quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Sarjetas que funcionam

Uma das minhas netas ficou ontem debaixo de uma derrocada parcial de um muro de suporte que está dentro do perímetro de um parque infantil, embora, por uma sorte inacreditável, não tenha sofrido nenhum esmagamento de ossos ou orgãos internos, nem lesões na coluna (ficou tudo pelos músculos, aparentemente).


Nesta fotografia, o dito muro e a criança à espera da vinda dos bombeiros, com ordens para não se mexer, porque não se sabia que consequências poderia ter havido de ter ficado debaixo daquelas duas pedras mais à esquerda, junto ao muro.


fran 2023 dez.jpg


Há muitos anos que venho dizendo que votarei no candidato a presidente de câmara que em vez de prometer rasgos estratégicos que nos levarão a pináculos de desenvolvimento, sofisticação e avanço social, prometa ter as sarjetas sempre funcionais e limpas.


Na verdade, o meu voto até é bastante ideológico (ao contrário do que acontece com a maioria dos eleitores, já agora) mas antes disso há a questão da responsabilidade que se prende com a questão institucional, chamemos-lhe assim.


Ao comentar com o pai da criança (vivem nos EUA) como situações destas são tratadas de forma diferente nos EUA, imediatamente referiu um conjunto de procedimentos nestas matérias que ninguém se atreveria a deixar de cumprir, quando existem riscos como o que existia e existe naquele cantinho de um parque infantil.


Fiquei a saber hoje que a polícia passou depois por lá e disse que já antes tinha havido um problema e ontem diziam os indivíduos do quiosque próximo que havia umas guardas junto ao muro que foram retiradas para se cortar uma árvore próxima, e depois não foram colocadas de novo.


As diferenças entre os EUA e Portugal, na forma como tratam destes assuntos (e, em geral, da segurança do espaço público) resulta de haver melhores regulamentos sobre parques infantis, ou trânsito rodoviário em áreas residenciais, ou outra coisa qualquer?


De maneira nenhuma, os regulamentos americanos podem ser tão bons ou tão maus como os nossos (aliás variam muito porque Portugal tem uma longa tradição de centralismo mas os EUA têm uma longa tradição de autonomia das comunidades, portanto as suas regulamentações reflectem muito os valores de cada comunidade), o que verdadeiramente é diferente é que a responsabilização é um assunto levado muito a sério, o sistema de justiça funciona em tempos curtos e as indemnizações são a sério (a forma como os condutores se preocupam com as crianças que vão na rua em áreas residenciais não pode ser só boa educação, é mesmo porque atropelar uma criança, mesmo que a responsabilidade objectiva seja da criança, em zonas residenciais, pode ter impactos brutais na vida de quem a atropela, já considerando todas as atenuantes).


Este sistema não é perfeito, com certeza, diz a minha filha que quando quer saber como é uma coisa qualquer, em concreto, com que prazos, com que procedimentos, vão-lhe respondendo por telefone, mas quando diz para, sendo assim, porem tudo por escrito num mail para não haver dúvidas, o habitual é haver uma recusa, porque a partir desse momento, se alguma coisa correr mal, a pessoa em concreto pode ser responsabilizada pelo que escreveu.


A verdade é que seria muito mais difícil manter uma situação perigosa dentro do perímetro de um parque infantil nos EUA, tal como buracos nos passeios ou nas estradas, bancos que caem em esplanadas ou outros espaços públicos, infraestruturas que não cumprem as suas funções, irresponsabilidade financeira da administração pública, etc., etc., etc..


A esperança de que algum dia essa cultura de responsabilização seja dominante em Portugal parece-me pequena: se perante a indecente e má figura de António Costa, não apenas nos últimos anos, mas durante todo consulado de José Sócrates, ainda consegue convencer tanta gente de que os cortes do tempo da troica foram da responsabilidade de Passos Coelho, é mesmo porque temos medo, muito medo, de assumir responsabilidades e, por isso, acabamos a aceitar a irresponsabilidade, quer pessoal, quer institucional, como aceitamos a chuva ou o sol.


Aliás, é para mim cada vez mais evidente que o grande legado de António Costa é o seu contributo para o reforço dessa cultura, pessoal e institucional, de irresponsabilidade: o homem consegue estar há semanas a repetir que a responsabilidade do seu pedido de demissão não é dele, que o fez, mas de terceiros.


