sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Mediadores, casas devolutas e terrenos sem dono

Das que pessoas que conheço, e são muitas, que sabem mais que eu sobre gestão florestal, penso que não haverá uma única que ligue menos que eu aos problemas da estrutura da propriedade florestal quando se discutem os problemas do sector.


Não é porque eu ache que seja irrelevante ter 2 mil metros quadrados ou dois mil hectares para gerir, é apenas porque me parece um assunto menor face à gravidade do problema da falta de rentabilidade da exploração florestal.


Claro que conheço o argumento de que parte desses problemas de rentabilidade resultam exactamente da escala das intervenções, mas nunca vi isso demonstrado: a maior parte do VAB florestal é proveniente de regiões de minifundio e o que não faltam são grandes propriedades sem gestão por ser muito difícil retirar rendimento dessas propriedades.


Em igualdade de circunstâncias é melhor ter mais área para gerir que menos, mas a questão de fundo é bem ilustrada pelo que disse sobre o VAB florestal: não é porque o minifundio facilita a gestão florestal que a maior parte do VAB florestal vem das zonas do minifúndio, é porque o minifundio coincide com as zonas de maior produtividade.


Se a falta de rentabilidade da gestão florestal fosse sobretudo uma questão de dimensão da parcela de gestão, todos os baldios geravam rendimentos substanciais e haveria um mercado de compra de terrenos para emparcelar, como aconteceu nos anos 80 na fileira do eucalipto.


O facto de haver terrenos que ninguém reclama não é um factor relevante na gestão florestal, é antes um sintoma de dificuldade do sector produzir riqueza em muitos sítios.


Nas actuais circunstâncias, a produção de cortiça pode ser um negócio razoável, a produção de eucalipto nas regiões de melhores produtividades é um negócio viável, e a exploração de pinho (quer para pinhão, resina ou pau) está no limite da viabilidade nas melhores regiões que não coincidam com regiões interessantes para o eucalipto (o pinhal poderia ser interessante em algumas áreas, mas o eucalipto é um bocadinho mais).


Lembrei-me disto quando estava a ler, por estes dias, o livro "Trancas à porta, desfazendo mitos sobre a crise da habitação", de Carlos Guimarães Pinto, Juliano Ventura, André Pinção Lucas e Filipa Osório, editado pela Aletheia e Instituto +Liberdade.


O livro lê-se muito bem, tem uma opção política de base clara (é um livro feito por liberais) mas não me parece que tente vender gato por lebre, centrando-se muito em factos verificáveis.


E o capítulo que me fez pensar nesta história dos terrenos sem dono foi o capítulo sobre as famosas 700 mil casas devolutas, que são usadas frequentemente para dizer que não é preciso construir mais e que os mediadores encartados dos jornais raramente desmontam como os mediadores que escrevem este livro desmontam.


Se os jornalistas que escrevem sobre habitação tivessem mais atenção aos factos e ao que se pode verificar que aos soundbytes produzidos por quem tem interesse em vender medidas de política, e bastar-lhes-ia ler este livro, quase todo o programa Mais Habitação seria ridicularizado nos jornais, dia sim, dia não, por se basear muito mais em pensamento mágico e preconceito que na realidade verificável.


Quando os mediadores que deviam mediar não o fazem competentemente, outros mediadores aparecem, como é o caso do Instituto +Liberdade, que se farta de apresentar factos (não apenas neste livro, é mesmo uma das suas actividades principais), com o objectivo de permitir discussões de políticas públicas bastante mais racionais.


Os senhores que estão no Congresso dos Jornalistas bem podiam dedicar cinco minutos a este assunto, em vez de, mais uma vez, se fazerem de vítimas de um processo de contornos obscuros que põe em perigo a Democracia.


Mais factos e menos treta era mesmo um excelente mote para todo o congresso.

23 comentários:

  1. Caro Henrique, 
    Claro que os mediadores da informação, ou melhor, os tipos que escrevem nos jornais, nem têm a noção de que o principal problema da comunicação social está neles próprios. Com mediadores do calibre dos actuais incumbentes o melhor mesmo é ir directo à origem da informação. 
    O que o dito congressos pretende atingir é uma avença para todos paga pelos contribuintes. E lá esteve o abominável PR, esse saco cheio de nada, para, com as vacuidades do costume, lançar a escada  para a avençazita... Há que ter boa imprensa, não é verdade?

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  2. «...Trancas à porta, desfazendo mitos sobre a crise da habitação...»




    Os Estrangeiros que estão a ser deslocados em massa para Portugal desde 2012 recebem subsídios para pagarem as rendas dos imóveis onde foram colocados a viver, assim, e com a liberalização e desregulamento dos valores das rendas, os Portugueses estão a financiar subsídios para pagar os arrendamentos dos outros e os proprietários de imóveis a cobrar valores ilegais, que não correspondem à realidade.


    A chamada "lei das rendas" é ilegal, criminosa, e inconstitucional, na Assembleia da República nenhum Governo ou partido político denuncia esta situação nem exige que sejam tomadas medidas para que os responsáveis por este acto criminoso e ilegal sejam julgados e condenados, nem que a respectiva lei seja revogada. Tendo em conta a situação e visto que Governos e partidos políticos não estão a cumprir com as suas obrigações, que os Portugueses lhes delegaram, resta perguntar por onde anda a Polícia Judiciária e o Ministério Público?

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  3. O Congresso da Vergonha.


