificulta as limpezas florestais?
GRT: A limpeza da floresta é um mito. O que se limpa na floresta, a matéria orgânica? E o que se faz à matéria orgânica, deita-se fora, queima-se? Dantes era com essa matéria que se ia mantendo a agricultura em boas condições e melhorando a qualidade dos solos. E, ao mesmo tempo, era mantida a quantidade suficiente na mata para que houvesse uma maior capacidade de retenção da água.
Com a limpeza exaustiva transformámos a mata num espelho e a água corre mais velozmente e menos se retém na mata, portanto mais seco fica o ambiente.
V: Se as matas estivessem bem limpas ardiam na mesma?
GRT: Ardiam na mesma e a capacidade de retenção da água não se dava, passava a haver um sistema torrencial. A limpeza tem que ser entendida como uma operação agrícola. Mas esta floresta monocultural de resinosas e eucaliptos, limpa ou não limpa, não serve para mais nada senão para arder. Aquela floresta vive para não ter gente. Se houvesse lá mais gente aquilo não ardia assim”.


Em Agosto de 2003, depois dos grandes incêndios desse ano, a Visão entrevistou Ribeiro Telles e, em Junho de 2017, depois de Pedrogão, a então sub-directora da Visão, Alexandra Correia, republicava a entrevista, afirmando “Esta entrevista tem 14 anos mas podia ter sido dada hoje”, acrescentando uma frase que, em qualquer caso, não se baseia na entrevista, mas num abuso de interpretação “Vale a pena voltar a ler as suas palavras e perceber como nada aprendemos com a História, continuando ano após ano na permissividade da celebração do eucaliptal”.


Comecemos por este abuso, e depois vamos à substância das coisas.


Ribeiro Telles é claríssimo na sua oposição à florestação comercial, a que contrapõe um mundo rural anterior à revolução verde.


Em Portugal, esse era um mundo rural de agricultores e pastores – usando o fogo como um instrumento essencial para a gestão e queimando extensamente matéria orgânica – cujas actividades se interligam.


Nessa visão, pinheiro e eucalipto estão no mesmo pé, ao ponto de afirmar, na mesma entrevista: “Perguntem às vítimas dos incêndios que ficaram sem as casas se querem outra vez pinheiros à porta. Destruíram as hortas… Porque ardem as casas? Porque o pinheiro está no quintal”.


De resto, a afirmação final que transcrevi “Se houvesse lá mais gente aquilo não ardia assim” está absolutamente certa, apenas está errada a relação de causa e efeito estabelecida: não é por causa da florestação que lá está menos gente, é porque está lá menos gente que há florestação comercial.


No entanto, a jornalista acha que nas palavras de Ribeiro Telles está uma crítica à permissividade da celebração do eucaliptal, o que manifestamente não é verdade.


É verdade que Ribeiro Telles sempre foi fortemente crítico da produção de eucalipto, mas não é verdade que essa fosse a questão central para ele, apresentá-la desse modo corresponde a uma coisa muito frequente nos que se apoiam em Ribeiro Telles para fundamentar os seus pontos de vista: a deturpação do que era o seu pensamento.
Vamos então à substância da citação com que começo este post.


Em 2003, quando a entrevista é feita, Ribeiro Telles tem 80 anos, mais coisa menos coisa, pelo que grande parte do diz é relevante em função da experiência e conhecimento desses 80 anos, mas ninguém poderia esperar que fosse relevante por corresponder ao conhecimento mais actualizado sobre temas específicos.


Não é, pois, de espantar que Ribeiro Telles, ou qualquer outra pessoa com 80 anos (ou mesmo eu, com os meus actuais 60 e qualquer coisa) diga coisas que correspondem a conhecimento desactualizado, sobretudo em matérias que não são o centro da sua actividade intelectual ao longo dos tais 80 anos.


É manifestamente o caso da ecologia do fogo, uma disciplina incipiente durante quase toda a vida activa de Ribeiro Telles, que se desenvolve, em Portugal, essencialmente a partir dos anos 80 do século XX (já Ribeiro Telles tinha a idade que tenho agora, uma idade que posso confirmar que, mesmo que se saiba muito mais, se aprende muito menos do que se aprendia quando se tinha 20 anos e ideias menos cristalizadas).


O que justifica esta resposta: “V: Se as matas estivessem bem limpas ardiam na mesma? GRT: Ardiam na mesma”, que está manifestamente errada, já estava errada quando Ribeiro Telles a diz, mais errada está hoje (no sentido em que mais informação o demonstra), mas era possível que não estivesse demonstrado que estivesse errada quando Ribeiro Telles, muitos anos antes, firmou a sua convicção de que o que comandava a progressão do fogo eram as árvores dominantes de um povoamento.


Já em 2003 era perfeitamente claro que o que comanda o fogo é a quantidade e estrutura dos combustíveis finos, sendo as espécies de árvores que dominam o povoamento razoavelmente indiferentes, sendo muito mais relevante para a discussão a frase seguinte da resposta, a que infelizmente se dá muito menos atenção “A limpeza tem que ser entendida como uma operação agrícola”.


Mais de vinte anos passados sobre a entrevista (ou, no momento da sua republicação, 14 anos depois) é possível avaliar se o futuro confirmou as previsões de Ribeiro Telles quando afirma “Com a limpeza exaustiva transformámos a mata num espelho e a água corre mais velozmente e menos se retém na mata, portanto mais seco fica o ambiente”.


E o que sabemos hoje é que não há a menor evidência de que as previsões de Ribeiro Telles se tenham verificado, mesmo que parcialmente.