Não se pode dizer que seja coisa de que se deva orgulhar.

29 comentários:


  1. Os EUA têm uma cultura do litígio. Não é à toa que metem avisos nas caixas de alfinetes a alertar para o perigo no caso de os meterem na boca. Ou os copos de café do St*rB*cks, que estão quentes.
    Ainda há uns dias a filha de uma amiga escorregou em casa de outrém e partiu um pé. Nos States, já se sabia quem pagava a conta...


    Agora, a conclusão do texto é que é... ideológica, para não dizer mais. A cultura da desrenponsabilização é tão antiga quanto me lembro, não é legado do Costa, ou do Socas. E é transversal, da esquerda à direita, da elite à plebe. Tem muito a ver com Justiça (que tarda, e normalmente falha), corporativismo (que tende a defender os seus, até às últimas), e o tradicional nacional-porreirismo.

    ResponderEliminar
  2. Obrigado por repetir o que está no post, os comentários que dizem exactamente o mesmo que está escrito no post são sempre muito úteis.

    ResponderEliminar
  3. o parque infantil dos dirigentes do ps não permite a criação de riqueza e colocou os contribuintes numa sarjeta ou bueiro.
    'que mais me irá acontecer!'

    ResponderEliminar




  4. Não me parece que isso seja positivo.


    Uma vez tive uma discussão com um francês sobre uma coisa similar. O francês tinha tido a sua filha pequena atropelada enquanto almoçava num restaurante junto à rua numa povoação algarvia. Queixava-se de que em França, se alguém atropelava uma criança, era automaticamente considerado culpado. Eu insurgi-me e disse que isso podia ser assim em França, mas que em Portugal não era assim, o condutor não era culpado se a criança se tivesse lançado para debaixo do seu carro; era preciso averiguar se era isso que tinha acontecido. O francês ficou furioso comigo.

    ResponderEliminar
  5. Tem que ser. Se o comentário for oposto ao conteúdo do texto, é ser estúpido e sonso e tal.

    ResponderEliminar
  6. Tem havido alguns progressos: agora, nas praias portuguesas, sempre que há uma arriba em risco de desabar, há uma placa a avisar desse risco. Os banhistas continuam a colocar-se junto à arriba mas, se esta desabar, as autoridades já podem argumentar que a culpa foi do banhista...

    ResponderEliminar
  7. Para ti, não sei, para as crianças não atropeladas costuma ser muito positivo que os condutores tenham medo de as atropelar, mesmo sem terem responsabilidade objectiva, antigamente chamava-se prudência a essa atitude por parte dos condutores.

    ResponderEliminar

  8. Quais são os mais úteis, os que dizem o mesmo ou que dizem o oposto? É difícil aferir a qualidade do comentário relativamente à do texto. Oh well, wokes will be wokes. Eu é que sei, vocezes não alcançam aqui o reiciocínio.


    Quanto aos States, é curioso como a cultura do litígio choca com a da responsabilidade individual que tanto prezam. Se lá tiverem um copo de água a ferver e queimarem a mão porque a enfiaram lá, podem processar e ganhar... porque não havia aviso. O senso comum não vale, o indivíduo é tratado como tolinho. Não à responsabilidade estatal, mas privada. Entre a cultura do medo e da balda total, haverá um meio termo.

    ResponderEliminar

  9. Confunde duas coisas, velocidade da indemenização e cultura de segurança, se nos EUA a cultura de segurança fosse grande não haveria nunca lugar em indemenizações, e não é isso que acontece.


    Não compreendo, o António Costa é responsável pelos muros dos parques infantis? ou as pessoas votam António costa porque se estão marimbando para os parques infantis?



    Com este tipo de ligação podemos associar o António Costa (ou qualquer outro) a tudo desde a dor de dentes ao culto mariano.Por exemplo:
    Se o SNS tivesse mais dentistas a minha sobrinha pequena não teria tido dor de dentes, a culpa disso é do governo que não cuida do SNS, e o chefe do governo é António Costa, logo é ele o culpado.
    Se a nossa vida corresse melhor não existiria tanta gente a encomendar-se à Virgem Maria, acresce a isso que os acessos ao Santuário de Fátima estão em bom estado. Tanto o governo do país como a construção e manutenção dos acessos são responsabilidade última de António Costa, logo este é responsável pelo aumento do culto mariano.


