quarta-feira, 10 de abril de 2024

A família tradicional não precisa de ser defendida?

Os meus 5 tostões sobre o assunto do momento, que, antevendo esta polémica, escrevi aqui há quase 10 anos.


Nunca ninguém garantiu que a liberdade, a escolaridade e a prosperidade democratizassem o sentido de responsabilidade ou o bom senso. Vem isto a propósito de um fenómeno que o "inverno demográfico" esconde: se é previsível que daqui a dez ou quinze anos tenhamos metade das escolas ao abandono, mais graves serão as consequências duma  crise que se adivinha na "família" como célula mãe da sociedade, capaz de corroer de forma dramática os alicerces da nossa civilização. 


Sou daqueles que teve a sorte de crescer numa família tradicional - sem dúvida um espaço alicerçado no equilíbrio entre a tolerância e repressão - daquelas com abrangência alargada, com casa dos avós, tios, primos e tudo; como que um mosaico de pequenas comunidades, mais ou menos interligadas numa rede de solidariedade, afectos e partilha de história comum - e que de forma decisiva em tempos me socorreu. É certo que para que este antigo e eficaz modelo se generalizasse na sociedade contemporânea, concorreu uma equívoca mistificação do casamento romântico na geração dos nossos pais: O casamento tradicional foi-lhes "vendido"  por Hollywood como um conto happily ever after e resultou num estrondoso baby boom. Completamente fora de moda por estes dias, denúnciada a família como “instituição burguesa,decadente e repressora” pela geração do Maio de 68, não se prevê que eu tenha grande sucesso explicando-o aos meus filhos como instituição ligada à responsabilidade, ao altruísmo, à perseverança e ao prazer diferido. A verdade não vende, como não ganha eleições. 


Como bem sabemos, cada vez há menos casamentos, no sentido da formação de novas “casas”, modelo de sucesso comprovado inspirado na aristocracia liberal europeia. Consta que no ano passado, das poucas crianças nascidas, mais de metade terão sido fora do casamento. Por exemplo, durante o ano de 2014 na paróquia do Monte da Caparica na margem sul do Tejo – sei bem que é um microcosmos algo especial - realizaram-se apenas quatro casamentos católicos. Curioso como no meio conservador que frequento também são cada vez mais raros os sinais de cedência dos jovens a esse modelo, sendo frequentes as relações amorosas "liberais" prolongadas, assumidas com um pé dentro e com outro fora da casa dos pais – julgam que obtêm assim o melhor dos dois mundos. Por ironia trata-se do reconhecimento de como a casa de família que alguém edificou e mantém para eles, é afinal útil e virtuosa instituição como seu último reduto de refúgio e reconhecimento, apesar de votada à extinção.


Temo que estejamos a criar uma sociedade de indivíduos isolados e frágeis com pertenças difusas, precárias ou inexistentes até. A família como eu conheci, como um organismo intermédio, projecto perene, crivo cultural com história própria, território protector do grande monstro igualitário da cultura dominante para a formação de seres críticos e livres, atravessa uma grave crise. Essa família que ainda hoje acolhe os deambulantes jovens adultos, quais eternos filhos pródigos que adiam assumir as suas opções e uma realização plena, por troca dum prato de lentilhas ou um smartphone de última geração, símbolo da sua “liberdade individual”. Se calhar ao definir este fenómeno como se de uma crise se tratasse, estarei a ser optimista. Porque esse termo por definição designa algo passageiro – e eu estou longe de pressentir alguma mudança no rumo da história.  


 

19 comentários:

  1. Passageiro podia ser nos anos a seguir ao Maio 68(com suas implicações em todo o Ocidente). Entretanto passaram 5 décadas e tal. 

    ResponderEliminar
  2. E nessas 5 décadas foi feito um tal caminho que hoje em dia é considerado por muitos (ou seja, boa parte da sociedade actual incluindo os que, ironicamente,são dependentes da sua familia) como retrógado e ultrapassado qualquer tentativa de defender a familia dita tradicional. 

    ResponderEliminar
  3. A Rússia (NADA a ver com  urss ) percebeu-o muito bem...
    Juromenha

    ResponderEliminar

  4. no ano passado, das poucas crianças nascidas, mais de metade terão sido fora do casamento


    Mas não necessariamente fora de famílias tradicionais. Os pais podem estar a viver juntos sem serem casados.


    O facto de uma criança ser registada como sendo filha do pai A e da mãe B, os quais não são casados um com o outro, não significa necessariamente que A e B não vivam juntos há já muito tempo e que não vão continuar juntos durante muito tempo mais.


    A e B podem formar uma família tradicional, mesmo não sendo casados.

    ResponderEliminar




  5. Muitas pessoas não têm a possibilidade, que pelos vistos o João Távora teve, de ter avós e tios a morar na mesma localidade, ou próximo. Muitas pessoas têm que migrar para ganhar a vida, e então ficam longe dos avós e dos tios. Também, muitas pessoas atualmente têm filhos quando os seus pais já faleceram; por exemplo, os meus filhos jamais conheceram os avós paternos (e eu próprio não conheci o meu avô materno, que morreu quando a minha mãe era ainda adolescente).
    A família paradisíaca em que o João Távora cresceu, com avós e tios todos vivos e a morar por perto, é deveras excecional.