    Os jornalistas não são mediadores, são actores politicos. É para isso que a maioria foi para o jornalismo para fazer politica pura e dura.
    O maior problema do jornalismo é o Entrismo.

    https://en.wikipedia.org/wiki/Entryism

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  4. Aconselho-te vivamente a pôr mais tabaco na mistura...

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  5. Mais congresso de activistas do que de jornalistas. As escolas de jornalismo - avaliando pelos resultados - são madrassas de neo-marxismos. Claro que os seus ex-alunos sentem o direito de exigir à sociedade, como reparação de tretas, que lhes assegure emprego para a vida. É a sua cultura.

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  6. As casas devolutas não são um problema, que poderia ser resolvido com recuperação ao invés de aumentar áreas urbanizadas?

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  7. Sugiro que leia mesmo o livro, porque os dados são muito claros: das 700 mil, quase metade não são devolutas, estão em transição, isto é, vazias sim, mas porque estão à espera de ser vendidas ou alugadas, estão no mercado.
    Do resto, para além das disputas de herdeiros, a esmagadora maioria ou estão fora dos sítios onde há falta de casas, ou estão em condições de habitabilidade tal que a recuperação é cara (e, frequentemente, fortemente travada pela regulamentação), ou têm características que não correspondem às necessidades actuais.
    Resumindo, há casas que poderiam ajudar a resolver o problema, mas a dimensão desse contributo é marginal.

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  8. a maior parte dos gargarejantes: do país conhecem unicamente as autoestradas

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  9. É um disparate de todo o tamanho dizer que as casas  devolutas (= desabitadas) são a causa do problema da habitação em Portugal.
    A causa desse problema são as casas de segunda habitação, ou seja, as casas que são regularmente habitadas pelos seus donos, mas somente ocasionalmente, alguns dias por ano.
    Muitas dessas casas pertencem a estrangeiros, mas a maior parte delas pertence a portugueses, alguns residentes em Portugal, outros emigrantes.
    Por exemplo, eu conheço diversas famílias que têm uma casa em Lisboa e outra em Cascais. Algumas delas habitam na casa de Lisboa e utilizam a de Cascais para férias, outras habitam na casa de Cascais e pernoitam só ocasionalmente na de Lisboa.
    Da mesma forma, deve haver montes de famílias que têm uma casa no Porto, outra nos concelhos balneares limítrofes de Vila do Conde, Gaia, ou Espinho.

    Isto sem falar de todos aqueles que têm casas de férias no Algarve, claro, e em muitas outras zonas do país.
    E sem falar dos emigrantes que têm em Portugal casas que passam onze meses por ano vazias, e de variados estrangeiros que compraram casas de férias em Portugal.
    É essa a razão pela qual, por mais casas que se construa em Portugal, nunca serão as suficientes. Porque as casas que se constroem servirão, em boa parte, como segundas habitações. 

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  10. Eu tenho uma moradia devoluta no Porto. Está inabitável, até em risco de derrocada (enfim, isso não, porque é de pedra e não cairá facilmente). Meti um projeto na Câmara para a transformar num T1 e num T2. O projeto está encalhado na Câmara já vai quase para dois anos. A moradia está devoluta e inabitável, mas não é por minha culpa, que tenho vontade e dinheiro para a reabilitar. A Câmara é que está no meu caminho.

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  11. Se lesses o livro onde, com números, se discute o que dizes, percebias que fazer generalizações a partir de percepções pessoais é um grande disparate.
    Ou melhor, perceberias se quisesses perceber, o que é raro acontecer.

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  12. Diz que a esmagadora maioria... marginal não será. 
    Outra questão é velha, a da densidade populacional heterogénea. Dificilmente "Lisboa " resolve o problema da habitação quando mais de um terço do país lá reside, com tendência para aumentar, a que se juntam migrantes (os nacionais) e turistas.
    Com transportes decentes, podia muita gente residir no Oeste e fazer vida laboral em Lisboa.

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  13. Mas já leu o livro ou tem dados de outras fontes, ou vai continuar a fazer afirmações levianas sobre um assunto sobre o qual decidiu que não quer ter informação?

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  14. Estou a usar a fonte hps, que leu o livro. E escreve que das 700mil metade não são devolutas,  e o resto "




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  15. Não que concorde com as conclusões do balio (se bem que não será o primeiro e único neste espaço a usar experiências pessoais para tirar conclusões generalizadas) ...
    Mas esse livro é "o" livro, tipo Bíblia Sagrada? Não faltarão livros e trabalhos académicos com outras conclusões. 

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  16. A sério que não percebo onde quer chegar.
    Metade não são devolutas (estão vazias, mas no mercado), a esmagadora maioria das restantes ou estão fora das zonas onde há falta de casas (portanto não servem para resolver o problema) ou estão de tal forma degradadas que não servem (e estas são uma minoria dentro da esmagadora maioria).
    Ou seja, as que estão em zonas razoáveis e passíveis de ser recuperadas, são num número tão pequeno que se torna marginal para resolver o assunto.
    Qual é mesmo a sua questão?

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  17. Apresente números dizendo de onde vêm, pode ser?

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  18. Como pode o Henrique querer que eu leia o livro, se ele só foi editado em outubro e se somente ontem ouvi falar da sua existência?
    Fui a uma livraria, disseram-me que o livro está esgotado. Encomendei-o.
    Não o terei lido antes de um mês ou mais.

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  19. Recebi agora um SMS da Almedina: "Lamentavelmente, o artigo Trancas à Porta não está disponível, pelo que a encomenda do mesmo será cancelada."


    Portanto, um livro editado em outubro já está indisponível em janeiro. Curiosa edição...

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