    Pode fazer este exercício com o que quiser e com quem quiser.

    ResponderEliminar

  10. A questão é saber, havia alguma indicação objetiva de que o muro que desabou estaria em vias de desabar?
    Portugal é uma terra muito declivosa e, como tal, há por toda a parte muros de sustentação, os quais podem estar ou não estar prestes a desabar. E, naturalmente, não se vai desaproveitar todos aqueles espaços que estejam perto de um muro que possa eventualmente desabar. Da mesma forma que não se interdita todas as praias que tenham arribas que possam eventualmente cair.
    Só se desaproveita um espaço se houver indicações minimamente concretas de que esse espaço representa um perigo imediato.

    ResponderEliminar
  11. Consegue ler no que escrevi alguma responsabilização de António Costa pelo que se passou ontem no Parque Eduardo VII.
    Ora leia com atenção e transcreva aqui a parte em que acha que escrevi isso, se não se importa.

    ResponderEliminar
  12. espero que não seja nada de importante e desejo as melhoras

    ResponderEliminar
  13. "...ainda consegue convencer tanta gente de que os cortes do tempo da troica foram da responsabilidade de Passos Coelho."


    Então e não foram? Quem é que o mandou ir além da troika? Já não se lembra da austeridade em dobro, é?

    ResponderEliminar
  14. Claro que não se consegue. O texto está profundamente explícito, os leitores são é todos burros e tiram a conclusão errada.

    ResponderEliminar

  15. Impactos brutais terá sempre, a não ser que o condutor seja um sociopata.
    Impactos legais é outra coisa. Claro que ser judicialmente culpado de uma infracção, quaisquer que sejam as condições, é incorrecto.


    Mas para lá da protecção legal, existe uma questão cultural no comportamento na estrada. Onde resido actualmente, os carros andam "a medo", enquanto que os ciclistas fazem manobras malucas, exactamente o oposto de Portugal.

    ResponderEliminar

  16. É claro que haveria uma solução simples e barata, que seria colocar no muro do parque infantil em questão um letreiro a dizer "Muro em risco de desabamento \\ Está aqui por sua conta e risco". Mas, se assim fosse, haveria dezenas de letreiros similares por este país fora... e ninguém os respeitaria.
    Eu quando vivia na Alemanha utilizava para ir para o trabalho (a pé) um caminho que tinha à entrada uma tabuleta a dizer (em alemão) qualquer coisa como "Perigo de formação de gelo \\ Percorre por sua conta e risco". E prontos, dessa forma as autoridades desresponsabilizam-se de qualquer ocorrência.

    ResponderEliminar
  17. E porque é que as autoridades têm de ser responsabilizadas pelo facto de alguém escorregar no gelo? O facto de estar lá o aviso não chega? Ou por outra, se é suposto a culpa de alguém escorregar no gelo ser das autoridades, então o melhor é nem colocar avisos, assim pelo menos não há equívocos.


    (estou a lembrar-me dos casos de avisos de derrocadas nas falésias do Algarve, a que depois ninguém ligava pevide, com consequências que já foram profusamente noticiadas)

    ResponderEliminar

  18. porque é que as autoridades têm de ser responsabilizadas pelo facto de alguém escorregar no gelo?


    Não têm, de facto. Por exemplo, se uma estrada tem gelo e um carro derrapa nela, despista-se e cai por uma ravina abaixo, as autoridades não podem ser responsabilizadas. Da mesma forma, se um caminho pedonal tem gelo e um peão escorrega nele, cai e parte a cabeça, as autoridades também não têm que ser responsabilizadas.


    O facto de estar lá o aviso não chega?


    O aviso é, como eu sugiro no parágrafo anterior, desnecessário. Ele somente torna mais explícito que as autoridades não assumem qualquer responsabilidade por eventuais acidentes.


    os casos de avisos de derrocadas nas falésias do Algarve, a que depois ninguém [liga] pevide


    Exatamente. Os avisos não servem, de facto, para que as pessoas não se ponham por baixo das falésias. Os avisos servem é para avisar as pessoas que, se a falésia lhes cair em cima, o Estado não assume qualquer responsabilidade por isso.