    ResponderEliminar

  6. A família tradicional que o João Távora defende começou a ser destruída quando foi aprovada a lei do divórcio, lá para 1976 ou 1980, não sei bem.
    Se o João Távora quer mesmo, mas mesmo mesmo, defender a família tradicional, então deve pedir que o divórcio volte a ser proibido. E que os filhos ilegítimos voltem a ser identificados como tal no cartão de cidadão.

    ResponderEliminar
  7. sem dúvida. tal e como a taxa de natalidade também está associada à de divorcialidade. mulher nenhuma com 3 dedos de testa tem mais filhos do que aqueles que pode criar sozinha , 2 no máximo .

    ResponderEliminar
  8. protestam contra a família tradicional ! mas elas estão a entrar pela  emigração e essas mulheres não têm problemas com o número de filhos ou com a habitação.
    Olhemos para Gaza onde qq mulher tem 4,5, 6 ou 7 filhos. por isso dizem que 50% da população tem menos de 18 anos. Isto acontece sendo eles totalmente dependentes do exterior mesmo antes da guerra.

    ResponderEliminar
  9. Uma família em que um dos progenitores está fora de casa por motivos laborais pode ser considerada tradicional?

    ResponderEliminar

  10. É precisamente por serem totalmente dependentes do exterior que têm muitos filhos: porque alguém lhes paga a vida, por mais filhos que tenham.
    O mesmo ocorre em Israel com os judeus ultra-ortodoxos: têm muitos filhos, em boa parte porque recebem subsídios do Estado que lhes permitem sobreviver apesar dos muitos filhos que têm.

    ResponderEliminar

  11. a família tradicional ! mas elas estão a entrar pela  emigração


    Acha? Eu diria que grande parte dos imigrantes são pessoas sós (maioritariamente homens). Não são famílias tradicionais que vêem para cá todas inteiras.

    ResponderEliminar

  12. Exatamente, boa pergunta.
    Por exemplo, uma prima minha, casada e com dois filhos, educou-os a maior parte do tempo sozinha, porque o marido vive no estrangeiro a trabalhar (embora venha a Portugal visitar a família umas 4 vezes por ano).
    Isto é uma família tradicional, ou não?

    ResponderEliminar
  13. Se pensarmos bem, Jesus Cristo, fruto do um processo misterioso de inseminação artificial, foi aceite por outro homem como sendo seu filho... e foi criado até ao fim da sua vida apenas pela sua mãe. Mal sabia ele que milénios depois haveria de ter seguidores a pregarem o que é uma família tradicional...

    ResponderEliminar

  14. Para todos aqueles que nasceram no Século XX até à Década de 80 começava-se a trabalhar entre os 16 e os 18 anos (alguns até mais cedo), os homens ainda tinham que cumprir o Serviço Militar caso contrário teriam muita dificuldade em arranjar trabalho, e aos 23 anos, grande parte dos Portugueses já vivia sozinho ou constituía família.


    Era esta a realidade de Portugal até 2012 quando foi subvertida pelo XIXº Governo liberal/maçónico liderado pelo ex-Primeiro-Ministro, Pedro Coelho, que provocou uma crise económica e social sem precedentes, tendo liderado o ataque à Classe-Média Portuguesa com o objectivo de a destruir.

    ResponderEliminar
  15. Não é a Lei do Divórcio que destrói a Família, muito pelo contrário, se quer incentivar a constituição de Famílias e impedir que as mesmas se desfaçam ou sejam destruídas é simples, basta acabar com os subsídios que o Estado paga às mães e com as pensões que os pais têm de pagar, que acaba-se logo os divórcios, a separação, ou Famílias que não se constituem.


    Existe um esquema criminoso que consiste nas mulheres engravidarem, depois separam-se do pai do(s) seu(s) filho(s), para ficarem a receber os subsídios Estatais e as pensões que os pais são obrigados a pagar.

    ResponderEliminar
  16. Na União Soviética e nos chamados Países Socialistas, a Família ou Família Tradicional, era um dos pilares do Estado e da Sociedade, sendo protegida pela Lei:


    ResponderEliminar
  17. Portanto, até nisso os governos anteriores a PPC/AD de 2011 (governos do PS) são ilibados?

    ResponderEliminar
  18. Não seja palerma, a diferença entre os anteriores Governos e o XIXº Governo liderado pelo ex-Primeiro-Ministro, Pedro Coelho, é nenhuma, é a mesma agenda política, económica, e de engenharia social, com a qual os Portugueses não se identificam, no entanto o Governo do dr. Pedro Coelho - para além de ter mentido aos Portugueses - fez algo inédito, liderou o ataque à Classe-Média Portuguesa com o objectivo de a destruir.

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...