De resto, os fogos de 2017 são, eles mesmos, indício de que os problemas não foram os identificados por Ribeiro Telles, ou melhor, Ribeiro Telles está certo quando identifica a derrocada do mundo rural pré-revolução verde e a sua relação com a florestação comercial, mas nem a solução que propõe é viável – retornar a esse mundo rural cheio de gente – nem os efeitos são os que previu.


Na maioria do território o que há é abandono, como que isso significa de ausência de gestão dos combustíveis finos, criando as condições para fogos progressivamente maiores, mais contínuos e intensos, que têm um efeito de retroalimentação do abandono ao diminuir a viabilidade económica da gestão (“A limpeza tem que ser entendida como uma operação agrícola”, diz Ribeiro Telles sem que daí retire qualquer conclusão útil para a discussão da sua viabilidade económica, discussão que afasta com profissões de fé sobre a viabilidade económica de usos alternativos, nunca demonstradas).


Numa pequena parte do país, os cerca de 200 mil hectares geridos pelas celuloses, que teoricamente não serviriam para nada se não para arder, a prevalência de fogo é um quarto da média nacional, os combustíveis finos são intensamente geridos porque há uma actividade económica que gera recursos para essa gestão e beneficia da diminuição da prevalência do fogo.


Não há qualquer sinal de que se tenha formado um “espelho e a água corre mais velozmente e menos se retém na mata” porque o interesse dos produtores florestais é reter a água e o solo, razão pela qual desenvolveram técnicas de produção com esse objectivo, em especial modelos de plantação em socalcos que permitem reter água, solo, nutrientes e diminuir a capacidade erosiva das escorrências, conduzindo-as por sistemas de drenagem eficientes, mas também plantações que permitem executar uma série de operações ao longo da curva de nível, ao mesmo tempo que a linha, e a vegetação que nela subsiste com as técnicas usadas, funciona como barreira à escorrência.


Quer isto dizer que não vale a pena ler e discutir Ribeiro Telles?


Não, de maneira nenhuma, o que quer dizer é que não vale a pena lê-lo como se fosse o oráculo de Delfos, aceitando acriticamente tudo o que pensou, escreveu ou disse e, muito menos, distorcer o seu pensamento para usar o seu justificado prestígio para contrabandear as ideias de terceiros.


Louvar Ribeiro Telles é ler os originais, ouvir os originais, de forma crítica e compreendendo o contexto do que é escrito e dito, reconhecendo o seu mérito e o que tem de modernidade, mas evitando que o uso indevido das suas ideias acabe por destruir o valor do que fez e disse, apenas porque, inevitavelmente, em tudo o que disse e escreveu, haverá sempre coisas erradas ou inviáveis.


É por isso de saudar que amanhã seja lançado mais um livro com o que escreveu e espero que isso se traduza em mais gente a compreender melhor o contexto do que pensou, escreveu, disse e fez.

5 comentários:





  1. Mas as espécies de árvores que dominam o povoamento têm uma influência importante sobre a quantidade e estrutura dos combustíveis finos que estão sob elas e, por essa via indireta, sobre o fogo.



    Árvores particularmente boas para o fogo são os pinheiros, uma vez que as suas folhas (chamadas "agulhas") contêm um teor de água muito baixo e demoram muitos meses a degradar-se. As agulhas caídas das árvores acumulam-se durante meses no solo, totalmente secas, e formam um excelente combustível.


    Os eucaliptos, pelo contrário, tendem a intoxicar, com os óleos das suas folhas, as plantas que crescem por baixo deles, pelo que são desfavoráveis para o fogo - sob um eucaliptal há em regra relativamente poucos combustíveis finos.


    Por exemplo, segundo já li, a Índia tem enormes problemas com fogos florestais nas vertentes dos Himalaias, porque essas vertentes estão em larga medida cobertas de pinheiros, e portanto de agulhas muito boas para arder.

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  2. em tudo o que [Ribeiro Teles] disse e escreveu, haverá sempre coisas erradas


    Eu só uma vez ouvi Ribeiro Teles ao vivo, e dessa vez ele largou uma calinada que me fez ouvir com muito ceticismo tudo o mais que ele disse.


    Falava ele sobre a agricultura em planícies e depois contrapôs com a agricultura de montanha, "como a que se faz na Baviera", disse ele. Eu até se me arrepiaram os cabelos, pois qualquer pessoa sabe que a Baviera é, na sua imensa maior parte, constituída pela planície aluvial do Danúbio, pelo que, a agricultura bávara (que é muito rica) é na sua grande maior parte uma agricultura de planície aluvial (tal como, por exemplo, a agricultura húngara).

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  3. Oráculos não serão o Ribeiro Teles, o Nuno Palma, ou a Susana Peralta. E no entanto, movem-se.


    E decerto que, como qualquer cientista, Ribeiro Teles alterou as suas teorias, e as suas conclusões. Ao contrário dos wokes, que se regem por princípios teológicos, os cientistas são capazes de se contradizer, sem perder a razão

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  4. É, salvo erro (não estou pata ir averiguar) a segunda vez que o Balio (sem aspas e sem discernimento) afirma esta calinada. É claro que a maioria da Baviera tem planícies mas a Baviera também tem montanhas (quem duvide pode "googlar" montanhas da Baviera). 
    E quando Ribeiro Telles se refere à agricultura praticada nas montanhas da Baviera, está a dizer isso mesmo. Sem adjectivos nem ressalvas. A agricultura praticada nas montanhas da Baviera.

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  5. Claro, claro. E também se pode falar da agricultura de montanha, como a que se faz na Índia, ou da agricultura de planície aluvial, como a que se faz em Portugal, omitindo que só uma minúscula parte da agricultura da Índia é de montanha, e que só uma parte relativamente pequena da agricultura de Portugal é feita em planícies aluviais.

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