    ResponderEliminar
  19. Diz que o muro caiu porque há uma cultura de desresponsabilização, e que António Costa aumenta essa cultura. A ligação pode não ser direta mas está lá.
    A propósito de fugir a responsabilidades, um modo de o fazer é dizer que a culpa é do governo anterior e que só se governou assim porque a Merkel mandou através da Troika. Corresponde a dizer que não fazia ideia do que fazer e que se limitou a ser um pau-mandado.

    ResponderEliminar
  20. Claro. Não assume e não tem de assumir. As pessoas fazem as suas escolhas relativamente aos locais por onde querem andar. Ao Estado compete restringir a liberdade de circulação quando haja sérios riscos para a integridade física das pessoas, nomeadamente vedando o acesso a locais perigosos no espaço público. Pegando numa situação diferente, se uma ponte está em risco sério de derrocada, compete ao Estado interditar o acesso à ponte.

    ResponderEliminar
  21. A propósito de um facto concreto, faço uma comparação entre a forma como duas culturas tratam esse facto.
    Realço a cultura de responsabilização numa e noutra cultura.
    Digo que há uma cultura de irresponsabilidade na nossa sociedade.
    Por fim, digo que a esperança de que isso se altere é muito pouca.
    E, nesse altura, dou o exemplo de António Costa, cujo legado de reforço dessa cultura de irresponsabilidade me parece evidente, chegando ao ponto da sua própria demissão, que justificou com os seus pontos de vista sobre as circunstâncias, ser sistematicamente apresentada, pelo próprio, como da responsabilidade de terceiros.
    Como diz, e muito bem, a ligação não é directa.
    A forma de não assumir a responsabilidade pelo erro do seu comentário anterior é dizer é dizer que a coisa que não é directa, em vez de dizer, responsavelmente, que realmente eu não responsabilizei António Costa pelo facto inicial.

    ResponderEliminar
  22. Não, não me lembro, pelo contrário, foram sendo negociados resultados menos agressivos que os previstos no memorando de entendimento que o PS negociou com a troica, não me lembro de nenhum resultado a que esse governo se tenha proposto que tenha sido mais ambicioso que aquilo a que o PS se comprometia a fazer, se fosse governo.

    ResponderEliminar
  23. Se não responsabilizou António Costa pelo facto inicial, por alma de que santo é que o cita?
    Está a falar de um parque infantil e o único nome citado é António Costa.
    Claro, como eu já disse, pode-se ligar tudo a toda a gente com argumentos mais ou menos rebuscados e depois dizer-se que escrevemos um parágrafo que não tem nada a ver com o resto, está lá por acaso, mas parece um pouco forçado. Parece que a Drª Lucinda Gago especialista desses parágrafos.

    ResponderEliminar
  24. Cito porque quero e quero porque acho mesmo gravíssimo que António Costa esteja, há anos, a contribuir para a degradação das instituições exactamente através do reforço da cultura de desresponsabilização.

    ResponderEliminar
  25. Os  comentários (  duas excepções ,Luclucky  e G.Elias )  , justificam plenamente a conclusão subjacente ao seu texto.
    Somos assim    -   daí sócrates, costas e o émulo do Dâmaso que está na forja..
    Qualquer charlatãozeco  de feira que prometa bacalhau a pataco ( e, definitivo, , não ter o trabalho de o pescar...) tem o futuro garantido neste "jardim à beira -mar plantado"...
    Juromenha

    ResponderEliminar

  26. Ao Estado compete restringir a liberdade de circulação quando haja sérios riscos


    Claro. Mas também compete ao Estado alertar as pessoas para riscos de que elas podem não estar conscientes. Como, por exemplo, para a fragilidade de algumas estruturas (naturais ou artificiais) que parecem sólidas. Como falésias ou muros.

    ResponderEliminar

  27. É a táctica ventura/Pedro Guerra.
    Eu acho que o futebol é corrupto. O Sporting e o Porto têm sido beneficiados. Os dois factos não estão ligados, apenas estou a dizer. Vocês é que tiram essa conclusão

    ResponderEliminar
  28. Não faço ideia de quem seja Pedro Guerra, mas repare que eu não começo com uma opinião, mas com um facto.
    Depois, não faço nenhum processo de intenções sobre terceiros.
    Por fim, não tiro nenhuma conclusão do tipo da que está a dizer.
    Logo, o que escreveu não tem nenhuma ligação com o que escrevi.

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...